Nunca aprendi a pousar
Cláudio Pimentel
A frase do título acima não é minha, mas me encantou quando a vi nos tapumes de uma demolição exibida na TV. Era um qualquer lugar de um mundo qualquer. Saudou meu coração. E o salvou também. As letras tinham contornos imperfeitos e inclinavam-se sugerindo pressa, urgência, socorro. Estavam manchadas por borrões rubros desbotados, mas hipnotizavam, do alto das palafitas, quem lesse o rascunho esplêndido. Não era coisa de passarinhos e tampouco de anjos. Pensei: travessuras de poetas que caem de bicicletas. “Oh, meu pai, tadinho! É de um menino...”, diria meu filho se ouvisse o meu chiste. Assumiria a defesa de mais uma vítima das pilhérias infames que me habitam no calor do incerto.
O roteiro do último março, de autoria do destino, estava assim, trágico. O mês solar e alegre de festas mil e um hino de fazer cantar, do Tom, - “São as águas de março fechando o verão, promessa de...” – errou nas letras e nas paletas. No dia 28, perdi simultaneamente minha mãe, no Rio de Janeiro, e o amigo José Cerqueira, jornalista e parceiro de milhares e milhares de linhas em releases, pautas, notas, relatórios, produções internas e externas sobre economia, cultura, meio ambiente e programas sociais e esportivos da Copene e da Braskem. Ele fez história na área e eu pude beber dessa rica fonte. Foi o mais longevo chefe que tive. Um craque da Comunicação Empresarial, que fazia da transparência na informação um dístico.
A dupla e injusta pancada me deixou sem solos, voos ou pousos. O céu de brigadeiro se fechou para mim. Ficou deserto. E ampliou as dores e as preocupações de alguém que há meses desconhece os trejeitos suicidas do futuro. Há em marcha um lento e perigoso cancelamento do porvir, do horizonte, a nos cercear, e as possibilidades de freá-la estão canceladas. Ela avança firme e focada em contrariar a lógica, a ética e a decência. As práticas neoliberais invadiram o cotidiano e reescrevem a história, as nossas histórias: laços sociais, perspectivas políticas, nossas vidas, individual e coletiva. Querem nos desumanizar, riscar nossos nomes sem cancelar os CPFs. Somos números, somos escravos.
As mídias da moda, brasileiras à frente, se metamorfosearam em neoliberais e não questionam mais o capital ou quem o detém. Tornaram-se conglomerados do mal e assumiram a Nova Ordem Mundial como delas, apesar de capitaneadas pelos Estados Unidos com mão de ferro. A ideologia que pregam é aquela que dá vasão à lei do mais forte, a negação das mudanças climáticas e a construção de um modelo de sociedade e convívio social que mais se aproximam das experiências alemãs nos anos de 1930, quando o nazismo ganhou força e ameaçou eliminar algumas raças.
Não me admira, portanto, encontrar alguém que nunca aprendeu a pousar, e vê-lo chamar atenção para o drama. É um sinal dos tempos. Em séculos, jamais nos disseram que deveríamos fazer como o passarinho e o avião. O movimento do mundo está fora da ordem. O novo normal, epiteto criado durante a pandemia, precisa voltar no tempo, em direção ao passado, para dar certo. Avançar e navegar não são mais precisos, já fomos longe demais. Sempre foi assim desde o primeiro humano com o dom da consciência. Agora é dispensável. Queria a frase “Nunca aprendi a pousar” para mim. Pousar é desafio. Pousar é desatino. Um beijo mãe.
Cláudio Pimentel é jornalista.
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