O amor surpreende
Cláudio Pimentel
Se alguém me perguntasse qual foi o “gol de placa” que Ted Turner, magnata das comunicações, marcou na vida, eu diria que foi se casar com Jane Fonda. Ignoraria a CNN e os dois fatos que tornaram a TV, que não ia bem das pernas, em um sucesso: a explosão da Challenger, em 28 de janeiro de 1986, segundos depois de lançada; e a cobertura em tempo real da Guerra do Golfo, no Iraque, invadido pelos EUA, em 2003, exibindo o terror dos mísseis cortando o céu de Bagdá. Em ambas, a CNN estava sozinha na transmissão. As únicas imagens das tragédias são dela. Em instantes, ficou mundialmente famosa. Quanto a Jane, garanto: Turner assinaria embaixo.
O Ted Turner que morreu na quarta-feira, aos 87 anos, é a imagem absoluta do que ouvimos falar sobre a alma dos estadunidenses: “um self-made man” completo. Não veio de família pobre e nem se formou em Harvard ou em outro lugar, mas ralou bastante. A lista de coisas em que se meteu é enorme. Virou bilionário. Como se diz no Brasil, tinha bicho carpinteiro. E dos grandes. Com a CNN, fundada em 1980, revolucionou o jornalismo de TV nos EUA. E não foi por motivos ideológicos. Ele não suportava mais o sensacionalismo que contaminava o noticiário. Foi a primeira rede do mundo dedicada à cobertura de notícias durante 24 horas por dia. E sempre com elegância e sobriedade.
Jane Fonda entrou na vida de Ted do mesmo jeito que outras coisas entraram: ele queria. Começaram a namorar em 1990, pouco depois dela se separar do professor universitário e ativista político Tom Hayden, com quem estava desde 1973. Foi simples. Turner conseguiu o telefone da atriz, ligou para ela e acertou um encontro. Quando os fãs e simpatizantes descobriram que a união era certa, foi uma decepção no país. Como é possível que a ganhadora de dois Oscars, “Klute, o passado condena” (1971) e “Amargo regresso” (1978), e indicada a outros dois, “Síndrome da China” (1979) e “A manhã seguinte” (1986), todos co - produzidos por ela, pudesse se casar com um conservador de direita?
Embora a trajetória da atriz seja uma aula de feminismo, a união com Turner também engasgou os fãs brasileiros e setores da imprensa e da dramaturgia. Eu que sempre acompanhei a vida dela e de Marlon Brando – eram idênticos - me chateei. Como duas personalidades tão diferentes poderiam se unir. Afinal, ativistas não se casam com conservadores, ainda mais da direita republicana, que abrigava pilantras como Nixon e Reagan.
No documentário produzido pela HBO, “Jane Fonda em cinco atos” (2018), a atriz tenta se explicar, mas se disse surpreendida: apaixonou-se por Ted. Viu nele alguém diferente do que diziam ser. Resultou um belo roteiro de amor para a terceira idade. O casamento durou dez anos e acabou porque tinha que acabar. “A vida é curta demais para ficar brigando”, disse Jane à revista “People”. Mesmo com o fim, sempre se viam. Ela está com 88 anos e ativa. Salve Jane Fonda, a atriz que mais foi presa por ativismo.
Por falar em imagem, política, direita e imprensa, desconfio que os caciques do poder estão tirando do armário o “uniforme de candidato à presidência” criado para o Collor. A ideia é botar o Flávio Bolsonaro dentro dele. Um pecado. A distância entre os dois é sideral. Aliás, o 01 está longe de tudo que lembre bom gosto ou inteligência. O uniforme seria do Luíz Eduardo Magalhães, mas o destino mudou os planos. A turma da Faria Lima parece empenhada. Precisa apenas de um “jovem”, com predicados de rainha: reina, mas não manda. Não duvido que em breve surja o livro “Minha Vida”, do Flavinho e suas comendas. Tem até jornalista de 500 talheres e muitas colunas na construção do candidato. É a tal da maledicência encomendada. O Ted Turner jamais engoliria a maracutaia. Política é coisa séria.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 08.05.2026