Furo no céu
Cláudio Pimentel
Jamais fui fã do “Queen”, banda de Rock que explodiu nos anos 1970, e nem de suas músicas. A sonoridade massiva, retumbante e superficial, ao invés de me atrair, como faziam os Beatles, Zeppelin, Bowie, Stones, Sting e Hendrix, me repelia. Os amigos me cobravam explicações, mas sinceramente não sabia o porquê. Não sei até hoje. O Queen, aliás, não está sozinho na minha lista de exceções. Estão também Rod Stewart, Elvis Presley, Ramones, Alice Cooper, Jethro Tull e outros que nem vale a pena citar. O Pink Floyd, por exemplo, me faz bipolar: tem semestre que gosto e tem semestre que não. Gostos são complexos.
Mas algo mudou recentemente, em relação ao Queen, depois que vi pela segunda vez o filme “Bohemian Rhapsody”, biografia musical que retrata a turbulenta carreira de Freddie Mercury, seus conflitos exteriores e interiores e os efeitos que causaram. Há um instante, quando está literalmente no fundo do poço, tentando ascender, em que quebra a rejeição que eu ainda mantinha contra ele, o artista. É ao pedir humildemente desculpas aos companheiros pelo seu comportamento e tentar motivá-los com um slogan: “furo no céu”. Eles deveriam deixar as divergências de lado e retomar o plano de medir o sucesso da banda fazendo um furo no céu. Ascensão maior seria impossível.
Fazer um furo no céu é uma metáfora radical. São os deuses gregos chegando ao Olimpo sob o solo de guitarras. É mais que um Deus grego. É um Deus Rocker. Todos nós, quando jovens, ansiamos por isso. Sem exceção. Até eu, apesar de alquebrado e mais próximo do poço do que do Céu, ainda sonho... Cada um tem o seu céu para furar. No qual, a altura independe. Vamos quebrar a lógica de que a gente só trabalha, sobrevive e espera o tempo do nada, o tempo do vazio, o tempo da desesperança. Há um movimento subjacente que quer nos impor essa mentira. Bullshit! A maioria das histórias não começam e nem terminam onde deveriam. É o que Mercury nos diz. E é o que precisamos interiorizar.
O mundo está se dividindo em dois. Privilegiados no Norte e não privilegiados no Sul. A cortina que separa as duas dimensões, porém, fica diariamente mais transparente. A chantagem, a bravata e a mentira estão traçando as novas fronteiras sem qualquer remorso. Engenheiros com fuzis nas mãos trabalham noite e dia. Quanto mais se fala em união, mais reações surgem pela desunião. Os palestinos serão os primeiros expulsos de casa. Depois serão os Yanomamis e depois os Esquimós e assim por diante. Nenhum movimento ainda se escalou para demover estes cretinos. Punições e bravatas pipocam com intensidade. A loucura e a mentira se instalaram nas relações diplomáticas. A implosão está aí. Ninguém está seguro. Só os privilegiados.
No Brasil, os patetas que não se reconhecem e renegam o lugar de onde vieram preparam-se para assumir. Serão os capatazes do primeiro mundo. Usarão os bonés vermelhos do império, cujo grito de guerra é: “Make America Great Again” (Torne a América Grande Novamente). Que brasileiro é esse, traidor da Pátria Amada Brasil? Nem Judas, nem Cabo Anselmo, nem Calabar se queimariam tanto. Darth Vader tirou o capacete preto, calçou uma peruca laranja e virou Imperador do fim do mundo. A ordem da hora é mexer na receita da Coca Cola. Lembra-me “Bananas”, filme de Woody Allen, cujo ditador decretou para os homens o uso de cuecas vermelhas por cima da calça. Será a ordem de amanhã. Um charme. Combina com o boné!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 18.07.2025
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