A página em branco
Cláudio Pimentel
O italiano Ennio Morricone (1928 – 2020) produziu mais de 500 composições para cinema e televisão, além de obras clássicas. Por mais de 60 anos, fascinou com magia e ternura milhares de pessoas de todas as idades, fãs ou não, com suas impactantes trilhas sonoras. Muitas delas fizeram filmes que tornaram-se sucessos estupendos. Nasciam quase que num estalar de dedos. E com brilhantismo incomum. Fácil? Não! Havia uma barreira: a página em branco da partitura. Foi o que revela no documentário “Ennio: Il maestro” (2021), dirigido pelo conterrâneo Giuseppe Tornatore, diretor de “Cinema Paradiso” (1988), que tem, para mim, a melhor trilha que ele fez. O filme está no Prime Video.
Quem diria! Pensei que o mal da página em branco existisse apenas para escritores. Dizem que Hemingway escrevia em pé para mostrar às páginas que ele estava ali e não daria tréguas. Assim que preenchia uma, deixava flutuar até cair no chão ao seu lado. Não as reescreveria mais. As outras, amassava e jogava longe. Meu amigo Chico Viana, colocava o papel na máquina e ficava folheando livros de poesia, filosofia e coisas que provocam a criatividade. O escritor Origines Lessa sentava-se diante da folha de papel e, com caneta ou lápis, aguardava na mente a fagulha inicial. Eu dou um título. Sem isso, não saio do lugar.
O nado nostálgico tem um motivo: o ser humano está correndo perigo. E não é com as guerras. Estas já começaram e provocações para que outras entrem em ação já são anunciadas diariamente. A ameaça agora é o desaparelhamento de toda produção intelectual do mundo. E isso será possível com a extinção de várias profissões, num tempo ainda não previsto, mas que dá para chutar entre 20 e 50 anos. Será uma lavagem cerebral sem vassouras ou poções.
Um estudo da Microsoft apontou que as profissões que dependem da linguagem, da produção de conteúdo, das áreas de computação, da matemática, da comunicação ou das tarefas repetitivas ligadas a informações têm maior probabilidade de serem impactadas pela linguagem de inteligência artificial (IA). Impactada aí é um neologismo. Elas serão extintas ou, então, se tornarão produtos do submundo, como em “Matrix”. Talvez subversivas.
Mais de 200 mil conversas anônimas de usuários com o “Copilot”, assistente de IA da Microsoft, foram analisadas no ambiente dos Estados Unidos. A ideia era identificar as tarefas mais solicitadas à tecnologia, avaliar o desempenho da IA nessas atividades e medir qual é a parcela do trabalho realizada com sua ajuda. Como resultado foi obtido que as profissões com maior índice de aplicabilidade da IA, ou seja, que melhor poderão ser substituídas por ela são: historiadores, redatores e autores, locutores e radialistas, cientistas políticos, repórteres e jornalistas, redatores técnicos, revisores e editores de texto, editores, professores universitários, especialistas em relações públicas, agentes de publicidade, professores de economia, geógrafos e professores de biblioteconomia.
Estão todas no mesmo Titanic: as profissões que atuam na produção de conhecimento e as profissões que atuam na produção de conteúdo. Em outras palavras, os dois principais segmentos do mundo deixam de existir, pelo menos com humanos trabalhando. O primeiro ensina a conhecer, entender e corrigir o mundo; e o segundo informa, explica e vigia a ação das instituições públicas e privadas. É assustador um ambiente estéril de ideias.
O mundo não terá mais ideologias, utopias, sonhos, esperanças, empatia. Não terá mais credibilidade. O IA não pensa. É apenas um papagaio do futuro. Um instrumento dócil à correção, à reeducação. Se a direita hoje dá provas de que pretende varrer a democracia do planeta, imagine quando professores e jornalistas não existirem mais. Como será? Uma autocracia, que poderá ser “Trumpista”, “Vladimirista”, Xijinguista ou do ditador poderoso da vez, que poderá ser até um árabe, destes que mandam na Premier League Britânica. Adeus criadores como Ennio Morricone. As páginas brancas não precisarão mais de notas musicais, prosas e poesias. Os dez mandamentos bastam.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 08.08.2025
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