sexta-feira, 26 de setembro de 2025

crônicas

O elogio do cinismo

Cláudio Pimentel

         Estar deveras preso a um mundo polarizado é ouvir, no mesmo dia, dois destinos diferentes para o futuro: que a mudança climática é uma invenção de esquerdistas para desacelerar as ricas economias europeias, como disse o presidente Donald Trump, na ONU; ou que o modelo econômico, político e social de convivência das grandes potências vai, segundo os cânones das ciências, destruir a Terra, como disse o líder indígena e escritor Ailton Krenak, na UFBA, depois de receber o título de doutor Honoris Causa. Qual deles está certo?

         Foi a primeira vez que vi Krenak expor sua visão de mundo. Até então, conhecia apenas sua luta em prol dos povos originais, a militância em favor do meio ambiente e seu talento para tratar estes temas em livros, palestras ou em salas de aula. Krenak, aliás, é natural da região do Rio Doce, em Minas Gerais, a mesma que deu vida à Vale do Rio Doce, autora dos desastres ambientais de Mariana e Brumadinho, ambos de proporções semelhantes às de um armagedon. Ele nasceu em Itabirinha, em 1953.

         O que me chamou atenção na sua fala foi o amor aos valores indígenas e a visão de seus antepassados em relação à Mãe Terra. A mãe que dá amor, que protege o filho e dá alimento, como qualquer mãe de qualquer mundo civilizado. A Terra precisa de seus filhos para não morrer é a mensagem que ele nos passa. Assim como adverte que a Terra não é mercadoria, em que se corta aos pedaços e pedacinhos para as mais diversas perversões financeiras.

         O filósofo Krenak me lembrou o filósofo grego Diógenes (404 - 323 aC.). Tinha a estatura de um Sócrates e liderava a escola filosófica do “cinismo”. Tornou-se um estudioso, que pregava uma vida distante dos bens materiais, única forma para atingir a plenitude por meio do conhecimento. Diógenes foi o primeiro de um grupo de pensadores que se tornaram conhecidos como cínicos, termo extraído do grego “kynikos” que significa “parecido com cão”. Asseguravam que quanto maior o despojamento, mais próximo estariam de viver a vida ideal.

Um episódio interessante envolvendo Diógenes foi o encontro que teve com Alexandre, o Grande, que ouviu rumores de sua sapiência. Alexandre foi até ele e perguntou o que queria. Sem hesitar, Diógenes respondeu: “Senhor, apenas não tire de mim o que não pode me dar”. Isso aconteceu em 323 a.C., data da morte de Alexandre, a qual sinaliza como o final do domínio cultural e político da Grécia no mundo antigo. Aristóteles foi tutor e professor de Alexandre.

O cinismo de Diógenes e companheiros não existe mais. A palavra foi para outra dimensão. Perdeu as cores românticas e dramáticas do passado e, adaptada aos modos modernos, ganhou cores metálicas, como acidez, perspicácia, cortante e deboche. O objeto não é mais se despojar da riqueza, mas, sim, se despojar das convenções morais, sociais, culturais. O cínico de hoje não ensina, ele debocha do que você sabe. Despreza o que você defende ou crê. Impõe pontos de vista.

A direita e a extrema direita mundial se apoderaram do modelo que debocha e duvida da inteligência. Trump na ONU foi um exemplo disso. Nem Hitler seria tão assertivo. Trump estava se lixando se dizia mentira ou não. Cumpria um papel. Afirmou, com biquinhos, que a política de energia verde estava destruindo a riqueza europeia e desviando o continente da sua principal missão: conter a imigração.

O discurso fascista de Trump se superou em cinismo. Advertiu os europeus de estarem perdendo dinheiro com a economia de carbono. Disse que eles foram enganados. E os Estados Unidos não porque ele é esperto. Agora ganhavam muito dinheiro com combustíveis fósseis. Trump estava tão encantado com o carvão que ia queimar, que se expressou como se mastigasse um Donuts de sabor carvão. Bonito, macio e gostoso de apertar. O cinismo venceu. O tóxico, é claro.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 26.09.2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

crônicas

Um título para recordar

Cláudio Pimentel

         Pretendia passar batido pela livraria e nem entrar, em protesto aos preços do livro - mais caros que picanha -, quando meus olhos viram, no rodapé da estante, um casto e singelo título: “Escola de Contos Eróticos para Viúvas”. Estaquei. Que loucura, São Pedro! Já estão aposentando o padroeiro? Pensei em comprar, mas desisti, apesar do preço sedutor: vinte paus. Não era para mim. Aí, aquela vozinha da consciência apareceu: “Por que você é intelectual?” Fiquei rubro. “Só os clássicos merecem leitura?” Ah, Santo Antônio, compro ou não!?

         Um turbilhão tomou minha mente. A curiosidade já deixava meu desejo nu, mas refleti: Por que comprar? Por que vivo de escrever? Mas esse título? Foi o que te atraiu. É apelativo ou sui generis. Escolha um. Lembrei-me da quantidade de livros que me esperam em casa... E já ia embora quando a vozinha voltou: “Bobagem, a leitura ensina o que fazer e o que não fazer. Leia.” Ainda pensei: e se a atendente, imaginando um velho assanhado, perguntar: é para presente e eu reajo? Sim, para a sua mãe. Levei o livro sem um pio.

O romance “Escola de Contos Eróticos para Viúvas” é o terceiro livro da escritora anglo indiana Balli Kaur Jaswal. O enredo situa-se em um bairro de maioria indiana, na periferia de Londres, onde mistura-se os idiomas inglês e punjabi. Logo de saída deu para perceber que o livro não tinha como objetivo oferecer técnicas específicas de escrita erótica. Isto é um detalhe do enredo. Porém, adoro livros que tratam do assunto escrita literária. Muitos escritores ou estudiosos de literatura fazem isso.

Lembro de feras como Vargas Llosa, em “Cartas a um jovem escritor” (2007) e Stephen King, em “Sobre a Escrita” (2015), contando como são feitos seus livros de suspense. Têm também o Frei Betto, em “Ofício de Escrever” (2017), no qual explica seu processo de escrita inspirado em Shakespeare, e Cervantes, Doc Comparato, em “Da criação ao Roteiro” (1995) e o incomparável Schopenhauer e “A arte de escrever” (2005). E ainda Milan Kundera e “A arte do romance” (2016), Roland Barthes, em “O grau zero da escrita” (2000) e Ray Bradbury e seu “O zen e a arte da escrita” (2011).

O livro das “viúvas” não tem a pretensão de ensinar literatura ou sugerir estilos linguísticos. Nem precisa. O enredo é um aprendizado contínuo de vida. De mulheres que acordam do seu papel de inferioridade e reivindicam cidadania e liberdade. É o aprendizado de mulheres em busca de independência, do seu lugar na sociedade e se rebelam à tradição das comunidades sikh, indiana e inglesa. Mulheres que desafiam a cultura patriarcal e encontram no amor, no erotismo e no misterioso o caminho para o empoderamento. Tudo a partir de uma escola de aprendizado. Tem tudo para virar filme.

Já li e ouvi mais de mil vezes a máxima de que um livro não se julga pela capa. É preciso conhecer seu conteúdo. Aliás, está mais claro do que nunca que agora, no século XXI, nada deve ser julgado pela capa. É só ler nos jornais, assistir nos canais de TV e na convivência do cotidiano para perceber que todas as capas escondem o conteúdo. E poucos de nós fazem questão de conferi-los. Estamos rodeados de lideranças que preferem criar desertos para chamá-los de seus reinos. Há oito meses o planeta, como conhecemos, está sendo destruído cruelmente por marretadas yankees.

As leis mundiais parecem revogadas. E tudo emana do grão vizir Trump. Os povos “estorvos” começam a ser eliminados. Escolhidos, os palestinos abrem o desfile da própria extinção. Em breve, teremos outro. Seria o Brasil? Urgente é classificar o Antifa como organização terrorista. Um movimento pacifista que existe desde o final da Segunda Guerra, quando os Aliados derrotaram os alemães nazistas e os italianos fascistas. O mundo está de ponta cabeça. E o Brasil colado. O Congresso só pensa em golpe. Quer virar livro: Escola de contos eróticos para velhacos. Uau!

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 19.09.2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

crônicas

Sinais do tempo

Cláudio Pimentel

         Ao pé da letra a locução “sinais do tempo” lembra rugas, cabelos brancos e “frágeis” alterações no “shape” dos experientes. Minúcias que a maioria nega, apesar da sugestiva e milionária indústria de cremes, suplementos e estimulantes. Os “sinais”, porém, são de outra magnitude e envolvem o tempo em versões além do cronológico, meteorológico ou sideral. São aqueles que viajam de outras dimensões, como os tempos histórico, psicológico e sensitivo. À primeira vista são ininteligíveis, traiçoeiros e brincam com nossa pretensão. Abusam da sutileza, da magia e das metáforas, mas não mordem.

