Sinais do tempo
Cláudio Pimentel
Ao pé da letra a locução “sinais do tempo” lembra rugas, cabelos brancos e “frágeis” alterações no “shape” dos experientes. Minúcias que a maioria nega, apesar da sugestiva e milionária indústria de cremes, suplementos e estimulantes. Os “sinais”, porém, são de outra magnitude e envolvem o tempo em versões além do cronológico, meteorológico ou sideral. São aqueles que viajam de outras dimensões, como os tempos histórico, psicológico e sensitivo. À primeira vista são ininteligíveis, traiçoeiros e brincam com nossa pretensão. Abusam da sutileza, da magia e das metáforas, mas não mordem.
Eu tenho o hábito de usar, aqui neste espaço, outra locução, “ler o tempo”, para distinguir escolhas, decisões e ações de filósofos, políticos, artistas, enfim, todos aqueles que conseguiram num determinado ponto de sua época se impor ou mudar o rumo dos acontecimentos. Foram poucos os citados por mim, mas acredito existirem muitos mais. Por exemplo, até hoje não tive a chance, como agora, de dizer que Caetano Veloso leu o tempo com precisão ímpar ao reagir às vaias de um público conservador, em 1968, durante o Festival da Canção, enquanto cantava “É proibido proibir”.
Em resposta, ele, que iniciava a carreira artística, fez um discurso histórico, dizendo que a juventude estava “por fora”, que o júri era “incompetente”, pedindo que fosse desclassificado junto com Gilberto Gil. Ainda menino, franzino, desafiou o festival e calou a plateia, que não estava realmente entendendo nada. Era o auge da ditadura militar no Brasil e dos protestos estudantis em Paris contra a caretice. O mundo estava com os nervos à flor da pele. E Caetano, em um átimo, fortaleceu o Tropicalismo e virou voz poderosa no país, que era solapado pelos militares, pelos políticos vendilhões e pelos patrióticos da hora, todos pró Estados Unidos.
Nunca fui fiel à cronologia. Minha idade é a que sinto. Não a que tenho. Um dia estou com 20 anos, noutro, 90. E assim vou me virando. Há 30 não uso relógios. Nunca soube medir o tempo pelo calendário. Ou nunca quis. Desconheço que o tempo tenha relação com a linearidade numérica e acredito que é melhor analisar o tempo com outros olhos, tatos e sons, como fez a “linguista” Amy Adams em “A chegada” (2016), ficção científica de Denis Villeneuve. O filme conta a chegada de alienígenas ao planeta e a necessidade de comunicação com eles. Adams tinha como missão traduzi-los. E a linguagem deles não seguia um padrão de linearidade entre passado, presente e futuro.
Onde está a linearidade cronológica entre 1968, quando os EUA bancavam a ditadura aqui e agora, com as ameaças de Trump, em 2025? Na falta de memória? O que quer, para o Brasil, o ministro Fux, na enrolada explicação para justificar seu voto absolvendo o ex-presidente? Manter a ideia de que o Brasil é dos Estados Unidos? E Bolsonaro de réu virar rei? A direita e a extrema direita apoiam. Se os militares tivessem sido julgados ao fim da Ditadura Militar, como foram na Argentina e Chile, nada disso haveria.
Citar a Primeira Emenda da Constituição dos EUA, no STF, é um mico maior do que o bandeirão yankee no desfile de 7 de setembro. É vassalagem indigente. Faltou ler o tempo. Está juntando as peças que não deveriam ter sido separadas em 1986. O que esperar? Caos, tumulto, baderna? Talvez. A oratória que aviva o ódio está viva. Os vendilhões estão famintos. É só ligar a TV. Quem elogiar Fux, é um deles. Cármen salvou o mês. Viva as mulheres!
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 12.09.2025
Nenhum comentário:
Postar um comentário