sexta-feira, 25 de julho de 2025

crônicas

Nós já fomos vivos

Cláudio Pimentel

         Sorria para o mundo e o mundo sorrirá para você. A máxima é supimpa, mas caiu de maduro. O tempo comeu com jiló. Agora, se retribuído, o sorriso virá amargo. Ou repetirá Godot. Siga em frente. Eu perdi a fé. E a culpa é do Caetano. Peguei ele contrito, cantando “Asa Branca” na TV. Os versos doíam. Apenas a voz, o violão e seu rosto. Cativou quando arrulhou: “por falta d’água, perdi meu gado; morreu de sede meu alazão” – tudo num soluço só. Morrer de sede é o auge do desprezo. É a tortura silenciosa. A desintegração do corpo. Um pôr do sol maldito. Faz quem tem defeito na alma.

         O que não falta nas imagens que inundam as TVs é palestino morrendo de sede. São mortes indignas, como a do “alazão” de Luís Gonzaga, que viu e chorou no sertão seco. Em Gaza, não é assim. As pessoas não estão morrendo de sede por falta d’água, mas por excesso de ódio. A água é negada para oprimir, chantagear e humilhar. Dói saber que bebês e crianças pequenas morrem porque não lhes dão água. E nem comida. Seus corpinhos vão secando até sucumbirem. Quem promove este circo do horror? Gaza é hoje o epicentro da “banalidade do mal”, definição da filósofa Hannah Arendt, ao final da Segunda Guerra, para explicar a tragédia sofrida pelos judeus, na Alemanha. Ela era judia.

         A “banalidade do mal” se dá quando, pessoas comuns, fazendo coisas comuns e vivendo suas vidas comuns, “impulsionam o movimento das engrenagens do horror na sociedade sem perceber”. Nós ocidentais estamos fazendo o mesmo. Negamos a morte, buscamos a longevidade, mas assistimos diariamente o assassinato de dezenas de palestinos e reagimos como se estivéssemos, não diante da TV, mas diante de um videogame, onde matamos sem piedade. Perdemos a empatia. Aceitamos a realidade “fake” da imprensa de que tudo está sob controle, e perdemos o sentido da catástrofe que Gaza tomou, do massacre de pessoas que se instalou. Nos anestesiamos.

Estas distorções são resultado da correria mundial rumo às melhores posições no futuro mapa geopolítico. Todos querem um lugar ao sol, mas os extremismos tornaram-se obstáculos: ideológicos, religiosos, econômicos, tribais, étnicos... O mundo se dividiu em dois. Não há moderação. O debate é entre certos e errados, mocinhos e bandidos, amigos e inimigos. E ninguém sabe quem é um ou quem é o outro. Acaba em porrada. As guerras já se antecipam. O Brasil corre sérios riscos de ser submetido a um novo golpe de estado, desta vez comandado por Trump. É grave a decisão dele em taxar em 50 por cento as exportações brasileiras tendo como condição para retirá-las, a absolvição do ex-presidente que tentou rasgar a Constituição do país. É de matar de sede.

         Trump repete o que vários presidentes norte-americanos já fizeram: quer a América Latina como o quintal de Washington. Apesar do ultimado dele ter caído mal no país, os poderosos e traidores já se enrolaram na bandeira norte-americana. E vêm sempre pelo latifúndio. Pelo atraso. O tom dos próximos passos pode ser: fechar o Judiciário, destituir o Executivo, cassar parlamentares e entronizar Bolsonaro. A Sétima Frota dos Estados Unidos seria deslocada para o Rio. E Lula e Moraes não seriam mortos mais. Apenas presos. Seria inédito. Mas Trump pode tudo. Até voltar atrás. A suspeita de pedofilia, porém, o emparedou.

Um sinal: quando vi o enorme painel com o nome Trump ser exibido pela extrema-direita na Câmara, pensei: esta deveria ser a foto de todas as primeiras páginas dos jornais de quarta. Errei. A Santíssima Trindade da Imprensa Brasileira, “Folha”, “Estadão” e “O Globo”, ignorou a foto. Uma pena. Parabéns para “Zero Hora” (RS) e “O Tempo” (MG), que deram. Até então nenhum exemplo tão explícito de entreguismo havia surgido entre nós. Resta, agora, saber quem pagou o painel, vossas excelências do PL ou nós contribuintes. Tentar golpe com dinheiro do erário é sacanagem. Nós já fomos vivos,

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 25.07.2025

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