         Eu tenho o hábito de usar, aqui neste espaço, outra locução, “ler o tempo”, para distinguir escolhas, decisões e ações de filósofos, políticos, artistas, enfim, todos aqueles que conseguiram num determinado ponto de sua época se impor ou mudar o rumo dos acontecimentos. Foram poucos os citados por mim, mas acredito existirem muitos mais. Por exemplo, até hoje não tive a chance, como agora, de dizer que Caetano Veloso leu o tempo com precisão ímpar ao reagir às vaias de um público conservador, em 1968, durante o Festival da Canção, enquanto cantava “É proibido proibir”.

         Em resposta, ele, que iniciava a carreira artística, fez um discurso histórico, dizendo que a juventude estava “por fora”, que o júri era “incompetente”, pedindo que fosse desclassificado junto com Gilberto Gil. Ainda menino, franzino, desafiou o festival e calou a plateia, que não estava realmente entendendo nada. Era o auge da ditadura militar no Brasil e dos protestos estudantis em Paris contra a caretice. O mundo estava com os nervos à flor da pele. E Caetano, em um átimo, fortaleceu o Tropicalismo e virou voz poderosa no país, que era solapado pelos militares, pelos políticos vendilhões e pelos patrióticos da hora, todos pró Estados Unidos.

         Nunca fui fiel à cronologia. Minha idade é a que sinto. Não a que tenho. Um dia estou com 20 anos, noutro, 90. E assim vou me virando. Há 30 não uso relógios. Nunca soube medir o tempo pelo calendário. Ou nunca quis. Desconheço que o tempo tenha relação com a linearidade numérica e acredito que é melhor analisar o tempo com outros olhos, tatos e sons, como fez a “linguista” Amy Adams em “A chegada” (2016), ficção científica de Denis Villeneuve. O filme conta a chegada de alienígenas ao planeta e a necessidade de comunicação com eles. Adams tinha como missão traduzi-los. E a linguagem deles não seguia um padrão de linearidade entre passado, presente e futuro.

         Onde está a linearidade cronológica entre 1968, quando os EUA bancavam a ditadura aqui e agora, com as ameaças de Trump, em 2025? Na falta de memória? O que quer, para o Brasil, o ministro Fux, na enrolada explicação para justificar seu voto absolvendo o ex-presidente? Manter a ideia de que o Brasil é dos Estados Unidos? E Bolsonaro de réu virar rei? A direita e a extrema direita apoiam. Se os militares tivessem sido julgados ao fim da Ditadura Militar, como foram na Argentina e Chile, nada disso haveria.

Citar a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, no STF, é um mico maior do que o bandeirão yankee no desfile de 7 de setembro. É vassalagem indigente. Faltou ler o tempo. Está juntando as peças que não deveriam ter sido separadas em 1986. O que esperar? Caos, tumulto, baderna? Talvez. A oratória que aviva o ódio está viva. Os vendilhões estão famintos. É só ligar a TV. Quem elogiar Fux, é um deles. Cármen salvou o mês. Viva as mulheres!

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 12.09.2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

crônicas

Xucros e transtornados

Cláudio Pimentel

         O cotidiano, estejamos atentos ou distraídos, brinca com a nossa memória. Um simples nome no bolso do jaleco médico pode abrir um corredor de reminiscências, uma caverna de fantasmas esquecidos pelo tempo ou desprezados pela cobiça. Boas ou ruins, distantes ou não, elas sempre voltam autênticas como água de coco fresquinha. Dias desses, em busca de soluções para as fragilidades etéreas da alma, deparei-me com algo que vivi na passagem da infância para a adolescência, conhecer alguém com o nome Vladimir.

         Era o nosso primeiro ano no Ginásio, em São Paulo, no início dos anos 1970, e o nome se destacou pelo ineditismo e pela sonoridade que, àquela altura, nos dava apenas versões rústicas, do tipo Valdemir ou Valdomiro. E mais, era envergado por um menino loiro, cabelos compridos como um “Beatles” ou como “David Cassidy”, da “Família Dó, Ré, Mi”, disse Cristina, a mais bonita das meninas que ia conosco para a escola. Foi sua observação o que mais doeu. Ela o viu como um astro. E todas as outras concordaram. Para nós, não sobrou nada. Ah, ele tocava violão. E nós jogávamos bola.

         Só muito mais tarde, já no pré-vestibular, ouvi novamente o sonoro Vladimir, que vinha acompanhado de outros nomes tão sonoros quanto inéditos: “Vladimir Ilyich Ulyanov, pseudônimo Lenin”, principal líder da Revolução Russa, de 1917. Lembrei-me do “David Cassidy” de Cristina. O menino loiro carregava o nome de dois deuses: um do Rock e outro da Política. Fiquei em paz. Entendi tudo. Numa época em que não se ouvia o nome “Vladimir” facilmente, eu pelo menos conheci um. Sua trajetória desconheço, mas aposto que seu nome foi uma homenagem dos pais.

Depois conheci um Vladimir, no trabalho, já na Bahia, o qual hoje conduz sua vida com sabedoria e inteligência. Eram os únicos até encontrar outro recentemente: o Vladimir do jaleco médico. Este com o nome quase todo original. O nome de Lenin, quando dado a um filho, traz uma carga emocional imensa. Para a minha geração e as gerações anteriores a ela, que cresceram ouvindo os grandes feitos de Lenin, a revolução era única maneira de melhorar as condições de um Brasil pobre, atrasado e com gente morrendo de fome nas ruas

Lenin foi um professor de Filosofia, na Alemanha, que conseguiu unir as correntes russas contrárias ao violento Império dos Romanov e fazer a revolução marxista. São poucos os nomes “Vladimir” no Brasil, se compararmos à grande quantidade de nomes como Antônio, João, Paulo, José, Fernando, Luís, Carlos... Assim como também são poucos os nomes “Robespierre”, “Danton” e “San Just”, líderes da Revolução Francesa, que até hoje se mantém como o de maior símbolo de liberdade, democracia e igualdade no mundo ocidental. Nem tudo, porém, é perfeito.

E hoje, infelizmente, há forças adversas explorando erros passados contra a democracia, cujo antônimo é fascismo. Ele, aos poucos, vai voltando com suas teses e estratégias de solapar leis, fechar tribunais, calar imprensa, perseguir minorias, submeter trabalhadores, controlar religiões e tornar aparatos de segurança em forças pretorianas a serviço da proteção de seus líderes. Tudo está sendo trazido pelo movimento global que a direita e a extrema-direita fazem no planeta. Países como os Estados Unidos, de Trump, e o Brasil, com Bolsonaro e família, são as principais vítimas.

Há em uma passagem do livro “A sombra de Heidegger” (2005), de José Pablo Feinmann, da Editora Planeta, que demonstra o caos por trás das ações fascistas e nazistas às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Acontecem, no período em que Martin Heidegger, considerado o último grande filósofo da história, assume a Reitoria da Universidade de Freiburg e começa a defender o nacional-socialismo de Hitler, alimentando inesperadamente a “aventura sanguinária de um bando de alemães xucros, brutais e transtornados”. É o que assistimos agora no Brasil. Os transtornados estão chegando.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 05.09.2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

crônicas

O resfriado do Sinatra

Cláudio Pimentel

         Antes aliteração do que alienação: segunda-feira, em segunda marcha, avança a segunda guerra de segunda-mão. Quem gostava de aliterações era Jack Kerouac (1922 – 1969), autor de “On the road” (1955), considerado a bíblia da geração “Beat” e de outras gerações nem tão beats assim. Eu, quando li, já estava para lá dos 30 e não vi muita coisa, apesar da sua importância para alguns dos meus ídolos como Bob Dylan, que fugiu de casa depois de lê-lo. Coppola, Wim Wenders, Tom Waits, Neil Young, Tom Wolfe e Hunter Thompson não seriam os mesmos sem o livro. E eu não seria nada sem este time que ele inspirou. Estou relendo. O filme “Na Estrada” (2012), de Walter Salles, me intimou. Está disponível à cabo.

         Estou rascunhando um plano de viagem ao passado. Algo parecido ao que fez Kerouac, que botou o pé na estrada e seguiu o Sol até o Oeste mais distante em busca de algo. Seriam respostas? Sim. Entre ele e eu a diferença é a estrada. Seguirei as linhas e entrelinhas da história da liberdade no século XX. Quero entender o que ocorre hoje. Jack escreveu ao todo 20 livros de prosa e 18 de ensaios, cartas e poesias. Morreu de cirrose hepática, na Flórida, onde morava com a mãe e sua mulher, Stella. Um ermitão no sofá da sala, desiludido, amargo e simpático às teses da direita e extrema-direita. A mesma que agora tenta voltar e se firmar como liderança global.

