Demônios do Golpe
Cláudio Pimentel
A cama rangia no meio do nada. Alguém se mexia como quisesse correr, voar, mergulhar, se desvencilhar do desconhecido. Fui oferecer amparo. A face carregava as rugas do tempo. “Quer alguma coisa?”, perguntei. “Cuidado”, disse num cicio. E, logo, se contorceu, se avermelhou e se safou rindo como os Demônios sempre riem. Os sonhos são um barato e nada os explica, apesar do exército de decifradores presentes na natureza.
Foi o “Conclave”, atinei enquanto, já sentado à beira da cama, me recuperava de mais uma viagem onírica, tendo nas mãos a causa: minha cabeça. O filme, que teve oito indicações ao Oscar, em 2025, estava sendo negligenciado por mim. E tudo porque sinto-me impaciente diante de algo que lembre bastidores, seus conchavos e intrigas. Já vi muitos, dentro ou fora deles. Não gostei. São injustos, desonestos. Os bastidores são moedores de almas.
Ganhador da estatueta de Melhor Roteiro Adaptado, o filme, que prometia um embate ferino, não negou fogo e me deixou embaraçado com a força dos argumentos. Não só pelo seu final inesperado, mas por ter me despertado para o fato de que o golpe contra a democracia brasileira continua de pé, mesmo depois das consequências dos atos de vandalismo, invasões e depredações do patrimônio público, em 8 de janeiro de 2023, por uma multidão de extremistas comandada por bolsonaristas.
No filme, a morte do Papa obriga a instalação do Sacro Colégio de Cardeais no Vaticano para escolher o sucessor. O encarregado pelo conclave acaba se deparando com uma teia de conspirações, segredos obscuros e disputas de poder entre alas da Igreja. Ao ser flagrado cobrando dinheiro de Vorcaro, do Master, para um filme sobre o pai, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência, insinua a existência de uma trama no país, tendo o banqueiro como seu financiador.
É o clima do “conclave” o que se observa no episódio envolvendo Flávio, à medida que vai sendo revelado o que houve. A bagatela pedida para o filme, que seria lançado às vésperas das eleições, tinha outras funções além da película: pagar dívidas do irmão Eduardo que se mudou para os EUA. Ao passo que emendas PIX dos deputados Ramagem, que fugiu do país, Kicis e Zambelli foram feitas para ajudar no filme. O dinheiro nunca chegou.
Entre os cardeais presentes no conclave, o que se ouvia eram questões sobre crença em Deus, evangelho, bíblia, orações, pecado. As respostas eram inspiradoras, objetivas, embora irônicas. Não havia preocupações com possessões, exorcismos. Diabos e demônios não tinham convites. O ambiente soturno, porém, de salões, quartos e corredores revelavam que eles estavam ali, em cada documento descoberto ou tapete puxado. O perigo era o ambiente. Ninguém estava seguro, apesar da maioria ter cara de Papai Noel.
A escolha de Jim Caviezel para encarnar Bolsonaro foi pensada em detalhes. Para impactar corações e mentes. Caviezel foi o Jesus torturado em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, tamanho o apelo do filme. É uma obra horrorosa. Ode à violência pela violência. Mostra com raiva as últimas 12 horas de vida dele. A longa sequência de chicotadas dá náusea. É desumano até para quem assiste. O filme é coisa de UFC. O êxtase é finalizar o inimigo.
“Dark Horse”, roteiro do deputado Mário Frias, é peça de campanha política, cujo subterfúgio é misturar em um só personagem “Caviezel”, “Bolsonaro” e “Cristo”. A fusão cria aquele que viveu todos os males do mundo e venceu. A astúcia dos demoníacos golpistas se iguala a dos diabólicos cardeais. E assim como não há quem desista do poder, há também quem não desista dos golpes. O primeiro é um problema moral; e o segundo, criminal. Todos tomam detergente no café da manhã.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 22.05.2026