Transparência e turbidez
Cláudio Pimentel
Ninguém hesita em falar de metáfora quando se tem à frente um livro de poemas. Que o diga Aristóteles! Para ele, o “gênio” poético se mede pelo vigor de suas metáforas. Portanto, não é preciso qualquer tico de erudição para entender que o gênio da crônica não está no vigor das metáforas e nem dos trocadilhos ou ironias, mas na capacidade de saber dosá-las. Afinal, crônica sem figuras de linguagem não existe. Vira boletim de ocorrência, relatório contábil, ata de condomínio.
Por conta disso, o título acima “Transparência e turbidez”, caro leitor, me preocupa, pois não se trata de metáfora, trocadilho ou ironia gratuitas, tipo arma de destruição como, por exemplo, no título “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen, que carrega um século de sutilezas envolvendo a intolerância e a vaidade contra o despertar do amor. Um barril de picuinhas trocadas pelo chato do senhor Darci e pela bela e espevitada Elizabeth Bennet que, ao invés de beijos na relva, preferiram as alfinetadas mútuas.
Não, querido leitor, não é esse o objetivo. Você verá, sim, que são as três figuras de linguagem trituradas num liquidificador que fomentam hoje crises de imagem no Brasil e no mundo. Crises para alcançar poder ou afastar desafetos. Parecem funcionar, mas é pura ilusão. São tantas que chegam a abalar a imagem de um Jesus, mesmo o de Caviezel. Políticos, autoridades, empresários e celebridades nadam num oceano de crises sem a proteção de bóias. O remédio sempre foi transparência. Mas hoje é somente turbidez.
A “Era do Escândalo” (2003), livro do jornalista Mário Rosa, tornou-se, desde o início do século, uma espécie de Bíblia das áreas de comunicação para enfrentar crises de imagem. Lembro-me que todos nós, que trabalhávamos em assessorias de comunicação, estávamos comendo o livro em uma só mordida. Era rico em exemplos de crises, relatos e ainda trazia bastidores dos acertos e erros, além de soluções. Para todas as crises, havia apenas uma: transparência. Quase 30 anos depois, eu ainda acredito nisso como cláusula pétrea, mas há quem a repudie.
O episódio do senador Flávio Bolsonaro, flagrado cobrando dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por crime financeiro, vai na contramão de tudo que o livro ensina. Candidato à presidência do Brasil, o maior cargo do país, Flávio não diz nada sobre o assunto e age como se a lei da gravidade ou a força dos ventos fossem absolvê-lo, e os eleitores esquecerem da extorsão. Ninguém vai esquecer. Não dá para acreditar nessa estratégia. O melhor é ser transparente e explicar os pormenores da operação Dark Horse.
E não adianta aparecer em uma única foto ao lado de Trump. Faltou aperto de mão, tapinha nas costas, olho no olho. Aliás, o Trump da foto parece um boneco de papelão sentado à mesa. Tinha que estar em pé. Mesmo sendo papelão. A foto é um desastre. Não houve cuidado. Agora está apenas alimentando metáforas, trocadilhos e ironias. Divulgar que o Centrão (partidos) e a Faria Lima (banqueiros) estão ao seu lado é outro erro. Se fosse verdade, eles já deveriam ter aparecido em público e dito que o apoiam.
O staff de Flávio vai continuar criando fatos “alvissareiros” para impedir a desidratação, líquida e certa, dele. Salva? Dá para colocar a mão no fogo? Não. A perspicácia do brasileiro, neste quarto de século, se esvaiu. Ficou bitolado. Acredita em tudo. Até em mentira. A defende e ainda difunde. A família Bolsonaro desde que saiu do ninho se beneficia disso, e aposta tudo na crença ferrenha neles. Porém, turbidez como a que foi feita até agora não salva ninguém. O tempo dirá. Metáforas, trocadilhos e ironias não perdem por esperar.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 29.05.2026