         A trajetória do século XXI teve seu início já pavimentado com um fenômeno extraordinário: a quebra de paradigmas sociais, culturais e políticos. As duas mais espetaculares foram a falência comunista, com a queda do Muro de Berlin, e a desmistificação liberal, com a grande crise financeira de 2007/2008. O dinheiro sumiu. E junto com ele o desejo de mudanças e de novas soluções. Não há mais tabus, utopias ou revoluções a fazer. Temas como sexualidade, liberdade, igualdade, feminismo, pobreza, fome, raça, aborto, tecnologia, vacinas, meio ambiente e religiões estão na ordem do dia. O que sobra? O fascismo e as guerras, que renascem como capim. Nada mais se cria, tudo se copia.

         É o ambiente perfeito para a crônica brasileira voltar aos tempos áureos. Depois de 150 anos entretendo leitores de todas as idades e gêneros, ela apresenta invejável fôlego para se reinventar e se comunicar com o leitor. Seu poder de tratar todo assunto, mesmo sobre o que já foi dito mais de uma vez, e não parecer enfadonha, é uma dádiva. Haja leveza, graça, elegância, amor, humor e ironia. Sim, a ironia é sua rebeldia e sedução. Sua bala de prata. Quem melhor que uma crônica para apresentar nosso Congresso e seu esforço para aprovar uma PEC que impede que deputados sejam investigados por quaisquer crimes cometidos? Até o PCC e o CV vão entrar – sem trocadilho -, aos bandos na vida parlamentar.

         Gay Talese, escritor norte-americano e um dos inventores do jornalismo literário, é aplaudido por uma crônica cujo título já diz tudo: “Frank Sinatra está resfriado”. A pauta deu trabalho, pois Frank, indignado com a imprensa que denunciava seu envolvimento com a máfia, não queria falar, e a desculpa era um resfriado que não cedia. Talese, então, começou a entrevistar pessoas que viviam ao redor dele: motoristas, garçons, músicos. Com o movimento, um assessor se ofereceu para levar o jornalista à casa dos pais dele. Lá, a mãe de Frank falou até da relação dele com Ava Gardner, sua mulher. Frank jamais falou com o jornalista, mas apareceu em alguns lugares, onde pessoas do seu convívio eram entrevistados. A crônica virou 100 páginas e saiu na “Esquire”. “Blue Eyes” adorou.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 29.08.2025

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

crônicas

O golpe está no ar

Cláudio Pimentel

Se alguém me perguntar agora, às vésperas do fim do primeiro quarto do século XXI, o que faria para ampliar a visão de mundo da humanidade, eu responderia de chofre: “Instalava um Telescópio Hubble na principal praça de todas as capitais e principais cidades do planeta”. E não para ver o Cometa Halley ou novas galáxias, mas o comportamento das lideranças globais e o que deles são extraídos pela imprensa. Só, assim, com suas poderosas lentes, seria possível ver que a maioria mente que nem sente, como dizia um velho amigo da infância, quando a mãe prometia sorvete no jantar se entrasse logo porque já era tarde.

Há estudiosos que classificam tais mentiras como “mentiras estratégicas”, que têm pelo menos um “mínimo” de legitimidade. Alegam que algumas das facetas dessas mentiras teriam a intenção de não criar medos, mas tranquilidade à comunidade. Que soasse como um bem para todos. Forjar um clima de paz, que não há. Eu tenho minhas dúvidas. Líder que “mente” para o cidadão alimenta um clima de medo, de desonestidade. Alimenta reações negativas. A entrelinha tem língua comprida. Por mais “importante” que seja a estratégia por trás do que está sendo dito, há também a realidade, que não resiste a um confronto. O burburinho é inevitável.

 O que surpreende é que, se ouvirmos as teatrais falas do presidente Trump, muito do que diz, direcionado ao Brasil, convence uma parte do público e assusta a outra. Quem de sã consciência acredita que Bolsonaro é um homem sério, trabalhador, que se mostrou um firme negociador e é inocente de tentar um golpe contra o Brasil, como afirmou o presidente norte-americano ao justificar um tarifaço de 50 por cento em parte das exportações brasileiras? Há na fala uma série de inverdades. Só os eleitores dele não veem. Quem elegeu Lula vê. Aliás, Bolsonaro foi o primeiro presidente brasileiro a não se reeleger, mesmo tendo caneta e chave do cofre nas mãos. Seu governo foi ruim. O eleitor quis mudança.

O conflito criou pessoas que ampliaram a admiração por Trump e o desprezo por ele também. É um novo embate. Os EUA vestiram o Tio Sam e salpicam o país de novas teorias da conspiração. A de que o golpe que Bolsonaro e seus generais não deram, agora sairá do papel, que os navios americanos, que singram o Caribe, virão para o Brasil e que o avião “fantasma” que desceu em Porto Alegre trazia agentes da CIA especializados em sabotagens e guerrilhas. Clima que lembra o país entre 1964 a 1986. Eu vi uma bomba explodir no banheiro da faculdade em que estudei, em 1980, no Rio, e cobri outra, já como repórter, no banheiro da UCSAL, em 1984. Em ambas, a investigação apontou fogos de artifício.

O clima no Brasil está péssimo, sufocante, incompreensível. A tendência é piorar. Há um quê de secessão de autoria externa, que desfaz soberanias. Guerra é o que não precisamos. Nem agora, nem nunca. A grande imprensa acompanha com faro baixo e olhar turvo. Está dividida, espreitando. Basta ler os jornais ou assistir os telejornais. Não há mais o discurso único como na cobertura do impeachment de Dilma. O que há são notícias “espetaculares” onde faltam mocinhos e bandidos, mesmo que se amotinem no Congresso.

Aliás, o Congresso é o lugar onde a chama do golpe não se apagou. E é alimentada diariamente. Lá estão os porta-vozes dos timoneiros do golpe. Eles são discretos, mas assertivos quando abrem a boca ou operam afrontas. Para agirem assim, criaram um escudo formado pelos parlamentares de circo, do besteirol e do tipo pânico no rádio. Com ou sem os EUA, o golpe está no ar. E o judiciário já sentiu seu bafo. E se vira como pode. É o alvo escolhido para cair na primeira bomba. Expor os patrocinadores que deram início ao golpe pode ser xeque mate, só não se sabe para qual lado. Esta nem o Hubble é capaz de ver.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 22.08.2025

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

crônicas

O holofote do Batman

Cláudio Pimentel

Como faz falta o holofote do Batman nas mãos de pessoas sensatas, como eu. Estou convicto de que Trump é vítima de uma conspiração que enche o espírito de espinhos. Coisa braba mesmo. Pior que bode, cachaça e farofa nas encruzilhadas do Brasil, Ucrânia e Gaza, se é que ainda têm cruzamentos naquela terra quase santa. A Terra corre perigo como em “Sob o domínio do mal” (2004), filme de Jonathan Demme, que conta a história de um candidato à presidência dos Estados Unidos, sequestrado na guerra do Golfo e submetido a uma lavagem cerebral que o faz receber ordens de uma única pessoa. Quem seria?

Depois de ver Trump trocar a tarefa de presidente dos EUA pela antipática tarefa de interventor do planeta, meus sentidos acordaram: “Trump está possuído!” Será que tem o plano Axé Saúde e Vida? Em tempos de encruzilhadas congestionadas, sua apólice só não imuniza contra atendentes de telemarketing. São tão poderosos que o prefixo “0303”, que o identifica nas chamadas, foi retirado. “Ninguém atendia”, justificou a Anatel para o retrocesso. Mas não era essa a ideia, avisar o cliente, que optava em atender ou não? Voltemos à farsa: Trump obedece a alguém, como no filme? Seria Eduardo Bolsonaro? Talvez. A estocada em Tarcísio de Freitas, cuja PM mata mais que a peste, segundo relatório dos EUA sobre direitos humanos, foi ódio puro. Gol do Bananinha.

Mas em sendo Trump, há controvérsias. O bicho é tinhoso. Se a cabeça vai mal, a culpa é do shampoo, mas aposto em ego atrofiado. Suas estrepolias não passam de fisioterapia estimulada 24 horas por dia. Se houvesse “viagra” para inflar ego, já teria engolido uma fábrica. Ninguém pode aparecer, só ele. Deve passar horas no espelho repetindo o mantra: “espelho, espelho meu, existe alguém mais midiático do que eu?” Se der maçãs a Putin no Alasca, será caixão e vela. Melhor lugar impossível. Os russos veneram a morte sobre uma laje de gelo. A mais bonita está em “O Exército de Cavalaria”, livro de Isaac Bábel. Putin não é trouxa. A briguinha na Ucrânia já o tornou o segundo homem mais poderoso do mundo. Joga para ser o primeiro.

