Um título para recordar
Cláudio Pimentel
Pretendia passar batido pela livraria e nem entrar, em protesto aos preços do livro - mais caros que picanha -, quando meus olhos viram, no rodapé da estante, um casto e singelo título: “Escola de Contos Eróticos para Viúvas”. Estaquei. Que loucura, São Pedro! Já estão aposentando o padroeiro? Pensei em comprar, mas desisti, apesar do preço sedutor: vinte paus. Não era para mim. Aí, aquela vozinha da consciência apareceu: “Por que você é intelectual?” Fiquei rubro. “Só os clássicos merecem leitura?” Ah, Santo Antônio, compro ou não!?
Um turbilhão tomou minha mente. A curiosidade já deixava meu desejo nu, mas refleti: Por que comprar? Por que vivo de escrever? Mas esse título? Foi o que te atraiu. É apelativo ou sui generis. Escolha um. Lembrei-me da quantidade de livros que me esperam em casa... E já ia embora quando a vozinha voltou: “Bobagem, a leitura ensina o que fazer e o que não fazer. Leia.” Ainda pensei: e se a atendente, imaginando um velho assanhado, perguntar: é para presente e eu reajo? Sim, para a sua mãe. Levei o livro sem um pio.
O romance “Escola de Contos Eróticos para Viúvas” é o terceiro livro da escritora anglo indiana Balli Kaur Jaswal. O enredo situa-se em um bairro de maioria indiana, na periferia de Londres, onde mistura-se os idiomas inglês e punjabi. Logo de saída deu para perceber que o livro não tinha como objetivo oferecer técnicas específicas de escrita erótica. Isto é um detalhe do enredo. Porém, adoro livros que tratam do assunto escrita literária. Muitos escritores ou estudiosos de literatura fazem isso.
Lembro de feras como Vargas Llosa, em “Cartas a um jovem escritor” (2007) e Stephen King, em “Sobre a Escrita” (2015), contando como são feitos seus livros de suspense. Têm também o Frei Betto, em “Ofício de Escrever” (2017), no qual explica seu processo de escrita inspirado em Shakespeare, e Cervantes, Doc Comparato, em “Da criação ao Roteiro” (1995) e o incomparável Schopenhauer e “A arte de escrever” (2005). E ainda Milan Kundera e “A arte do romance” (2016), Roland Barthes, em “O grau zero da escrita” (2000) e Ray Bradbury e seu “O zen e a arte da escrita” (2011).
O livro das “viúvas” não tem a pretensão de ensinar literatura ou sugerir estilos linguísticos. Nem precisa. O enredo é um aprendizado contínuo de vida. De mulheres que acordam do seu papel de inferioridade e reivindicam cidadania e liberdade. É o aprendizado de mulheres em busca de independência, do seu lugar na sociedade e se rebelam à tradição das comunidades sikh, indiana e inglesa. Mulheres que desafiam a cultura patriarcal e encontram no amor, no erotismo e no misterioso o caminho para o empoderamento. Tudo a partir de uma escola de aprendizado. Tem tudo para virar filme.
Já li e ouvi mais de mil vezes a máxima de que um livro não se julga pela capa. É preciso conhecer seu conteúdo. Aliás, está mais claro do que nunca que agora, no século XXI, nada deve ser julgado pela capa. É só ler nos jornais, assistir nos canais de TV e na convivência do cotidiano para perceber que todas as capas escondem o conteúdo. E poucos de nós fazem questão de conferi-los. Estamos rodeados de lideranças que preferem criar desertos para chamá-los de seus reinos. Há oito meses o planeta, como conhecemos, está sendo destruído cruelmente por marretadas yankees.
As leis mundiais parecem revogadas. E tudo emana do grão vizir Trump. Os povos “estorvos” começam a ser eliminados. Escolhidos, os palestinos abrem o desfile da própria extinção. Em breve, teremos outro. Seria o Brasil? Urgente é classificar o Antifa como organização terrorista. Um movimento pacifista que existe desde o final da Segunda Guerra, quando os Aliados derrotaram os alemães nazistas e os italianos fascistas. O mundo está de ponta cabeça. E o Brasil colado. O Congresso só pensa em golpe. Quer virar livro: Escola de contos eróticos para velhacos. Uau!
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 19.09.2025
Nenhum comentário:
Postar um comentário