sexta-feira, 1 de agosto de 2025

crônicas

A democracia está ferida de morte

Cláudio Pimentel

         Se nada for feito pelos norte-americanos, o legado que o presidente Trump deixará à história já está escrito: o fim da democracia nos EUA. Serão 200 anos jogados no lixo. De um período em que promoveu riquezas, crescimento social e avanço tecnológico jamais vistos. E o fez respeitando a vontade popular, a preservação da liberdade e a igualdade de direitos. Nunca houve nada igual. A democracia foi o pilar que elevou o país à condição de maior potência do século XX. Mas, miseravelmente, agora assistimos o seu desmonte, orquestrado a bravatas por um insubmisso maestro de fancaria, que impõe terrível metamorfose ao país, que deixa a democracia vitoriosa de lado e assume a máscara de uma democracia delinquente.

         Depois da Segunda Guerra outros países que adotaram o regime democrático, como Alemanha e Japão, trilharam o mesmo caminho, o do crescimento econômico e da estabilidade social. E o fenômeno não termina por aí. O Brasil também. Logo após o fim da ditadura de 1964, em 1986, e a promulgação da Constituição de 1988, o país começou a sonhar com a possibilidade de se igualar às grandes nações democráticas do primeiro mundo. Não foi fácil. Trilhou caminhos espinhosos, ameaças de retrocessos, mas avançou a patamares jamais alcançados. Ainda não é o ideal, mas são quase 30 anos de árdua construção, os quais não permitem mais erros e vacilos. O Brasil luta bravamente agora para manter sua democracia intocável.

         Mas o presidente Trump, assim como desrespeitosamente trata a Constituição norte-americana, decidiu também desrespeitar a nossa Constituição. E o faz se utilizando de golpes baixos, desprezíveis até como mentiras, ameaças e truculências, para diminuir o Brasil ao olhar do mundo e ao olhar dos próprios brasileiros, que não se deixam enganar. Responderam não, com bravura e patriotismo, às pesquisas que perguntam se Trump está correto com o tarifaço às exportações do país e às sanções ao Judiciário. A população se posicionou contra a tentativa de Donald em desestabilizar o país. Até segmentos da indústria e da lavoura, como o Agronegócio, que alimenta os políticos de extrema direita no país, se surpreenderam e baixaram a guarda.

         O processo é cercado de ironia. Os EUA estão investindo energia incomum para impedir que o ex-presidente brasileiro (2018 – 2022) seja condenado da tentativa de golpe de Estado em 2023, logo após à posse de Lula. O presidente, aliás, junto com seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STJ Alexandre Moraes seriam mortos, segundo planos encontrados pela Polícia Federal. Trump amarra as sanções feitas às exportações do Brasil à liberação do ex-presidente das acusações. Usa um caso de Polícia para subordinar o Brasil aos seus intentos, salvar um aliado político tão tonto quanto ele. Não há lei no mundo que sustente tal ordem.

         A ironia, porém, não termina aí. Em matéria de democracia, o Brasil dá exemplo de que está muito mais zeloso com a Constituição do que os EUA. Trump perdeu para Biden, em 2021, e tentou melar o resultado atacando o Capitólio com trumpistas, assim como o Congresso brasileiro foi atacado por bolsonaristas, em 2023. Lá em Washington houve até mortes. Se a Suprema Corte norte-americana fosse tão atenta e proativa quanto a do Brasil, Trump não estaria amedrontando o mundo hoje, mas preso, como deve ser o destino do ex-presidente brasileiro.

E é por isso que o Brasil está sob a ameaça de um Golpe de Estado de Trump. Mirar os ministros do STF é o primeiro passo de uma ação golpista. As sanções, mesmo tendo sido arrefecidas nas últimas horas, foram para quebrar o país. O governo corre para criar programas que atenuem os efeitos das medidas trumpistas, como falência de empresas e perda de milhares de empregos. Em suma, estamos reféns dos tentáculos de um tirano inconsequente e de uma família de entreguistas sem compostura alguma. A história cuidará deles.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 01.08.2025

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