sexta-feira, 15 de agosto de 2025

crônicas

O holofote do Batman

Cláudio Pimentel

Como faz falta o holofote do Batman nas mãos de pessoas sensatas, como eu. Estou convicto de que Trump é vítima de uma conspiração que enche o espírito de espinhos. Coisa braba mesmo. Pior que bode, cachaça e farofa nas encruzilhadas do Brasil, Ucrânia e Gaza, se é que ainda têm cruzamentos naquela terra quase santa. A Terra corre perigo como em “Sob o domínio do mal” (2004), filme de Jonathan Demme, que conta a história de um candidato à presidência dos Estados Unidos, sequestrado na guerra do Golfo e submetido a uma lavagem cerebral que o faz receber ordens de uma única pessoa. Quem seria?

Depois de ver Trump trocar a tarefa de presidente dos EUA pela antipática tarefa de interventor do planeta, meus sentidos acordaram: “Trump está possuído!” Será que tem o plano Axé Saúde e Vida? Em tempos de encruzilhadas congestionadas, sua apólice só não imuniza contra atendentes de telemarketing. São tão poderosos que o prefixo “0303”, que o identifica nas chamadas, foi retirado. “Ninguém atendia”, justificou a Anatel para o retrocesso. Mas não era essa a ideia, avisar o cliente, que optava em atender ou não? Voltemos à farsa: Trump obedece a alguém, como no filme? Seria Eduardo Bolsonaro? Talvez. A estocada em Tarcísio de Freitas, cuja PM mata mais que a peste, segundo relatório dos EUA sobre direitos humanos, foi ódio puro. Gol do Bananinha.

Mas em sendo Trump, há controvérsias. O bicho é tinhoso. Se a cabeça vai mal, a culpa é do shampoo, mas aposto em ego atrofiado. Suas estrepolias não passam de fisioterapia estimulada 24 horas por dia. Se houvesse “viagra” para inflar ego, já teria engolido uma fábrica. Ninguém pode aparecer, só ele. Deve passar horas no espelho repetindo o mantra: “espelho, espelho meu, existe alguém mais midiático do que eu?” Se der maçãs a Putin no Alasca, será caixão e vela. Melhor lugar impossível. Os russos veneram a morte sobre uma laje de gelo. A mais bonita está em “O Exército de Cavalaria”, livro de Isaac Bábel. Putin não é trouxa. A briguinha na Ucrânia já o tornou o segundo homem mais poderoso do mundo. Joga para ser o primeiro.

O Brasil, coitado, está catatônico. Jamais imaginou que o país guardasse tantos vendilhões ávidos em entregar tudo ao interventor Trump. Pesquisas mostram nas entrelinhas que o eleitorado de Bolsonaro concorda com as medidas de Trump, como tarifaço e lista negra para o ministro Moraes. Aplaudem a tentativa norte-americana de causar prejuízos a empresários, a trabalhadores e ao país. Judas! Uivam com a possibilidade de Trump estar criando o caos entre nós para justificar um golpe. Respeita nossa soberania.

Vislumbro a família unida, chicotes às mãos, deboche nas têmporas e nariz levantado conduzindo o ministro amordaçado para um avião de carga rumo aos EUA. Palmas na plateia que ora, ora e ora. Água ungida é despejada aos magotes. O movimento lembra um auto da fé, puxado por milicianos portando fuzis de todos os tamanhos. Demônios são expulsos de corpos rotos ao longo da caminhada por enérgicos pastores de gravatas, os vendedores da fé. Na cobertura, um show de imagens da imprensa de extrema direita e seus comentaristas de papel, de conexões mortas, Fake News, Fake News e Fake News.

Há 40 anos, este artigo seria apenas mais um trabalho escolar tentando traduzir as nuanças da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade e dirigida por Zé Celso Martinez em seu Teatro Oficina. Um trabalho em busca de metáforas, da festejada criatividade do tropicalismo e da inspiradora semana que jamais terminou: a Semana de Arte Moderna de 1922. Um terremoto na conservadora São Paulo, do início do século XX, que deu régua e compasso a um novo Brasil, evoluído, progressista, defensor das Artes e das Ciências. E não essa mixórdia a que assistimos. Só mesmo o Batman e seu holograma na noite dos céus para nos salvar. Ícone da cultura pop, símbolo da contracultura. Trump é o mal dentro e fora dos quadrinhos. Batman venceu todos eles. Eu já teria acendido o holofote.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 15.08.2025

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