Os donos do mal
Cláudio Pimentel
“A paz é a única batalha em que vale a pena lutar”, disse o escritor e filósofo Albert Camus, em 1945, quando as tensões entre Leste e Oeste, ao final da Segunda Guerra Mundial, começaram a promover divergências entre aliados, políticos, professores, editores, jornalistas e dramaturgos franceses, em meio ao início da Guerra Fria. Que lado ficar? O amigo de resistência e cátedra, Jean Paul Sartre, defendia a violência como caminho para a mudança, mas Camus se opunha. O caminho era outro, a paz. O antagonismo deixou cicatrizes. A França ferveu. A repercussão foi internacional.
Camus acusou Sartre de se aliar aos comunistas de Moscou e Sartre revidou acusando Camus de se unir aos capitalistas de Washington, os vencedores da Segunda Guerra. A admiração mútua que existia entre os dois, há 12 anos, foi aos poucos sendo corroída até que, em 1952, os ataques mútuos os levaram a romper-se pública e amargamente. Os dois não mereciam. Nem o mundo. Muito menos a legião de fãs. Era o desenlace das duas mais poderosas vozes da intelectualidade na Europa. O irônico de tudo é que nenhum deles foi comunista ou capitalista. E sequer se beneficiaram disso.
O que estava por trás da separação? Ideologia, vaidade, ciúmes? Tudo isso e muito mais. Camus e Sartre romperam não apenas porque foram para lados opostos, mas porque cada um se tornou um líder moral e intelectual de seu próprio lado. Se o rompimento abriu espaço para o surgimento de uma nova esquerda, independente e distanciada da União Soviética, mostrou também o quanto estavam cegos. Ignoraram o pior legado da Segunda Guerra: a bomba atômica, jogada pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki. Um crime semelhante ao do genocídio judeu pela Alemanha nazista.
As guerras são estúpidas assim como estúpidos são aqueles que as minimizem, tratando-as como naturais, intrínsecas à humanidade e sua sede de evoluir. Disparate sanguinário. É uma transgressão injustificável por todos os ângulos. Em uma guerra não se mata milhares de pessoas, mas milhares de ideias, memórias, gostos, desejos. Na guerra quem mais perde é o planeta. Se não houver um consenso sobre o fim da bomba atômica, em breve viramos poeira. Não podemos ficar presos na escuridão sem saber o que fazer para combatê-las. É o mesmo que ter uma paleta de cores e se negar a pintar.
A bomba atômica é filha da Segunda Guerra e mãe da Guerra Fria. Tida como morta desde a queda da União Soviética e da turma da Cortina de Ferro, ela vem sendo aquecida, neste século, por chefs hábeis em pratos afrodisíacos, cujo principal ingrediente é o ódio. Putin e Trump já assumiram a cozinha do fim do mundo e prometem um cardápio bastante indigesto. Daqueles que se come enfiando goela abaixo. É uma pena que o embate Camus versos Sartre se prendeu ao óbvio da época. Eles deviam ter incluído a bomba atômica no salseiro que criaram. Mas era algo tão inusitado, que passou.
O hábito de debates entre intelectuais teria feito muito bem ao Brasil e aos Estados Unidos. Perdemos a opção e o jeito. Ao contrário assiste-se hoje debates que inundam as mídias sociais sobre o nada. A extrema direita alimenta. Enquanto no Brasil, Nikola e Eduardo debatem quem é mais leal à família Bolsonaro, nos EUA as discussões são sobre o fim ou a restrição do voto feminino. Uma elogia o culto ao puxa-saquismo. E a outra é uma piada mundial. Dá para acreditar? Claro, pois é quando a hipocrisia vira vício.
O foco é a bomba atômica. Não adianta fazer nada no mundo sem antes tratar do problema. A eliminação das ogivas é a meta. Depois de Trump afirmar que “uma civilização toda vai morrer”, sugerindo, nas entrelinhas, que recorreria à bomba atômica, ele tornou-se inadequado para guardião da bomba estadunidense. O que Netanyahu fez aos palestinos, o tornou inadequado também. O mesmo para Putin. Os três são orientados por fanáticos: oligarcas russos; bilionários norte-americanos; e rabinos ultra ortodoxos. Os donos do mal.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia - 01.05.2026