Eu acho...
Cláudio Pimentel
No Brasil, quando a gente pensa que está saindo da turbulência, o avião já caiu. Não era desse modo que queria iniciar a sexta-feira da Independência, com você, caro leitor, até que o Veríssimo me acenou e disse: “No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa”. Ah, o que fazer? Rir! Têm pessoas que, ao lê-lo, descobrem até que a morte podia ser engraçada. Ri novamente, mas pensei: “E um ministro do STF que dedura outro ministro para todo o Brasil sem provas? É para rir ou para chorar?
Nada é mais mortal no mundo da imprensa do que o uso de duas palavras: “Eu acho”. Elas estão lá, juntas, incólumes, ditas ou em elipse, nas mesas-redondas exibidas nos canais pagos de notícias. Mais presentes nas mesas políticas, quando as TVs trocam seus times de especialistas e jornalistas a cada duas horas. E não importa se os temas são asserções duvidosas, como falsas, exageradas, incompletas, vindas de sites, redes sociais, notas de diários ou fontes ocultas. São debatidas e repetidas à exaustão.
O “Eu Acho” é um subproduto da bagunça que se formou em torno da necessidade infinita de aparecer, ou causar, de políticos, partidos, movimentos e governos para se manterem “saudáveis” na mídia, que não tem braços suficientes para certificar a origem de material gigantesco. É preferível que os jornalistas administrem suas agendas. Quando assim o mundo da imprensa fica mais seguro. Os bastidores não falham.
Um exemplo que surpreendeu a maré calma foi a divulgação por parte do ministro Mendonça, do STF, de possíveis ilícitos cometidos pelo ministro Moraes, do (STF), no Caso Vorcaro, Banco Master. Vale lembrar que Mendonça é queridinho da água ungida da Família Bolsonaro, cujo patriarca o indicou ao STF, quando era presidente. Vale lembrar também que o ex-presidente está preso por ordem de Moraes, que foi o relator dos inquéritos que investigaram Bolsonaro por crimes contra o Estado de Direito e Tentativa de Golpe.
Já a surpresa se deu pela novidade de como as informações de suspeição foram dadas: borbotões, criando dificuldades à sua compreensão. As mesas de debates da TV não conseguiam debater, apenas achavam sem mirar alvos. E demoraram para entender ou aceitar os avisos do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, de que o material liberado pelo STF, este sim, estava ilícito. As informações teriam que ser liberadas pelo colegiado do STF, e não por um único ministro.
Depois de oito meses de presença intensa na mídia, quando sequestrou as manchetes dos jornais mundialmente, o presidente Trump dá sinais de que pretende fazer um recuo. E não é porque considere o que fez errado, mas, sim, porque perdeu sua popularidade. Alcançou agora em agosto o menor patamar de todos os tempos, considerando as duas administrações. Será que Trump vai rever o modelo? Dificilmente. O mundo é pequeno demais para o seu ego.
E quem tem ego não deve agir por impulso. Mendonça, família Bolsonaro e Moraes são assim, estufados. Criarão novos episódios? Talvez. O assunto Vorcaro já tinha virado pizza e o fogo apagado. Mas aí veio o Dark Horse e os relógios do senador Wagner. O disse-me-disse entre Mendonça e PF seguiu. Lula vira bombeiro e o Mendonça se joga no espaço sem asas, paraquedas ou guarda-chuva. Como é um “homem” de Deus, tudo pode acontecer. Até Brasília levitar. Os “ilícitos” divulgados por ele, porém, carregam erros: não há a presença de Moraes. Como está ali, Vorcaro conversou com qualquer um. Até consigo próprio.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 04.09.2026