Se der Lula, EUA negam reeleição
Cláudio Pimentel
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, tinha 14 anos quando em, 1985, o presidente Ronald Reagan criou a Rádio Martí para difundir propaganda anticastrista à população cubana residente na Ilha, exilada em Miami ou nascida na cidade, como o próprio Rúbio, que veio à luz em 28 de maio de 1971. A rádio era uma espécie de presente de Reagan aos serviços prestados por cubanos ao Partido Republicano e à CIA, como em “Watergate”, “Irã-Contras” e “Invasão da Baía dos Porcos”. Três vexames nos currículos de Nixon, Reagan e Kennedy.
A rádio, entretanto, se deu bem se formos condescendentes com a história: espalhou ódio em toneladas, como se fosse uma rede social com suas Fake News. Porém, a missão de derrubar o governo cubano em instantes, escafedeu-se nestes quase 50 anos. A rádio virou TV também, ganhou rodagem, manteve a programação de pregação do ódio e, mesmo assim, Cuba ainda se mantém de pé. Infelizmente ferida, à espera do último golpe.
Simultaneamente, os cubanos de Miami chegaram a quase um milhão de pessoas entre exilados, imigrantes e nativos, como Rubio, 55 anos, filho de Mario e Oriales Rubio, que deixaram Cuba e chegaram aos Estados Unidos em 27 de maio de 1956, quase três anos antes da vitória da Revolução Cubana liderada por Fidel Castro, em 1º de janeiro de 1959. Na época, Cuba era governada pelo ditador Fulgencio Batista. Os pais de Rubio fugiram de Fulgêncio. Apenas um detalhe. Afinal, quem cresceu ouvindo a Rádio Martí, convivendo com cubanos direitistas de Miami e filiando-se aos Republicanos foi Rubio, aquele que, agora senador, quer vingança.
Não é de estranhar. Os espanhóis e descendentes, para o bem ou para o mal, têm sangue quente. Mostraram isso na Guerra Civil Espanhola, quando enfrentaram os primeiros tiros do nazismo e do fascismo, que, testavam seu poder, financiando os golpistas liderados pelo General Francisco Franco. Foi uma luta desigual. A ajuda de Hitler e Mussolini garantiu a vitória de Franco que jogou a Espanha numa noite de 36 anos, de 1939 a 1975. Logo, em seguida, veio a tragédia da Segunda Guerra. A Espanha foi poupada.
Um outro “espanhol” brincou com as palavras e promoveu indignações. O escritor peruano Mário Vargas Llosa pode ter envenenado Rubio. Em 2010, disse em entrevista ter vivenciado a sensação de “asco e ira” ao ver o risonho presidente Lula abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro. O mal-estar tinha motivo: o encontro ocorria enquanto agentes da ditadura cubana escondiam dissidentes em prisões. Era para impedir que fossem ao enterro de Zapata Tamayo, oposicionista que morreu fazendo greve de fome na prisão. Será que Rubio viu os risos e os carinhos de Lula?
Acredito que sim, particularmente, porque Rubio não ri. É um homem triste, sempre carregando o peso de ser algo mais importante do que é. Um recalque que ameaça o Brasil. Vai além do fator ideológico, que, no caso entre Brasil e EUA, não passa de imaginário, pois o Brasil sempre irá para o lado que os EUA irem – não o de Trump e Rúbio, mas o dos EUA enquanto nação.
A decisão do Departamento de Estado em vociferar que o domínio nas Américas “nunca mais será questionado”, citando a prisão de Maduro como “sinal”, é deselegante. É como rugir: “Se Lula for reeleito presidente, os EUA não reconhecerão o governo.” Somado a isso, a prisão de “extremistas” por policiais Civis do Distrito Federal, com planos para explodir o Planalto, a Justiça e o Congresso abrem uma fenda na imaginação. Apesar de não ser atribuído a nenhum grupo político, o discurso deixa o rabo do autor à vista. Desde 2013 atazanam o país. E todos sabem quem são. Como o Rubio, só pensam em golpe. Vai dar vexame?
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 14.08.2026