O Brasil, coitado, está catatônico. Jamais imaginou que o país guardasse tantos vendilhões ávidos em entregar tudo ao interventor Trump. Pesquisas mostram nas entrelinhas que o eleitorado de Bolsonaro concorda com as medidas de Trump, como tarifaço e lista negra para o ministro Moraes. Aplaudem a tentativa norte-americana de causar prejuízos a empresários, a trabalhadores e ao país. Judas! Uivam com a possibilidade de Trump estar criando o caos entre nós para justificar um golpe. Respeita nossa soberania.

Vislumbro a família unida, chicotes às mãos, deboche nas têmporas e nariz levantado conduzindo o ministro amordaçado para um avião de carga rumo aos EUA. Palmas na plateia que ora, ora e ora. Água ungida é despejada aos magotes. O movimento lembra um auto da fé, puxado por milicianos portando fuzis de todos os tamanhos. Demônios são expulsos de corpos rotos ao longo da caminhada por enérgicos pastores de gravatas, os vendedores da fé. Na cobertura, um show de imagens da imprensa de extrema direita e seus comentaristas de papel, de conexões mortas, Fake News, Fake News e Fake News.

Há 40 anos, este artigo seria apenas mais um trabalho escolar tentando traduzir as nuanças da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade e dirigida por Zé Celso Martinez em seu Teatro Oficina. Um trabalho em busca de metáforas, da festejada criatividade do tropicalismo e da inspiradora semana que jamais terminou: a Semana de Arte Moderna de 1922. Um terremoto na conservadora São Paulo, do início do século XX, que deu régua e compasso a um novo Brasil, evoluído, progressista, defensor das Artes e das Ciências. E não essa mixórdia a que assistimos. Só mesmo o Batman e seu holograma na noite dos céus para nos salvar. Ícone da cultura pop, símbolo da contracultura. Trump é o mal dentro e fora dos quadrinhos. Batman venceu todos eles. Eu já teria acendido o holofote.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 15.08.2025

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

crônicas

A página em branco

Cláudio Pimentel

         O italiano Ennio Morricone (1928 – 2020) produziu mais de 500 composições para cinema e televisão, além de obras clássicas. Por mais de 60 anos, fascinou com magia e ternura milhares de pessoas de todas as idades, fãs ou não, com suas impactantes trilhas sonoras. Muitas delas fizeram filmes que tornaram-se sucessos estupendos. Nasciam quase que num estalar de dedos. E com brilhantismo incomum. Fácil? Não! Havia uma barreira: a página em branco da partitura. Foi o que revela no documentário “Ennio: Il maestro” (2021), dirigido pelo conterrâneo Giuseppe Tornatore, diretor de “Cinema Paradiso” (1988), que tem, para mim, a melhor trilha que ele fez. O filme está no Prime Video.

         Quem diria! Pensei que o mal da página em branco existisse apenas para escritores. Dizem que Hemingway escrevia em pé para mostrar às páginas que ele estava ali e não daria tréguas. Assim que preenchia uma, deixava flutuar até cair no chão ao seu lado. Não as reescreveria mais. As outras, amassava e jogava longe. Meu amigo Chico Viana, colocava o papel na máquina e ficava folheando livros de poesia, filosofia e coisas que provocam a criatividade. O escritor Origines Lessa sentava-se diante da folha de papel e, com caneta ou lápis, aguardava na mente a fagulha inicial. Eu dou um título. Sem isso, não saio do lugar.

         O nado nostálgico tem um motivo: o ser humano está correndo perigo. E não é com as guerras. Estas já começaram e provocações para que outras entrem em ação já são anunciadas diariamente. A ameaça agora é o desaparelhamento de toda produção intelectual do mundo. E isso será possível com a extinção de várias profissões, num tempo ainda não previsto, mas que dá para chutar entre 20 e 50 anos. Será uma lavagem cerebral sem vassouras ou poções.

Um estudo da Microsoft apontou que as profissões que dependem da linguagem, da produção de conteúdo, das áreas de computação, da matemática, da comunicação ou das tarefas repetitivas ligadas a informações têm maior probabilidade de serem impactadas pela linguagem de inteligência artificial (IA). Impactada aí é um neologismo. Elas serão extintas ou, então, se tornarão produtos do submundo, como em “Matrix”. Talvez subversivas.

Mais de 200 mil conversas anônimas de usuários com o “Copilot”, assistente de IA da Microsoft, foram analisadas no ambiente dos Estados Unidos. A ideia era identificar as tarefas mais solicitadas à tecnologia, avaliar o desempenho da IA nessas atividades e medir qual é a parcela do trabalho realizada com sua ajuda. Como resultado foi obtido que as profissões com maior índice de aplicabilidade da IA, ou seja, que melhor poderão ser substituídas por ela são: historiadores, redatores e autores, locutores e radialistas, cientistas políticos, repórteres e jornalistas, redatores técnicos, revisores e editores de texto, editores, professores universitários, especialistas em relações públicas, agentes de publicidade, professores de economia, geógrafos e professores de biblioteconomia.

Estão todas no mesmo Titanic: as profissões que atuam na produção de conhecimento e as profissões que atuam na produção de conteúdo. Em outras palavras, os dois principais segmentos do mundo deixam de existir, pelo menos com humanos trabalhando. O primeiro ensina a conhecer, entender e corrigir o mundo; e o segundo informa, explica e vigia a ação das instituições públicas e privadas. É assustador um ambiente estéril de ideias.

O mundo não terá mais ideologias, utopias, sonhos, esperanças, empatia. Não terá mais credibilidade. O IA não pensa. É apenas um papagaio do futuro. Um instrumento dócil à correção, à reeducação. Se a direita hoje dá provas de que pretende varrer a democracia do planeta, imagine quando professores e jornalistas não existirem mais. Como será? Uma autocracia, que poderá ser “Trumpista”, “Vladimirista”, Xijinguista ou do ditador poderoso da vez, que poderá ser até um árabe, destes que mandam na Premier League Britânica. Adeus criadores como Ennio Morricone. As páginas brancas não precisarão mais de notas musicais, prosas e poesias. Os dez mandamentos bastam.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 08.08.2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

crônicas

A democracia está ferida de morte

Cláudio Pimentel

         Se nada for feito pelos norte-americanos, o legado que o presidente Trump deixará à história já está escrito: o fim da democracia nos EUA. Serão 200 anos jogados no lixo. De um período em que promoveu riquezas, crescimento social e avanço tecnológico jamais vistos. E o fez respeitando a vontade popular, a preservação da liberdade e a igualdade de direitos. Nunca houve nada igual. A democracia foi o pilar que elevou o país à condição de maior potência do século XX. Mas, miseravelmente, agora assistimos o seu desmonte, orquestrado a bravatas por um insubmisso maestro de fancaria, que impõe terrível metamorfose ao país, que deixa a democracia vitoriosa de lado e assume a máscara de uma democracia delinquente.

         Depois da Segunda Guerra outros países que adotaram o regime democrático, como Alemanha e Japão, trilharam o mesmo caminho, o do crescimento econômico e da estabilidade social. E o fenômeno não termina por aí. O Brasil também. Logo após o fim da ditadura de 1964, em 1986, e a promulgação da Constituição de 1988, o país começou a sonhar com a possibilidade de se igualar às grandes nações democráticas do primeiro mundo. Não foi fácil. Trilhou caminhos espinhosos, ameaças de retrocessos, mas avançou a patamares jamais alcançados. Ainda não é o ideal, mas são quase 30 anos de árdua construção, os quais não permitem mais erros e vacilos. O Brasil luta bravamente agora para manter sua democracia intocável.

         Mas o presidente Trump, assim como desrespeitosamente trata a Constituição norte-americana, decidiu também desrespeitar a nossa Constituição. E o faz se utilizando de golpes baixos, desprezíveis até como mentiras, ameaças e truculências, para diminuir o Brasil ao olhar do mundo e ao olhar dos próprios brasileiros, que não se deixam enganar. Responderam não, com bravura e patriotismo, às pesquisas que perguntam se Trump está correto com o tarifaço às exportações do país e às sanções ao Judiciário. A população se posicionou contra a tentativa de Donald em desestabilizar o país. Até segmentos da indústria e da lavoura, como o Agronegócio, que alimenta os políticos de extrema direita no país, se surpreenderam e baixaram a guarda.

