sexta-feira, 5 de setembro de 2025

crônicas

Xucros e transtornados

Cláudio Pimentel

         O cotidiano, estejamos atentos ou distraídos, brinca com a nossa memória. Um simples nome no bolso do jaleco médico pode abrir um corredor de reminiscências, uma caverna de fantasmas esquecidos pelo tempo ou desprezados pela cobiça. Boas ou ruins, distantes ou não, elas sempre voltam autênticas como água de coco fresquinha. Dias desses, em busca de soluções para as fragilidades etéreas da alma, deparei-me com algo que vivi na passagem da infância para a adolescência, conhecer alguém com o nome Vladimir.

         Era o nosso primeiro ano no Ginásio, em São Paulo, no início dos anos 1970, e o nome se destacou pelo ineditismo e pela sonoridade que, àquela altura, nos dava apenas versões rústicas, do tipo Valdemir ou Valdomiro. E mais, era envergado por um menino loiro, cabelos compridos como um “Beatles” ou como “David Cassidy”, da “Família Dó, Ré, Mi”, disse Cristina, a mais bonita das meninas que ia conosco para a escola. Foi sua observação o que mais doeu. Ela o viu como um astro. E todas as outras concordaram. Para nós, não sobrou nada. Ah, ele tocava violão. E nós jogávamos bola.

         Só muito mais tarde, já no pré-vestibular, ouvi novamente o sonoro Vladimir, que vinha acompanhado de outros nomes tão sonoros quanto inéditos: “Vladimir Ilyich Ulyanov, pseudônimo Lenin”, principal líder da Revolução Russa, de 1917. Lembrei-me do “David Cassidy” de Cristina. O menino loiro carregava o nome de dois deuses: um do Rock e outro da Política. Fiquei em paz. Entendi tudo. Numa época em que não se ouvia o nome “Vladimir” facilmente, eu pelo menos conheci um. Sua trajetória desconheço, mas aposto que seu nome foi uma homenagem dos pais.

Depois conheci um Vladimir, no trabalho, já na Bahia, o qual hoje conduz sua vida com sabedoria e inteligência. Eram os únicos até encontrar outro recentemente: o Vladimir do jaleco médico. Este com o nome quase todo original. O nome de Lenin, quando dado a um filho, traz uma carga emocional imensa. Para a minha geração e as gerações anteriores a ela, que cresceram ouvindo os grandes feitos de Lenin, a revolução era única maneira de melhorar as condições de um Brasil pobre, atrasado e com gente morrendo de fome nas ruas

Lenin foi um professor de Filosofia, na Alemanha, que conseguiu unir as correntes russas contrárias ao violento Império dos Romanov e fazer a revolução marxista. São poucos os nomes “Vladimir” no Brasil, se compararmos à grande quantidade de nomes como Antônio, João, Paulo, José, Fernando, Luís, Carlos... Assim como também são poucos os nomes “Robespierre”, “Danton” e “San Just”, líderes da Revolução Francesa, que até hoje se mantém como o de maior símbolo de liberdade, democracia e igualdade no mundo ocidental. Nem tudo, porém, é perfeito.

E hoje, infelizmente, há forças adversas explorando erros passados contra a democracia, cujo antônimo é fascismo. Ele, aos poucos, vai voltando com suas teses e estratégias de solapar leis, fechar tribunais, calar imprensa, perseguir minorias, submeter trabalhadores, controlar religiões e tornar aparatos de segurança em forças pretorianas a serviço da proteção de seus líderes. Tudo está sendo trazido pelo movimento global que a direita e a extrema-direita fazem no planeta. Países como os Estados Unidos, de Trump, e o Brasil, com Bolsonaro e família, são as principais vítimas.

Há em uma passagem do livro “A sombra de Heidegger” (2005), de José Pablo Feinmann, da Editora Planeta, que demonstra o caos por trás das ações fascistas e nazistas às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Acontecem, no período em que Martin Heidegger, considerado o último grande filósofo da história, assume a Reitoria da Universidade de Freiburg e começa a defender o nacional-socialismo de Hitler, alimentando inesperadamente a “aventura sanguinária de um bando de alemães xucros, brutais e transtornados”. É o que assistimos agora no Brasil. Os transtornados estão chegando.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 05.09.2025

Nenhum comentário:

Postar um comentário