Washington quer um Chile no Brasil
Cláudio Pimentel
Assistir o ex-presidente Nixon, dos EUA, convocar com urgência, nos anos 1970, Henry Kissinger, seu brilhante secretário de Estado, para dar um jeito no presidente do Chile, o audacioso Salvador Allende, que nacionalizou a exploração e produção de cobre, causando prejuízos a meia dúzia de “big shots”, entre eles os Rockefeller, me lembrou o salseiro que Trump está armando com o seu obscuro secretário de Estado, Marco Rúbio, contra o Brasil. No Chile, o pedido de Nixon causou terror: golpe, morte de Allende, fechamento do Congresso e da Justiça e mais de quatro mil chilenos mortos e desaparecidos.
Foi o documentário “O Grande Irmão – O Dia que durou 21 anos II” (2024), em exibição no “Canal Brasil”, que me mostrou o estrago causado à vida, à ética, à lei, à democracia e a tudo que lembre humanidade. Com direção de Camilo Tavares e produção do Grupo Globo, o filme aborda a ditadura chilena e suas consequências na América Latina. É a continuação do filme que abordou a ditadura brasileira, tão covarde quanto a deles. Os arquivos percorrem o golpe de estado, o regime ditatorial de Pinochet e acrescentam a violenta e vergonhosa participação do Brasil no episódio.
Além de ajuda financeira, o Brasil forneceu técnicos em tortura para ensinar militares e policiais a torturarem. Aliás, os brasileiros introduziram a abominável posição de frango-assado”, mais conhecido como “pau de arara”, para interrogar chilenos, homens e mulheres, nos porões do estádio Nacional, central maior da dor. O embaixador brasileiro naquele país, Antônio Cândido Câmara Canto, foi um fervoroso entusiasta do golpe. E tudo fez para que ele se instalasse. Sua devoção ao golpe era tão incomum que foi apelidado, em Santiago, de o “Quinto membro da Junta Militar”.
O Brasil foi o primeiro país a reconhecer o governo ditatorial do Chile. E, claro, o Câmara Canto seria o melhor nome para levar a mensagem a Pinochet, que pediu dinheiro para levantar o Chile, o qual foi concedido. O fanatismo do embaixador brasileiro à causa chilena era tão grande, que só deu asilo a brasileiros que procuravam a Embaixada para depois devolvê-los aos carrascos de Pinochet. O Brasil reconheceu o Chile depois que a CIA percebeu que na Europa ninguém reconheceria o golpe. E o reconhecimento era fundamental. O apoio imediato ao Chile foi uma ordem de Washington.
O interessante do filme é acompanhar como a CIA preparou o país para justificar a deposição de Allende. É um passo a passo fascinante. Primeiro, agentes da polícia e das Forças Armadas se infiltram na estrutura do estado. Em seguida, começam a cooptar, via verbas, os jornais de todo o país, que vão denunciar a crise do governo. Aí chega a hora de cooptar os caminhoneiros, que farão paralisações diversas nas grandes cidades e importantes estradas do país. Com isso, os alimentos começam a sumir dos supermercados. Apagões e cortes de água completam o cenário. Os empresários tiram o dinheiro do país. A população enganada quer apenas que tudo volte ao normal.
E o Brasil? O ambiente não é nada bom. Há uma leve sensação de que outra conspiração golpista está na ordem do dia. Ela ganhou força quando Rúbio acusou o país de ser um mau amigo, orgulhoso e não confiável. Em seguida, mais tarifaços injustos e sem motivos. Flávio vai aos EUA para ser fotografado ao lado de Trump na Casa Branca. E rir. Mais tarifaços são impostos ao Brasil. Milei resolve provocar Lula, o chamando de prisioneiro e ladrão. Semanas depois repete a dose. Trump tenta impor um embaixador no Brasil sem cumprir protocolos. Revoga o visto da embaixadora brasileira em Washington... Europa, Rússia e China fechariam os olhos para um golpe norte-americano no país?
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 07.08.2026