         O processo é cercado de ironia. Os EUA estão investindo energia incomum para impedir que o ex-presidente brasileiro (2018 – 2022) seja condenado da tentativa de golpe de Estado em 2023, logo após à posse de Lula. O presidente, aliás, junto com seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STJ Alexandre Moraes seriam mortos, segundo planos encontrados pela Polícia Federal. Trump amarra as sanções feitas às exportações do Brasil à liberação do ex-presidente das acusações. Usa um caso de Polícia para subordinar o Brasil aos seus intentos, salvar um aliado político tão tonto quanto ele. Não há lei no mundo que sustente tal ordem.

         A ironia, porém, não termina aí. Em matéria de democracia, o Brasil dá exemplo de que está muito mais zeloso com a Constituição do que os EUA. Trump perdeu para Biden, em 2021, e tentou melar o resultado atacando o Capitólio com trumpistas, assim como o Congresso brasileiro foi atacado por bolsonaristas, em 2023. Lá em Washington houve até mortes. Se a Suprema Corte norte-americana fosse tão atenta e proativa quanto a do Brasil, Trump não estaria amedrontando o mundo hoje, mas preso, como deve ser o destino do ex-presidente brasileiro.

E é por isso que o Brasil está sob a ameaça de um Golpe de Estado de Trump. Mirar os ministros do STF é o primeiro passo de uma ação golpista. As sanções, mesmo tendo sido arrefecidas nas últimas horas, foram para quebrar o país. O governo corre para criar programas que atenuem os efeitos das medidas trumpistas, como falência de empresas e perda de milhares de empregos. Em suma, estamos reféns dos tentáculos de um tirano inconsequente e de uma família de entreguistas sem compostura alguma. A história cuidará deles.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 01.08.2025

sexta-feira, 25 de julho de 2025

crônicas

Nós já fomos vivos

Cláudio Pimentel

         Sorria para o mundo e o mundo sorrirá para você. A máxima é supimpa, mas caiu de maduro. O tempo comeu com jiló. Agora, se retribuído, o sorriso virá amargo. Ou repetirá Godot. Siga em frente. Eu perdi a fé. E a culpa é do Caetano. Peguei ele contrito, cantando “Asa Branca” na TV. Os versos doíam. Apenas a voz, o violão e seu rosto. Cativou quando arrulhou: “por falta d’água, perdi meu gado; morreu de sede meu alazão” – tudo num soluço só. Morrer de sede é o auge do desprezo. É a tortura silenciosa. A desintegração do corpo. Um pôr do sol maldito. Faz quem tem defeito na alma.

         O que não falta nas imagens que inundam as TVs é palestino morrendo de sede. São mortes indignas, como a do “alazão” de Luís Gonzaga, que viu e chorou no sertão seco. Em Gaza, não é assim. As pessoas não estão morrendo de sede por falta d’água, mas por excesso de ódio. A água é negada para oprimir, chantagear e humilhar. Dói saber que bebês e crianças pequenas morrem porque não lhes dão água. E nem comida. Seus corpinhos vão secando até sucumbirem. Quem promove este circo do horror? Gaza é hoje o epicentro da “banalidade do mal”, definição da filósofa Hannah Arendt, ao final da Segunda Guerra, para explicar a tragédia sofrida pelos judeus, na Alemanha. Ela era judia.

         A “banalidade do mal” se dá quando, pessoas comuns, fazendo coisas comuns e vivendo suas vidas comuns, “impulsionam o movimento das engrenagens do horror na sociedade sem perceber”. Nós ocidentais estamos fazendo o mesmo. Negamos a morte, buscamos a longevidade, mas assistimos diariamente o assassinato de dezenas de palestinos e reagimos como se estivéssemos, não diante da TV, mas diante de um videogame, onde matamos sem piedade. Perdemos a empatia. Aceitamos a realidade “fake” da imprensa de que tudo está sob controle, e perdemos o sentido da catástrofe que Gaza tomou, do massacre de pessoas que se instalou. Nos anestesiamos.

Estas distorções são resultado da correria mundial rumo às melhores posições no futuro mapa geopolítico. Todos querem um lugar ao sol, mas os extremismos tornaram-se obstáculos: ideológicos, religiosos, econômicos, tribais, étnicos... O mundo se dividiu em dois. Não há moderação. O debate é entre certos e errados, mocinhos e bandidos, amigos e inimigos. E ninguém sabe quem é um ou quem é o outro. Acaba em porrada. As guerras já se antecipam. O Brasil corre sérios riscos de ser submetido a um novo golpe de estado, desta vez comandado por Trump. É grave a decisão dele em taxar em 50 por cento as exportações brasileiras tendo como condição para retirá-las, a absolvição do ex-presidente que tentou rasgar a Constituição do país. É de matar de sede.

         Trump repete o que vários presidentes norte-americanos já fizeram: quer a América Latina como o quintal de Washington. Apesar do ultimado dele ter caído mal no país, os poderosos e traidores já se enrolaram na bandeira norte-americana. E vêm sempre pelo latifúndio. Pelo atraso. O tom dos próximos passos pode ser: fechar o Judiciário, destituir o Executivo, cassar parlamentares e entronizar Bolsonaro. A Sétima Frota dos Estados Unidos seria deslocada para o Rio. E Lula e Moraes não seriam mortos mais. Apenas presos. Seria inédito. Mas Trump pode tudo. Até voltar atrás. A suspeita de pedofilia, porém, o emparedou.

Um sinal: quando vi o enorme painel com o nome Trump ser exibido pela extrema-direita na Câmara, pensei: esta deveria ser a foto de todas as primeiras páginas dos jornais de quarta. Errei. A Santíssima Trindade da Imprensa Brasileira, “Folha”, “Estadão” e “O Globo”, ignorou a foto. Uma pena. Parabéns para “Zero Hora” (RS) e “O Tempo” (MG), que deram. Até então nenhum exemplo tão explícito de entreguismo havia surgido entre nós. Resta, agora, saber quem pagou o painel, vossas excelências do PL ou nós contribuintes. Tentar golpe com dinheiro do erário é sacanagem. Nós já fomos vivos,

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 25.07.2025

sexta-feira, 18 de julho de 2025

crônicas

Furo no céu

Cláudio Pimentel

         Jamais fui fã do “Queen”, banda de Rock que explodiu nos anos 1970, e nem de suas músicas. A sonoridade massiva, retumbante e superficial, ao invés de me atrair, como faziam os Beatles, Zeppelin, Bowie, Stones, Sting e Hendrix, me repelia. Os amigos me cobravam explicações, mas sinceramente não sabia o porquê. Não sei até hoje. O Queen, aliás, não está sozinho na minha lista de exceções. Estão também Rod Stewart, Elvis Presley, Ramones, Alice Cooper, Jethro Tull e outros que nem vale a pena citar. O Pink Floyd, por exemplo, me faz bipolar: tem semestre que gosto e tem semestre que não. Gostos são complexos.

         Mas algo mudou recentemente, em relação ao Queen, depois que vi pela segunda vez o filme “Bohemian Rhapsody”, biografia musical que retrata a turbulenta carreira de Freddie Mercury, seus conflitos exteriores e interiores e os efeitos que causaram. Há um instante, quando está literalmente no fundo do poço, tentando ascender, em que quebra a rejeição que eu ainda mantinha contra ele, o artista. É ao pedir humildemente desculpas aos companheiros pelo seu comportamento e tentar motivá-los com um slogan: “furo no céu”. Eles deveriam deixar as divergências de lado e retomar o plano de medir o sucesso da banda fazendo um furo no céu. Ascensão maior seria impossível.

         Fazer um furo no céu é uma metáfora radical. São os deuses gregos chegando ao Olimpo sob o solo de guitarras. É mais que um Deus grego. É um Deus Rocker. Todos nós, quando jovens, ansiamos por isso. Sem exceção. Até eu, apesar de alquebrado e mais próximo do poço do que do Céu, ainda sonho... Cada um tem o seu céu para furar. No qual, a altura independe. Vamos quebrar a lógica de que a gente só trabalha, sobrevive e espera o tempo do nada, o tempo do vazio, o tempo da desesperança. Há um movimento subjacente que quer nos impor essa mentira. Bullshit! A maioria das histórias não começam e nem terminam onde deveriam. É o que Mercury nos diz. E é o que precisamos interiorizar.

