sexta-feira, 4 de julho de 2025

crônicas

Desejo de matar

Cláudio Pimentel

    Conheci Charles Bronson (1921 – 2003) ali pela metade dos anos 1970, quando seu nome explodiu na mídia mundial depois de estrelar o filme “Desejo de matar” (1974). Aqui no Brasil não foi diferente: um grande sucesso do cinema. Mas quem morava no Rio ou, mais precisamente, na violenta Baixada Fluminense, como eu, via o ator como um herói a ser seguido e idolatrado. Não sei se foi nessa época que nasceu a expressão “bandido bom é bandido morto”, mas me lembro que a frase funcionava como mantra. E muita gente a incorporou ao “Pai Nosso”. A cabeça chata e o vasto bigode faziam do Bronson um quase brasileiro da Baixada.

Foi em uma destas madrugadas de foguetório e insônia que o fantasma do justiceiro surgiu na TV com o seu velho e ordinário “Desejo de Matar”, o primeiro, o original. E assisti mais uma vez, 40 anos depois: que porcaria! Mesmo assim, o filme nesse período teve 10 refilmagens, sendo cinco delas com o Charles no gatilho. Apesar dos números, o filme inexiste em livros ou revistas de cinema. Só achei fichas técnicas na Internet. Livros como “Filosofando no cinema”, de Ollivier Pourriol, “O psicanalista vai ao cinema”, Sérgio Telles, “Como ver um filme”, Ana Maria Bahiana, e “1001 Noites no cinema”, de Pauline Kael, ignoram o filme. Até o super catálogo “1001 filmes para ver antes de morrer” negou-lhe uma citação.

É um erro. “Desejo de matar” merecia uma análise. Não, talvez, pelo roteiro, que trata da vingança de um homem contra a morte de sua mulher por um bandido, mas para perguntar: Que raio de público é esse que dá plateia a um filme ruim que se repetiu, pelo menos duas vezes a cada dez anos, gerando fortunas aos seus produtores? Tive colegas na juventude que andavam armados, levando, além do revólver calibre 32, identificação com Bronson. Eu ria, com moderação, é claro. Aliás, os fluminenses adoram ondas. Antes, a moda era Kung Fu. Três fenômenos a estimularam: a violência endêmica, a dançante canção “Kung fu Fighting”, de Carl Douglas, e a série “Kung Fu”, com David Carradine (o gafanhoto), de 1972 a 75. Lembra?

Os fãs talvez se identificassem com o filme na esperança de que algum dia o Charles Bronson surgisse no horizonte do Rio nos defendendo, mas não foi assim. No período da ditadura, muitos justiceiros surgiram, mas executando “bandidos” errados, os que combatiam a ditadura. A “Scuderie Le Coq”, uma organização paramilitar criada por policiais no Rio de Janeiro em 1965, era assim, agia como o BOPE do Capitão Nascimento, de Wagner Moura: “Tropa de Elite, osso duro de roer, pega um, pega geral. E também vai pegar você”. Na terra das milícias, ninguém mais sabe quem é mocinho ou bandido. Em “Desejo de Matar”, o staff polícia/justiça se nega a prender o personagem de Charles Bronson. Os crimes caíram em Nova York. Que fosse, então, matar em outro lugar.

O mais provável é que a alma fascista do filme tenha desagradado os críticos. A mesma que alimenta o noticiário policial brasileiro, aquele do sangue, suor e lágrimas, que faz o entrevistado confirmar “com certeza” o desejo da punição divina. O que eles não sabem é que, para isso, o “além” precisa de voluntários, como Charles Bronson ou Capitão Nascimento, para apertar o gatilho. Em “Desejo para matar” a polícia não prende, a justiça não pune e ambos não dão segurança. É a mesma pegada do noticiário, que empurra os descontentes a rogar por Deus e pedir licença para fazer justiça com as próprias mãos. É por isso que hoje um grama de pó vale mais que uma vida.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 04.07.2025


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