sexta-feira, 13 de junho de 2025

crônicas

Confraria dos Pinóquios

Cláudio Pimentel

A mentira é um mal que está desafiando a humanidade. Nasceram juntos e jamais se separaram. No início, quando o mundo não era este mamute complexo, que é hoje, causou estragos: alguns corações partidos, reputações manchadas e desavenças estapafúrdias. Hoje carrega potencial nuclear graças às redes sociais, que mostraram o caminho. Se intencional ou acidental, não se sabe. Virou pandemia. A vacina para contê-la está longe. E poucas são as esperanças de um dia vingar. Ela está no ar que respiramos e em cada tela que foquemos o olhar. É onisciente. E, como o camaleão, camufla-se nas peles de verdade, cinismo, ironia, engano, ilusão. É como o Diabo gosta: está em todo lugar.

         Mentira é mentira. Carece de sinônimos claros. E não brota no jardim e nem cai do céu. O verbo mentir exige um sujeito. Precisa dele para lhe dar vida, o qual pode ser eu, você, qualquer um. Quem mente tem consciência de que mente. Ninguém mente por distração, como sugere a canção “Da cor brasileira”, de Bethânia, que faz poesia: “Enquanto o que mente é o que acreditou”. Mente-se por querer mesmo. A mentira tem sempre uma intenção, que nunca é boa. Ela tende a beneficiar o mentiroso e prejudicar o inocente que acreditou. Do âmbito familiar ao social, todas as mentiras são danosas. Machucam quando descobertas. O que seria do estelionatário se não houvesse a mentira? E dos políticos?

         Todo mentiroso é um “cara de pau”, seja profissional ou amador. Não sei se a referência à madeira, no apelido, tem relação com a fábula de Pinóquio, boneco de madeira, cujo nariz crescia depois que contasse uma mentira. O conto foi escrito pelo italiano Carlo Collodi, em 1883, como metáfora à importância de ser honesto e bom. Adaptado para o cinema pelos Estúdios Disney, tornou-se um dos contos mais conhecidos do mundo, para a tristeza de quem tem nariz grande. E não para quem mente. Estes continuam incólumes, mesmo com a gigantesca avalanche de mentiras, mais conhecidas como Fake News, que inundam as redes sociais.

         Jornalistas, acadêmicos, educadores, instituições públicas e privadas entraram em estado de alerta, mas, a cada instante, o dilúvio de desinformação é mais intenso, tornando a compreensão do que ocorre como algo árido, cansativo e desestimulante. O resultado é a proliferação de pessoas desinformadas e aptas a se engajarem nas mais esdrúxulas missões, como sabotar vacinas, defender ditaduras, estimular a violência contra vulneráveis, como moradores de ruas, e apologia à compra e uso de armas. Qualquer uma dessas missões possui gente preparada para atrair simpatizantes e colaboradores. O alvo maior é a democracia. É um movimento mundial

         Não é à toa que Putin, da Rússia, iniciou a semana avisando que pensa em utilizar armas nucleares na Ucrânia. Fake News. Quem vai usá-las, não avisa. O planeta sofre com as bravatas. Veja, o novo rompante do déspota Trump, dos EUA. Ignorou as leis, o governador e a população da Califórnia para invadir Los Angeles, com o apoio da Guarda Nacional e dos Marines, para sufocar manifestação que usava pedras contra a extradição de pessoas. Motivo: devolver aos países da América Central todos os ladrões e assassinos que enviaram aos EUA. Ou seja, outra Fake News.

         Ou, então, olhar para o Brasil, e ver um repaginado ex-presidente, falante, jovial e educado, informando sobre a tentativa de golpe no país. Nega tudo, mas confirma reuniões com as Forças Armadas, análises da minuta do Golpe, concluindo que não havia clima para ir adiante. Pirou? Chamou o pessoal dos acampamentos e das depredações de malucos. Parecia um cavalheiro. Não foi hostil com Morais e pediu desculpas por algumas malcriações. Só vacilou quando disse “Seu Ministro”. Todo “seu” é Zé. Ministro Seu Zé. Não perdeu a pegada! Tudo ficção. Tudo plástico. Tudo Fake News. O trio de Pinóquios bombou.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 13.06.2025

Nenhum comentário:

Postar um comentário