Guerras patéticas
Cláudio Pimentel
Atribuem ao cientista Albert Einstein, criador da teoria da relatividade, o seguinte comentário: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com paus e pedras”. Isto me lembra o longo início do filme “2001 - Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick, quando hordas de símios disputam, com paus e pedras, o domínio de uma “poça d’água”. Estavam sedentos. A diferença é que agora, após um possível espirro nuclear, ao invés de macacos, seríamos nós, ali, brigando pela lama rala e escura daquele buraco. Kubrick não estava retratando o passado, mas o futuro. A ironia é a cara dele.
O que Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, Israel e Irã estão promovendo, atravessando mísseis e drones de um lado para o outro, matando civis e militares sob o olhar complacente da Europa, é um ensaio espetacular da Terceira Guerra Mundial, cujo final jamais veremos. Não tenho dúvidas. Sinto-me mal. Os últimos bombardeios reforçam a sensação. O festival de mentiras e contrainformações também. A covardia dos poderosos assombra. A imprensa bate cabeça a maior parte do tempo. É ludibriada sem ressentimento algum. O uso de bombas com 17 toneladas cada, despejados por um avião “fantasma”, lembrou o massacre de Hiroshima e Nagasaki. Que horror!
A guerra é filha da intolerância e, como tal, vai destruindo o tecido social, seja das nações, ainda não envolvidas, que assistem às escaramuças pelos telejornais, seja de algozes e vítimas. Entre todos, o ódio, que é o maior efeito colateral que poderia haver, alimenta a vingança. E o sentimento se alastra porque nenhum motivo explica a guerra. Nenhum motivo explica a aniquilação de crianças, mulheres e idosos, suas moradias e locais como abrigos e hospitais. A guerra nos deixa tateando no escuro. É permitir que cordeiros nadam com tubarões. É entender que no mundo dos negócios, o único negócio bem explorado é você. Afinal, guerra é negócio.
Os negócios em períodos de guerras não deixam de ser cruéis nem com os cruéis amigos que frequentam a corte. Os 32 países membros da Otan, na Europa, já receberam a conta dos combates. Todos devem se comprometer em aumentar em cinco porcento do PIB o investimento em defesa. A Espanha reagiu, considerando a despesa um desperdício. Trump condenou a recusa e ameaçou cobrar o país em dobro. É papel dele exigir que pague? Ele é presidente do mundo ou dos Estados Unidos? Os norte-americanos, aliás, passam pelas mesmas agruras que Alemanha passava antes da Segunda Guerra: voltar a ser o maior. E ainda tem a sofrência do Brasil e seu inepto, perdulário e concupiscente Congresso. Vai cortar na carne.
O clima me convida a voltar no tempo, à década que nasci, anos 1960, e perguntar às pessoas da geração anterior à minha o porquê de estarem alimentando essas guerras? Vocês estavam onde quando Kennedy foi morto? O que faziam quando o Muro de Berlim veio abaixo? Como entenderam os ataques ao World Trade Center? Estamos presenciando agora um daqueles momentos definidores da experiência e da emoção globais, compartilhados pela televisão. Será que vocês líderes, seus assessores, estudiosos, conselheiros e analistas não aprenderam nada?
São fatos que mudaram os rumos da história. Que raio de gente, foi este, que elegemos aqui, ali e acolá? O que aprenderam? Pelo jeito, nada! Vocês não têm desculpas. Estão permitindo que o mundo, na aurora da inteligência artificial, na magia da exploração do espaço sideral e no entendimento e uso democrático da internet, passe por um retrocesso de mais de 80 anos e volte ao desespero dos dias que antecederam a Segunda Guerra, como se fossemos os símios do filme de Kubrick. Ora, com licença: vão lamber sabão no Inferno; e peguem seus banquinhos e saiam de mansinho. Estão no lugar errado.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 27.06.2025
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