         O mundo está se dividindo em dois. Privilegiados no Norte e não privilegiados no Sul. A cortina que separa as duas dimensões, porém, fica diariamente mais transparente. A chantagem, a bravata e a mentira estão traçando as novas fronteiras sem qualquer remorso. Engenheiros com fuzis nas mãos trabalham noite e dia. Quanto mais se fala em união, mais reações surgem pela desunião. Os palestinos serão os primeiros expulsos de casa. Depois serão os Yanomamis e depois os Esquimós e assim por diante. Nenhum movimento ainda se escalou para demover estes cretinos. Punições e bravatas pipocam com intensidade. A loucura e a mentira se instalaram nas relações diplomáticas. A implosão está aí. Ninguém está seguro. Só os privilegiados.

No Brasil, os patetas que não se reconhecem e renegam o lugar de onde vieram preparam-se para assumir. Serão os capatazes do primeiro mundo. Usarão os bonés vermelhos do império, cujo grito de guerra é: “Make America Great Again” (Torne a América Grande Novamente). Que brasileiro é esse, traidor da Pátria Amada Brasil? Nem Judas, nem Cabo Anselmo, nem Calabar se queimariam tanto. Darth Vader tirou o capacete preto, calçou uma peruca laranja e virou Imperador do fim do mundo. A ordem da hora é mexer na receita da Coca Cola. Lembra-me “Bananas”, filme de Woody Allen, cujo ditador decretou para os homens o uso de cuecas vermelhas por cima da calça. Será a ordem de amanhã. Um charme. Combina com o boné!   

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 18.07.2025


sexta-feira, 11 de julho de 2025

crônicas

De Roosevelt a Trump

Cláudio Pimentel

         O fascismo não tem lado, nem cor ou justificativa para existir, mas existe. E está aí, prontinho em folha nas orações e despautérios do atual presidente da maior democracia do mundo, os Estados Unidos. Não é o primeiro - incrível, não é? -, mas talvez seja o último, o que é mais incrível! O eleitor norte-americano, a cada 15 ou 20 anos, adora pôr um fascista na Casa Branca. Todos fanfarrões. Hoje a maior ameaça a Donald Trump é sua própria língua. Se mordê-la, estimo que será difícil um antídoto, mas deixemos para o tempo cuidar da efeméride.

Um dos mais controversos foi Theodore Roosevelt, o 26º presidente (1901 - 1909). Sua maior façanha foi sair como herói da Guerra Hispano Americana, no Caribe, sem sequer dar um tiro ou singrar as águas no entorno de Cuba e Porto Rico, que lutavam pela independência. Ele apenas cuidava de um regimento de cavalaria voluntária, mas graças aos jornais do magnata da imprensa norte-americana, William Randolph Hearst, ganhou notoriedade. Até um navio afundou, segundo Hearst, que comandou sua campanha à presidência. Eleito, foi o criador do “Big Stick” – o grande porrete - símbolo do estilo de diplomacia usado por ele, que permaneceu.

Capaz de fazer Mussolini morrer de inveja, em sua catacumba, Richard Nixon, antes de se tornar o 37º presidente dos EUA, conseguiu ser tão atuante no período do macartismo, entre os anos 1940 e 1950, quanto o senador Joseph McCarthy, que liderou uma campanha de intensa perseguição política no país, acusando indivíduos e grupos de esquerda de serem comunistas ou simpatizantes, sem provas. Promovia audiências e investigações que visavam expor e punir supostos espiões, causando medo, desemprego e desconfiança no país. As maiores vítimas foram produtores, diretores, roteiristas e atores de Hollywood. Eleito em 1968, sua administração ficou marcada pelo “Escândalo Watergate”, contra o qual utilizou técnicas do macartismo para desqualificar as investigações e a imprensa. Renunciou. 

Ronald Reagan, 40º presidente dos EUA (1981-1989) foi ator medíocre nos anos 1950, mas um entusiasmado defensor do macartismo. Não é lembrado pelos filmes que atuou, mas pelo alinhamento às perseguições, dedurando colegas de trabalho à sanha dos inquisidores. É um fascista moderado. Como presidente introduziu medidas neoliberais no país – hoje afligem o mundo - e ampliou a ação norte-americana no combate ao comunismo. Ditadores latino-americanos foram os mais beneficiados. Apoiou Saddam Hussein na guerra contra o Irã e se envolveu no escândalo "Irã-Contras", quando autoridades do governo facilitaram a venda secreta de armas para o Irã, sendo o dinheiro arrecadado, desviado para grupos paramilitares que combatiam os sandinistas na Nicarágua.

         George Bush Jr., o 43º presidente dos EUA (2001 – 2009), virou o mundo de cabeça para baixo depois do ataque terrorista, em 11 de setembro de 2001, contra o World Trade Center. Todos nós, aliás, ainda pagamos pela tragédia. O mundo se tornou um lugar perigoso, pois todos passaram a ser suspeitos de serem os próximos terroristas. Aviões deixaram de ser um prazer, para se tornarem um exercício de paciência e submissão ao aparato de segurança, onde tudo é proibido e as revistas quase invasivas. Seu governo, talvez, seja o pior da história, sentimento que se amplia quando recordamos o crash dos bancos americanos, em 2008, resultado da política neoliberal do seu governo, que não fiscalizava a economia. Continuamos quebrados.

         Trump é o 45º e o 47º presidente dos EUA, o que denota algo errado. Ele foi o único da história a não se reeleger. Foram quatro anos de confusões, erros em profusões e contusões sociais, culturais, econômicas e políticas. O eleitor se assustou, mas ele voltou. E convencido de que deve ser pior. Trump erra mais que os ex-presidentes citados. Exibe cacoetes doentios, sádicos e ególatras. Gosta de confusão, entrechoque e mal entendidos. Sua arma é ferir. A psicopatia o guia. A lógica o afasta. E a mentira o define. Vai dar errado. Implicar com o Brasil por motivos políticos elevou a certeza de sua queda. O mundo arregalou os olhos.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 11.07.2025

sexta-feira, 4 de julho de 2025

crônicas

Desejo de matar

Cláudio Pimentel

    Conheci Charles Bronson (1921 – 2003) ali pela metade dos anos 1970, quando seu nome explodiu na mídia mundial depois de estrelar o filme “Desejo de matar” (1974). Aqui no Brasil não foi diferente: um grande sucesso do cinema. Mas quem morava no Rio ou, mais precisamente, na violenta Baixada Fluminense, como eu, via o ator como um herói a ser seguido e idolatrado. Não sei se foi nessa época que nasceu a expressão “bandido bom é bandido morto”, mas me lembro que a frase funcionava como mantra. E muita gente a incorporou ao “Pai Nosso”. A cabeça chata e o vasto bigode faziam do Bronson um quase brasileiro da Baixada.

Foi em uma destas madrugadas de foguetório e insônia que o fantasma do justiceiro surgiu na TV com o seu velho e ordinário “Desejo de Matar”, o primeiro, o original. E assisti mais uma vez, 40 anos depois: que porcaria! Mesmo assim, o filme nesse período teve 10 refilmagens, sendo cinco delas com o Charles no gatilho. Apesar dos números, o filme inexiste em livros ou revistas de cinema. Só achei fichas técnicas na Internet. Livros como “Filosofando no cinema”, de Ollivier Pourriol, “O psicanalista vai ao cinema”, Sérgio Telles, “Como ver um filme”, Ana Maria Bahiana, e “1001 Noites no cinema”, de Pauline Kael, ignoram o filme. Até o super catálogo “1001 filmes para ver antes de morrer” negou-lhe uma citação.

É um erro. “Desejo de matar” merecia uma análise. Não, talvez, pelo roteiro, que trata da vingança de um homem contra a morte de sua mulher por um bandido, mas para perguntar: Que raio de público é esse que dá plateia a um filme ruim que se repetiu, pelo menos duas vezes a cada dez anos, gerando fortunas aos seus produtores? Tive colegas na juventude que andavam armados, levando, além do revólver calibre 32, identificação com Bronson. Eu ria, com moderação, é claro. Aliás, os fluminenses adoram ondas. Antes, a moda era Kung Fu. Três fenômenos a estimularam: a violência endêmica, a dançante canção “Kung fu Fighting”, de Carl Douglas, e a série “Kung Fu”, com David Carradine (o gafanhoto), de 1972 a 75. Lembra?

Os fãs talvez se identificassem com o filme na esperança de que algum dia o Charles Bronson surgisse no horizonte do Rio nos defendendo, mas não foi assim. No período da ditadura, muitos justiceiros surgiram, mas executando “bandidos” errados, os que combatiam a ditadura. A “Scuderie Le Coq”, uma organização paramilitar criada por policiais no Rio de Janeiro em 1965, era assim, agia como o BOPE do Capitão Nascimento, de Wagner Moura: “Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral. E também vai pegar você”. Na terra das milícias, ninguém mais sabe quem é mocinho ou bandido. Em “Desejo de Matar”, o staff polícia/justiça se nega a prender o personagem de Charles Bronson. Os crimes caíram em Nova York. Que fosse, então, matar em outro lugar.

