Testosterona aditivada
Cláudio Pimentel
Sóbrio, ninguém é feliz. Que o diga o presidente norte-americano Donald Trump, que, de uns tempos para cá, se viu feliz como pinto no lixo ao descobrir que, apesar dos 80 anos, tem testosterona para dar e vender. Ele soube do fenômeno por meio do médico Mehmet Oz, que comanda os programas de assistência à saúde dos EUA.
“Dr. Oz”, como é conhecido, trabalha com o secretário da pasta, dr. Robert F. Kennedy Jr., escolhido pelo presidente. Filiado ao Partido Republicano, “Oz” tentou uma vaga no Senado pela Pensilvânia, em 2022, mas não teve remédio que o elegesse. Celebridade com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, foi ele quem apresentou a Cloroquina a Trump, que se apegou aos dois: o médico e o “veneno”.
O dr. Kennedy, que já pediu desculpas à população por ter permitido o avanço do autismo no país graças às vacinas, é quem está, com feroz entusiasmo, espalhando pelo país o vigor da saúde hormonal de Trump, afirmando que ele tem “o nível de testosterona mais alto” que o dr. “Oz” já viu para alguém da idade dele, disse à revista “People”. O apelo aos hormônios de Trump acabou virando assunto de estado.
Para tanto, o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que vai testar as tropas para saber se houve queda de testosterona entre os militares. Questionado pela imprensa e por alguns setores da saúde, que estranham a nova política, Hegseth, que carrega o cacoete de “mauricinho” como o vice presidente J.D.Vance, enfatiza a necessidade de manter as tropas “fortes, resilientes e capazes”. Disse ele: “Os rigores do campo de batalha moderno exigem máxima prontidão psicológica e mental”. Há quem leve a sério.
Ao ler tudo isso e refletir sobre a baboseira que é, dá vontade de gritar: “Tá te brincadeira”, repetindo o bordão do explosivo narrador de futebol do Grupo Globo, Daniel Pereira, o “Dandan”. E finalizar: “Presta atenção no serviço!” Os Estados Unidos estão com alguns parafusos soltos, senão todos! Medir a testosterona de militares vai garantir vitórias em guerras? O uso da testosterona vai pôr fim em drones e mísseis?
E a Kátia Flávia? Lembram dela? A testosterona do Trump abate a Godiva do Irajá? Duvido. Quando ela disser: “Eu estou usando um Exocet calcinha!” A tropa evapora. O Fausto Fawcett é dono da arma, que vai gritar calcinha com a Fernanda Abreu” Não vai sobrar testosterona para ninguém. É tanta bobagem que não há outra forma de levar o assunto a sério.
Não é injetando testosterona em soldados e oficiais que as Forças Armadas dos EUA vão ganhar guerras ou qualquer outra coisa parecida. Repor os níveis de testosteronas daqueles militares cujos volumes estejam abaixo do “ideal” é brincadeira de mau gosto. Coisa de gente libidinosa com intenções ruins.
Por falar nisso, libido e poder andam juntos e sugerem as mais diversas metáforas, num gradiente que vai do amor ao ódio na velocidade de um míssil. A libido de Trump, por sua vez, não sai da mídia por mais que ele tente afastá-la com pautas idiotas como esta ou sanguinárias como estupros. É libido que inflige dor, violência, vilania, desprezo, misoginia e machismo. Nunca prazer. Só broxadas.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 24.07.2026