O ódio grita com fúria
Cláudio Pimentel
As ruas do planeta estão com cara de tacho. Há duas semanas os carros minguam, a olhos vistos, em meio às incertezas da guerra. Os donos perceberam que o posto de combustível sucumbiu ao “Risca Faca” entre Trump, Netanyahu e Aiatolás, e passou a regrar o uso do veículo. Sobrou até para quem nem vai pegar em armas. O salário patina antes dos 30 dias. A maratona de ir ao trabalho, fazer supermercado e buscar as crianças na escola tomou um atalho inesperado: o da carestia. Gás e alimentos mais caros, escassez de produtos e provisões. Novos endividamentos voltam a assombrar. Um baque. É o preço da morte, da destruição e do desprezo de nossos dirigentes.
Desde o dia que Trump se arvorou a xerife do mundo, somos bombardeados por livros, filmes e propagandas alertando que a guerra é coisa ruim. A mensagem entra por um ouvido e sai pelo outro sem deixar ideias. É pane. Mas as Fake News se superam. Quem está certo é Trump e a extrema direita. Lembra daquela turminha que defende que a terra é plana e presta continência à bíblia? Pois é, depois de punida por tentar um golpe de estado contra o Brasil, se enrola na bandeira de Israel e comemora cada cadáver que surge nas envermelhadas areias do Oriente Médio. Enquanto houver poder e dinheiro, o planeta será um projeto inacabado de futuro duvidoso.
A mídia trata o terror no Oriente como espetáculo. Parece até que não há vítimas e nem algozes. Trump é visto como estadista, de perfil digno ao Prêmio Nobel da Paz. A verdade, no entanto, é que Donald Trump está louco e carrega consigo um elenco de personagens que são sacados em momentos estratégicos. Todos mitômanos. Seu comportamento é o de uma criança que destrói brinquedos e acha que fez o certo; ou que bate em todas as outras no play para tomar aquilo que lhe falta. Ele não cresceu. É um insulto a qualquer mente adulta. A mídia tolera tal psicopatia e reconhece apenas o excêntrico. É um insulto também.
Em meio ao clima, o noticiário econômico parece narração de futebol. Uma dezena de noticiosos surgiram nas TVs pagas para tratar da economia mundial como coisa séria e indispensável, mas o tom lembra o dos cassinos: quem ganhou, quem perdeu; como ganhou, como perdeu. O mercado financeiro não se diferencia de Las Vegas. Os agentes de bancos repetem os crupiês. Todos têm uma carta na manga. As cotações se destacam como gols: ouro, prata, petróleo, gás, dólar, euro. São como fichas nas mesas de Poker. E nesse nível de apostas sempre iremos perder.
Se o litro da gasolina está em oito reais e o de diesel, 12, a culpa é nossa que aceitamos políticos que promovem armas, perseguição e violência. É o padrão da aristocracia que está aí. Elas não fazem bem para país algum. Acreditar nela é acreditar que o Leão não engole sua cabeça se colocá-la na boca dele. Um dia vai engoli-la. É da sua natureza, assim como é da natureza da aristocracia criar riquezas e não dividir. As guerras são perfeitas. Trump ao atacar o Irã feriu o planeta, que ainda se recupera do crash dos bancos em 2008 e da pandemia em 2020. As cicatrizes ainda estão abertas. O preço da guerra será alto. E tão cedo não se paga. A realidade é macabra e o ódio grita com fúria. O ódio nos jogou no abismo.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 27.03.2026