O mais provável é que a alma fascista do filme tenha desagradado os críticos. A mesma que alimenta o noticiário policial brasileiro, aquele do sangue, suor e lágrimas, que faz o entrevistado confirmar “com certeza” o desejo da punição divina. O que eles não sabem é que, para isso, o “além” precisa de voluntários, como Charles Bronson ou Capitão Nascimento, para apertar o gatilho. Em “Desejo para matar” a polícia não prende, a justiça não pune e ambos não dão segurança. É a mesma pegada do noticiário, que empurra os descontentes a rogar por Deus e pedir licença para fazer justiça com as próprias mãos. É por isso que hoje um grama de pó vale mais que uma vida.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 04.07.2025


sexta-feira, 27 de junho de 2025

crônicas

Guerras patéticas

Cláudio Pimentel

         Atribuem ao cientista Albert Einstein, criador da teoria da relatividade, o seguinte comentário: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com paus e pedras”. Isto me lembra o longo início do filme “2001 - Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick, quando hordas de símios disputam, com paus e pedras, o domínio de uma “poça d’água”. Estavam sedentos. A diferença é que agora, após um possível espirro nuclear, ao invés de macacos, seríamos nós, ali, brigando pela lama rala e escura daquele buraco. Kubrick não estava retratando o passado, mas o futuro. A ironia é a cara dele.

         O que Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, Israel e Irã estão promovendo, atravessando mísseis e drones de um lado para o outro, matando civis e militares sob o olhar complacente da Europa, é um ensaio espetacular da Terceira Guerra Mundial, cujo final jamais veremos. Não tenho dúvidas. Sinto-me mal. Os últimos bombardeios reforçam a sensação. O festival de mentiras e contrainformações também. A covardia dos poderosos assombra. A imprensa bate cabeça a maior parte do tempo. É ludibriada sem ressentimento algum. O uso de bombas com 17 toneladas cada, despejados por um avião “fantasma”, lembrou o massacre de Hiroshima e Nagasaki. Que horror!

A guerra é filha da intolerância e, como tal, vai destruindo o tecido social, seja das nações, ainda não envolvidas, que assistem às escaramuças pelos telejornais, seja de algozes e vítimas. Entre todos, o ódio, que é o maior efeito colateral que poderia haver, alimenta a vingança. E o sentimento se alastra porque nenhum motivo explica a guerra. Nenhum motivo explica a aniquilação de crianças, mulheres e idosos, suas moradias e locais como abrigos e hospitais. A guerra nos deixa tateando no escuro. É permitir que cordeiros nadam com tubarões. É entender que no mundo dos negócios, o único negócio bem explorado é você. Afinal, guerra é negócio.

Os negócios em períodos de guerras não deixam de ser cruéis nem com os cruéis amigos que frequentam a corte. Os 32 países membros da Otan, na Europa, já receberam a conta dos combates. Todos devem se comprometer em aumentar em cinco porcento do PIB o investimento em defesa. A Espanha reagiu, considerando a despesa um desperdício. Trump condenou a recusa e ameaçou cobrar o país em dobro. É papel dele exigir que pague? Ele é presidente do mundo ou dos Estados Unidos?  Os norte-americanos, aliás, passam pelas mesmas agruras que Alemanha passava antes da Segunda Guerra: voltar a ser o maior. E ainda tem a sofrência do Brasil e seu inepto, perdulário e concupiscente Congresso. Vai cortar na carne.

O clima me convida a voltar no tempo, à década que nasci, anos 1960, e perguntar às pessoas da geração anterior à minha o porquê de estarem alimentando essas guerras? Vocês estavam onde quando Kennedy foi morto? O que faziam quando o Muro de Berlim veio abaixo? Como entenderam os ataques ao World Trade Center? Estamos presenciando agora um daqueles momentos definidores da experiência e da emoção globais, compartilhados pela televisão. Será que vocês líderes, seus assessores, estudiosos, conselheiros e analistas não aprenderam nada?

São fatos que mudaram os rumos da história. Que raio de gente, foi este, que elegemos aqui, ali e acolá? O que aprenderam? Pelo jeito, nada! Vocês não têm desculpas. Estão permitindo que o mundo, na aurora da inteligência artificial, na magia da exploração do espaço sideral e no entendimento e uso democrático da internet, passe por um retrocesso de mais de 80 anos e volte ao desespero dos dias que antecederam a Segunda Guerra, como se fossemos os símios do filme de Kubrick. Ora, com licença: vão lamber sabão no Inferno; e peguem seus banquinhos e saiam de mansinho. Estão no lugar errado.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 27.06.2025


sexta-feira, 20 de junho de 2025

crônicas

O trabalho sujo

Cláudio Pimentel

         Se eu tivesse a primazia de apontar um filme que simboliza a alucinação que tomou conta do planeta nos últimos cinco anos, “Os produtores”, lançado em 2005, cairia como luva, notadamente, pela ostentação e pelos abusos que rolam mais intensamente de janeiro para cá. Todas as medidas, de segurança a bons modos, de inteligência a elegância e de piedade a empatia, foram rompidas sem que uma voz sequer se levantasse para protestar ou alertar para os riscos em jogo: a vida.

         O filme, dirigido por Susan Stroman e estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman, é uma comédia musical que nos faz rir. Odeio musicais, mas isso me seduziu - Thurman está belíssima! Um produtor quer dinheiro para montar a pior peça que encontrou, “Primavera para Hitler”, e dar um golpe nos financiadores. Tudo é feito para tornar o show um fracasso, não passando da estreia. O objetivo é embolsar a grana da temporada.

         Mas, se na peça, o mais engraçado são os testes para escolher, entre lantejoulas e afetação, quem fará Hitler, o mesmo não ocorre agora. Os candidatos aptos a Hitler são de fazer chorar: Trump, Putin, Netanyahu, Khamenei, Xi Jinping e, de última hora, o chanceler alemão Friedrich Merz. Em um rompante de “sincericídio”, bradou para correligionários seu apoio a Israel, que está fazendo no Irã o “trabalho sujo” que é da Europa. Chamei Maysa: “Meu mundo caiu”.

         Nas entrelinhas, Merz disse que as lideranças europeias integram uma choldra que defende o fim daqueles que não gostam ou os ameacem. Repete a ladainha da extrema direita de sempre ter um inimigo para acusar, odiar e destruir. O cafajestismo não por aí. E se apresenta de forma tão violenta, que deveria ser proibido para menores de 90 anos. Trump e Netanyahu, há dias, debatem ao vivo o assassinato do aiatolá Khamenei. Fazem como se opinassem o que é melhor para o Brasil: Vini Jr. ou Neymar?

         O que falar da insegurança quando dois líderes políticos assumem a morte de outro líder, o do Irã, como se houvesse uma caça a jacarés. Parece o Comando Vermelho distribuindo a lista de assassinatos do dia. E o Trump se delicia em comentá-los em tom de fofoca. Em seu avião, chama os jornalistas e, por trás de uma portinha igual à do lavabo, diz: “eu sei onde Khamenei se esconde”; quero sua rendição já; se eu fosse ele, esvaziava Teerã. Trata o líder religioso como um ladrão de hóstias.

         Trump usaria o mesmo tom para desqualificar o Papa? “Se eu fosse ele evacuava o Vaticano correndo”. E o Dalai, faria o mesmo? Disparates, com ou sem biquinho. Duvido que tratasse assim a pastora Paula White, de sua congregação, que promete o Inferno para quem não votar nele. A igreja católica já teve Papas líderes políticos ou militares. Júlio II, o Papa Terrível, que reinou de 1503 a 1513, foi um deles. Mecenas, fundou quase todos os Museus do Vaticano. Foi um governante poderoso em sua época. E teve a audácia de contratar Michelangelo para pintar o teto da capela Sistina.

         “Agonia e êxtase” (1965), de Carol Reed, tendo Charlton Heston como Michelangelo e Rex Harrison como o Papa Júlio II, ilumina a grandeza do Renascimento. Não há nada que se assemelhe hoje. Temos apenas o poder dos grandes conglomerados financeiros, cujos donos, incógnitos, tentam impor seus escolhidos a Hitler. No Renascimento, a religião abraçava as artes e as ciências, hoje, a religião as rejeita, condena e persegue. A de Trump é uma delas. Por isso, Harvard é atacada. Desenvolver conhecimento é pecado.

