O resfriado do Sinatra
Cláudio Pimentel
Antes aliteração do que alienação: segunda-feira, em segunda marcha, avança a segunda guerra de segunda-mão. Quem gostava de aliterações era Jack Kerouac (1922 – 1969), autor de “On the road” (1955), considerado a bíblia da geração “Beat” e de outras gerações nem tão beats assim. Eu, quando li, já estava para lá dos 30 e não vi muita coisa, apesar da sua importância para alguns dos meus ídolos como Bob Dylan, que fugiu de casa depois de lê-lo. Coppola, Wim Wenders, Tom Waits, Neil Young, Tom Wolfe e Hunter Thompson não seriam os mesmos sem o livro. E eu não seria nada sem este time que ele inspirou. Estou relendo. O filme “Na Estrada” (2012), de Walter Salles, me intimou. Está disponível à cabo.
Estou rascunhando um plano de viagem ao passado. Algo parecido ao que fez Kerouac, que botou o pé na estrada e seguiu o Sol até o Oeste mais distante em busca de algo. Seriam respostas? Sim. Entre ele e eu a diferença é a estrada. Seguirei as linhas e entrelinhas da história da liberdade no século XX. Quero entender o que ocorre hoje. Jack escreveu ao todo 20 livros de prosa e 18 de ensaios, cartas e poesias. Morreu de cirrose hepática, na Flórida, onde morava com a mãe e sua mulher, Stella. Um ermitão no sofá da sala, desiludido, amargo e simpático às teses da direita e extrema-direita. A mesma que agora tenta voltar e se firmar como liderança global.
A trajetória do século XXI teve seu início já pavimentado com um fenômeno extraordinário: a quebra de paradigmas sociais, culturais e políticos. As duas mais espetaculares foram a falência comunista, com a queda do Muro de Berlin, e a desmistificação liberal, com a grande crise financeira de 2007/2008. O dinheiro sumiu. E junto com ele o desejo de mudanças e de novas soluções. Não há mais tabus, utopias ou revoluções a fazer. Temas como sexualidade, liberdade, igualdade, feminismo, pobreza, fome, raça, aborto, tecnologia, vacinas, meio ambiente e religiões estão na ordem do dia. O que sobra? O fascismo e as guerras, que renascem como capim. Nada mais se cria, tudo se copia.
É o ambiente perfeito para a crônica brasileira voltar aos tempos áureos. Depois de 150 anos entretendo leitores de todas as idades e gêneros, ela apresenta invejável fôlego para se reinventar e se comunicar com o leitor. Seu poder de tratar todo assunto, mesmo sobre o que já foi dito mais de uma vez, e não parecer enfadonha, é uma dádiva. Haja leveza, graça, elegância, amor, humor e ironia. Sim, a ironia é sua rebeldia e sedução. Sua bala de prata. Quem melhor que uma crônica para apresentar nosso Congresso e seu esforço para aprovar uma PEC que impede que deputados sejam investigados por quaisquer crimes cometidos? Até o PCC e o CV vão entrar – sem trocadilho -, aos bandos na vida parlamentar.
Gay Talese, escritor norte-americano e um dos inventores do jornalismo literário, é aplaudido por uma crônica cujo título já diz tudo: “Frank Sinatra está resfriado”. A pauta deu trabalho, pois Frank, indignado com a imprensa que denunciava seu envolvimento com a máfia, não queria falar, e a desculpa era um resfriado que não cedia. Talese, então, começou a entrevistar pessoas que viviam ao redor dele: motoristas, garçons, músicos. Com o movimento, um assessor se ofereceu para levar o jornalista à casa dos pais dele. Lá, a mãe de Frank falou até da relação dele com Ava Gardner, sua mulher. Frank jamais falou com o jornalista, mas apareceu em alguns lugares, onde pessoas do seu convívio eram entrevistados. A crônica virou 100 páginas e saiu na “Esquire”. “Blue Eyes” adorou.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 29.08.2025
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