O elogio do cinismo
Cláudio Pimentel
Estar deveras preso a um mundo polarizado é ouvir, no mesmo dia, dois destinos diferentes para o futuro: que a mudança climática é uma invenção de esquerdistas para desacelerar as ricas economias europeias, como disse o presidente Donald Trump, na ONU; ou que o modelo econômico, político e social de convivência das grandes potências vai, segundo os cânones das ciências, destruir a Terra, como disse o líder indígena e escritor Ailton Krenak, na UFBA, depois de receber o título de doutor Honoris Causa. Qual deles está certo?
Foi a primeira vez que vi Krenak expor sua visão de mundo. Até então, conhecia apenas sua luta em prol dos povos originais, a militância em favor do meio ambiente e seu talento para tratar estes temas em livros, palestras ou em salas de aula. Krenak, aliás, é natural da região do Rio Doce, em Minas Gerais, a mesma que deu vida à Vale do Rio Doce, autora dos desastres ambientais de Mariana e Brumadinho, ambos de proporções semelhantes às de um armagedon. Ele nasceu em Itabirinha, em 1953.
O que me chamou atenção na sua fala foi o amor aos valores indígenas e a visão de seus antepassados em relação à Mãe Terra. A mãe que dá amor, que protege o filho e dá alimento, como qualquer mãe de qualquer mundo civilizado. A Terra precisa de seus filhos para não morrer é a mensagem que ele nos passa. Assim como adverte que a Terra não é mercadoria, em que se corta aos pedaços e pedacinhos para as mais diversas perversões financeiras.
O filósofo Krenak me lembrou o filósofo grego Diógenes (404 - 323 aC.). Tinha a estatura de um Sócrates e liderava a escola filosófica do “cinismo”. Tornou-se um estudioso, que pregava uma vida distante dos bens materiais, única forma para atingir a plenitude por meio do conhecimento. Diógenes foi o primeiro de um grupo de pensadores que se tornaram conhecidos como cínicos, termo extraído do grego “kynikos” que significa “parecido com cão”. Asseguravam que quanto maior o despojamento, mais próximo estariam de viver a vida ideal.
Um episódio interessante envolvendo Diógenes foi o encontro que teve com Alexandre, o Grande, que ouviu rumores de sua sapiência. Alexandre foi até ele e perguntou o que queria. Sem hesitar, Diógenes respondeu: “Senhor, apenas não tire de mim o que não pode me dar”. Isso aconteceu em 323 a.C., data da morte de Alexandre, a qual sinaliza como o final do domínio cultural e político da Grécia no mundo antigo. Aristóteles foi tutor e professor de Alexandre.
O cinismo de Diógenes e companheiros não existe mais. A palavra foi para outra dimensão. Perdeu as cores românticas e dramáticas do passado e, adaptada aos modos modernos, ganhou cores metálicas, como acidez, perspicácia, cortante e deboche. O objeto não é mais se despojar da riqueza, mas, sim, se despojar das convenções morais, sociais, culturais. O cínico de hoje não ensina, ele debocha do que você sabe. Despreza o que você defende ou crê. Impõe pontos de vista.
A direita e a extrema direita mundial se apoderaram do modelo que debocha e duvida da inteligência. Trump na ONU foi um exemplo disso. Nem Hitler seria tão assertivo. Trump estava se lixando se dizia mentira ou não. Cumpria um papel. Afirmou, com biquinhos, que a política de energia verde estava destruindo a riqueza europeia e desviando o continente da sua principal missão: conter a imigração.
O discurso fascista de Trump se superou em cinismo. Advertiu os europeus de estarem perdendo dinheiro com a economia de carbono. Disse que eles foram enganados. E os Estados Unidos não porque ele é esperto. Agora ganhavam muito dinheiro com combustíveis fósseis. Trump estava tão encantado com o carvão que ia queimar, que se expressou como se mastigasse um Donuts de sabor carvão. Bonito, macio e gostoso de apertar. O cinismo venceu. O tóxico, é claro.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 26.09.2025
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