         No Brasil não é diferente. Sofre com a política do retrocesso. Criada para favorecer familiares e aliados do ex-presidente, a “Abin paralela”, revela a PF, estava espionando gente como ex-deputado Jean Wyllys e o humorista Gregório Duvivier, dois perigosos defensores da diversidade de gêneros e do humor de raiz, que não usa chapa branca. Além deles, eram monitorados os jornalistas Vera Magalhães, Luiza Alves Bandeira, Pedro Batista, Reinaldo Azevedo e Alice Martins Maciel. É mole? Quanta estupidez.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 20.06.2025

sexta-feira, 13 de junho de 2025

crônicas

Confraria dos Pinóquios

Cláudio Pimentel

A mentira é um mal que está desafiando a humanidade. Nasceram juntos e jamais se separaram. No início, quando o mundo não era este mamute complexo, que é hoje, causou estragos: alguns corações partidos, reputações manchadas e desavenças estapafúrdias. Hoje carrega potencial nuclear graças às redes sociais, que mostraram o caminho. Se intencional ou acidental, não se sabe. Virou pandemia. A vacina para contê-la está longe. E poucas são as esperanças de um dia vingar. Ela está no ar que respiramos e em cada tela que foquemos o olhar. É onisciente. E, como o camaleão, camufla-se nas peles de verdade, cinismo, ironia, engano, ilusão. É como o Diabo gosta: está em todo lugar.

         Mentira é mentira. Carece de sinônimos claros. E não brota no jardim e nem cai do céu. O verbo mentir exige um sujeito. Precisa dele para lhe dar vida, o qual pode ser eu, você, qualquer um. Quem mente tem consciência de que mente. Ninguém mente por distração, como sugere a canção “Da cor brasileira”, de Bethânia, que faz poesia: “Enquanto o que mente é o que acreditou”. Mente-se por querer mesmo. A mentira tem sempre uma intenção, que nunca é boa. Ela tende a beneficiar o mentiroso e prejudicar o inocente que acreditou. Do âmbito familiar ao social, todas as mentiras são danosas. Machucam quando descobertas. O que seria do estelionatário se não houvesse a mentira? E dos políticos?

         Todo mentiroso é um “cara de pau”, seja profissional ou amador. Não sei se a referência à madeira, no apelido, tem relação com a fábula de Pinóquio, boneco de madeira, cujo nariz crescia depois que contasse uma mentira. O conto foi escrito pelo italiano Carlo Collodi, em 1883, como metáfora à importância de ser honesto e bom. Adaptado para o cinema pelos Estúdios Disney, tornou-se um dos contos mais conhecidos do mundo, para a tristeza de quem tem nariz grande. E não para quem mente. Estes continuam incólumes, mesmo com a gigantesca avalanche de mentiras, mais conhecidas como Fake News, que inundam as redes sociais.

         Jornalistas, acadêmicos, educadores, instituições públicas e privadas entraram em estado de alerta, mas, a cada instante, o dilúvio de desinformação é mais intenso, tornando a compreensão do que ocorre como algo árido, cansativo e desestimulante. O resultado é a proliferação de pessoas desinformadas e aptas a se engajarem nas mais esdrúxulas missões, como sabotar vacinas, defender ditaduras, estimular a violência contra vulneráveis, como moradores de ruas, e apologia à compra e uso de armas. Qualquer uma dessas missões possui gente preparada para atrair simpatizantes e colaboradores. O alvo maior é a democracia. É um movimento mundial

         Não é à toa que Putin, da Rússia, iniciou a semana avisando que pensa em utilizar armas nucleares na Ucrânia. Fake News. Quem vai usá-las, não avisa. O planeta sofre com as bravatas. Veja, o novo rompante do déspota Trump, dos EUA. Ignorou as leis, o governador e a população da Califórnia para invadir Los Angeles, com o apoio da Guarda Nacional e dos Marines, para sufocar manifestação que usava pedras contra a extradição de pessoas. Motivo: devolver aos países da América Central todos os ladrões e assassinos que enviaram aos EUA. Ou seja, outra Fake News.

         Ou, então, olhar para o Brasil, e ver um repaginado ex-presidente, falante, jovial e educado, informando sobre a tentativa de golpe no país. Nega tudo, mas confirma reuniões com as Forças Armadas, análises da minuta do Golpe, concluindo que não havia clima para ir adiante. Pirou? Chamou o pessoal dos acampamentos e das depredações de malucos. Parecia um cavalheiro. Não foi hostil com Morais e pediu desculpas por algumas malcriações. Só vacilou quando disse “Seu Ministro”. Todo “seu” é Zé. Ministro Seu Zé. Não perdeu a pegada! Tudo ficção. Tudo plástico. Tudo Fake News. O trio de Pinóquios bombou.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 13.06.2025

sábado, 7 de junho de 2025

crônicas

Dramas, tramas e Brahmas

Cláudio Pimentel

         O remédio dos miseráveis é a esperança, teria dito Shakespeare, para alegria de cronistas pouco inspirados, como estou. Não acredito, porém, que o Bardo sofresse do mesmo mal. Aliás, quem sou eu para supor que ele sofresse de alguma coisa, falta de esperança, inspiração ou casa cheia para seus dramas, suas tramas, suas Brahmas. Seus personagens, criados em profusão, falam por ele. E bem melhor. Apesar de fictícios, a essência que deixaram nos conquistou. O pândego Ambrose Bierce, por exemplo, autor do Dicionário do Diabo, tinha uma definição heterodoxa para esperança: “desejo e expectativa combinados num só”.

Deve ser esta, a ironia de Bierce, que os palestinos adotaram. A esperança é um desejo infértil que não se abre mão. Resultado: foram abandonados, tiveram as casas destruídas e morrem diariamente sob bombardeios, mas não saem de Gaza. E mesmo ao relento, sem comida e sem água, permanecem feitos destroços, tal e qual figurantes de sagas bíblicas, como as de Moisés e Jesus Cristo. O cenário parece até o do sertão nordestino. Se Glauber, vivo fosse, já teria filmado a barbárie, mostrando a saga do mundo lavando as mãos, como Pilatos. O palestino é um louco? Não. Alguém com fé extrema, única arma. O palestino é antes de tudo um forte, há que se reconhecer.

E a mão que lava é a mesma que atira pedras. É incrível a vocação, cada vez maior entre nós, de se apedrejar vizinhos, lideranças, instituições, universidades, agências humanitárias e governos democráticos. A hipocrisia virou vício de políticos. E ganhou etiqueta de certificação para o bem ou mal. Os detratores, fantasiados de “gente de bem”, seduzem, em instantes, multidões com o discurso moralista, único argumento que detêm, via redes. E como a multidão não pensa, os estragos são grandes. As universidades, vacinas e imigrantes foram jogados na fogueira. Jamais entenderei o que faz pessoas inteligentes escolherem cafajestes explícitos para cargos políticos.

Enquanto no Brasil, a “Academia Brasileira de Ciências” e a “Sociedade Brasileira para o Progresso das Ciências” se unem denunciando que o contingenciamento do governo federal favorece o desmonte da universidade pública, nos Estados Unidos as grandes universidades, algumas delas mais antigas que o próprio EUA, mobilizam o mundo em sua defesa. E o fazem lembrando os serviços prestados à produção de conhecimento científico, essencial no desenvolvimento exponencial do país. Harvard é o alvo. O fanatismo religioso e conservador está por trás dos exemplos. E sem arte e ciência, a humanidade jamais teria chegado até onde já chegamos.

Vivemos uma época precária, em que o horizonte virou ameaça e a sorte uma amante fugaz. A extrema direita está cavando nossa extinção. Para ter poder não vai poupar ninguém. Agirá como a máfia. Contrata um pistoleiro para eliminar um inimigo e, para limpar rastros, contrata outro para matá-lo. A saída de Elon Musk do governo Trump é metaforicamente idêntica. Não gosto dele, mas não posso ignorar que sua saída foi marcada pela covardia. Insatisfeito com os rumos econômicos ditados pelo presidente, reagiu ao tarifaço. Decidiu, então, sair. Foi exposto mundialmente como viciado em drogas, incapaz de controlar-se. Os jornais publicaram. Coisa de serviço secreto e veículos amigos. Vai ter guerra entre eles.

Há uma rede mundial a serviço da direita e da extrema direita. Sua missão é trazer o cotidiano para mais perto do que tínhamos nas eras medieval, colonial, caças às bruxas ou faroeste. O nazismo é um desejo intrínseco, mas foi tão repugnante que ainda não atrai tanto. A tentativa de impor sanções à corte maior do Brasil, o STF, é uma dessas viagens sem juízo. Os EUA hoje são o centro nazista do mundo. Produz caos, medidas punitivas e cortinas de fumaça. É preciso senso crítico para entender o momento. Pensar é compor oposições. Não podemos negligenciar a razão. A morte é madrasta. É burrice ignorar.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 07.06.2025