O trabalho sujo
Cláudio Pimentel
Se eu tivesse a primazia de apontar um filme que simboliza a alucinação que tomou conta do planeta nos últimos cinco anos, “Os produtores”, lançado em 2005, cairia como luva, notadamente, pela ostentação e pelos abusos que rolam mais intensamente de janeiro para cá. Todas as medidas, de segurança a bons modos, de inteligência a elegância e de piedade a empatia, foram rompidas sem que uma voz sequer se levantasse para protestar ou alertar para os riscos em jogo: a vida.
O filme, dirigido por Susan Stroman e estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman, é uma comédia musical que nos faz rir. Odeio musicais, mas isso me seduziu - Thurman está belíssima! Um produtor quer dinheiro para montar a pior peça que encontrou, “Primavera para Hitler”, e dar um golpe nos financiadores. Tudo é feito para tornar o show um fracasso, não passando da estreia. O objetivo é embolsar a grana da temporada.
Mas, se na peça, o mais engraçado são os testes para escolher, entre lantejoulas e afetação, quem fará Hitler, o mesmo não ocorre agora. Os candidatos aptos a Hitler são de fazer chorar: Trump, Putin, Netanyahu, Khamenei, Xi Jinping e, de última hora, o chanceler alemão Friedrich Merz. Em um rompante de “sincericídio”, bradou para correligionários seu apoio a Israel, que está fazendo no Irã o “trabalho sujo” que é da Europa. Chamei Maysa: “Meu mundo caiu”.
Nas entrelinhas, Merz disse que as lideranças europeias integram uma choldra que defende o fim daqueles que não gostam ou os ameacem. Repete a ladainha da extrema direita de sempre ter um inimigo para acusar, odiar e destruir. O cafajestismo não por aí. E se apresenta de forma tão violenta, que deveria ser proibido para menores de 90 anos. Trump e Netanyahu, há dias, debatem ao vivo o assassinato do aiatolá Khamenei. Fazem como se opinassem o que é melhor para o Brasil: Vini Jr. ou Neymar?
O que falar da insegurança quando dois líderes políticos assumem a morte de outro líder, o do Irã, como se houvesse uma caça a jacarés. Parece o Comando Vermelho distribuindo a lista de assassinatos do dia. E o Trump se delicia em comentá-los em tom de fofoca. Em seu avião, chama os jornalistas e, por trás de uma portinha igual à do lavabo, diz: “eu sei onde Khamenei se esconde”; quero sua rendição já; se eu fosse ele, esvaziava Teerã. Trata o líder religioso como um ladrão de hóstias.
Trump usaria o mesmo tom para desqualificar o Papa? “Se eu fosse ele evacuava o Vaticano correndo”. E o Dalai, faria o mesmo? Disparates, com ou sem biquinho. Duvido que tratasse assim a pastora Paula White, de sua congregação, que promete o Inferno para quem não votar nele. A igreja católica já teve Papas líderes políticos ou militares. Júlio II, o Papa Terrível, que reinou de 1503 a 1513, foi um deles. Mecenas, fundou quase todos os Museus do Vaticano. Foi um governante poderoso em sua época. E teve a audácia de contratar Michelangelo para pintar o teto da capela Sistina.
“Agonia e êxtase” (1965), de Carol Reed, tendo Charlton Heston como Michelangelo e Rex Harrison como o Papa Júlio II, ilumina a grandeza do Renascimento. Não há nada que se assemelhe hoje. Temos apenas o poder dos grandes conglomerados financeiros, cujos donos, incógnitos, tentam impor seus escolhidos a Hitler. No Renascimento, a religião abraçava as artes e as ciências, hoje, a religião as rejeita, condena e persegue. A de Trump é uma delas. Por isso, Harvard é atacada. Desenvolver conhecimento é pecado.
No Brasil não é diferente. Sofre com a política do retrocesso. Criada para favorecer familiares e aliados do ex-presidente, a “Abin paralela”, revela a PF, estava espionando gente como ex-deputado Jean Wyllys e o humorista Gregório Duvivier, dois perigosos defensores da diversidade de gêneros e do humor de raiz, que não usa chapa branca. Além deles, eram monitorados os jornalistas Vera Magalhães, Luiza Alves Bandeira, Pedro Batista, Reinaldo Azevedo e Alice Martins Maciel. É mole? Quanta estupidez.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 20.06.2025
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