Dramas, tramas e Brahmas
Cláudio Pimentel
O remédio dos miseráveis é a esperança, teria dito Shakespeare, para alegria de cronistas pouco inspirados, como estou. Não acredito, porém, que o Bardo sofresse do mesmo mal. Aliás, quem sou eu para supor que ele sofresse de alguma coisa, falta de esperança, inspiração ou casa cheia para seus dramas, suas tramas, suas Brahmas. Seus personagens, criados em profusão, falam por ele. E bem melhor. Apesar de fictícios, a essência que deixaram nos conquistou. O pândego Ambrose Bierce, por exemplo, autor do Dicionário do Diabo, tinha uma definição heterodoxa para esperança: “desejo e expectativa combinados num só”.
Deve ser esta, a ironia de Bierce, que os palestinos adotaram. A esperança é um desejo infértil que não se abre mão. Resultado: foram abandonados, tiveram as casas destruídas e morrem diariamente sob bombardeios, mas não saem de Gaza. E mesmo ao relento, sem comida e sem água, permanecem feitos destroços, tal e qual figurantes de sagas bíblicas, como as de Moisés e Jesus Cristo. O cenário parece até o do sertão nordestino. Se Glauber, vivo fosse, já teria filmado a barbárie, mostrando a saga do mundo lavando as mãos, como Pilatos. O palestino é um louco? Não. Alguém com fé extrema, única arma. O palestino é antes de tudo um forte, há que se reconhecer.
E a mão que lava é a mesma que atira pedras. É incrível a vocação, cada vez maior entre nós, de se apedrejar vizinhos, lideranças, instituições, universidades, agências humanitárias e governos democráticos. A hipocrisia virou vício de políticos. E ganhou etiqueta de certificação para o bem ou mal. Os detratores, fantasiados de “gente de bem”, seduzem, em instantes, multidões com o discurso moralista, único argumento que detêm, via redes. E como a multidão não pensa, os estragos são grandes. As universidades, vacinas e imigrantes foram jogados na fogueira. Jamais entenderei o que faz pessoas inteligentes escolherem cafajestes explícitos para cargos políticos.
Enquanto no Brasil, a “Academia Brasileira de Ciências” e a “Sociedade Brasileira para o Progresso das Ciências” se unem denunciando que o contingenciamento do governo federal favorece o desmonte da universidade pública, nos Estados Unidos as grandes universidades, algumas delas mais antigas que o próprio EUA, mobilizam o mundo em sua defesa. E o fazem lembrando os serviços prestados à produção de conhecimento científico, essencial no desenvolvimento exponencial do país. Harvard é o alvo. O fanatismo religioso e conservador está por trás dos exemplos. E sem arte e ciência, a humanidade jamais teria chegado até onde já chegamos.
Vivemos uma época precária, em que o horizonte virou ameaça e a sorte uma amante fugaz. A extrema direita está cavando nossa extinção. Para ter poder não vai poupar ninguém. Agirá como a máfia. Contrata um pistoleiro para eliminar um inimigo e, para limpar rastros, contrata outro para matá-lo. A saída de Elon Musk do governo Trump é metaforicamente idêntica. Não gosto dele, mas não posso ignorar que sua saída foi marcada pela covardia. Insatisfeito com os rumos econômicos ditados pelo presidente, reagiu ao tarifaço. Decidiu, então, sair. Foi exposto mundialmente como viciado em drogas, incapaz de controlar-se. Os jornais publicaram. Coisa de serviço secreto e veículos amigos. Vai ter guerra entre eles.
Há uma rede mundial a serviço da direita e da extrema direita. Sua missão é trazer o cotidiano para mais perto do que tínhamos nas eras medieval, colonial, caças às bruxas ou faroeste. O nazismo é um desejo intrínseco, mas foi tão repugnante que ainda não atrai tanto. A tentativa de impor sanções à corte maior do Brasil, o STF, é uma dessas viagens sem juízo. Os EUA hoje são o centro nazista do mundo. Produz caos, medidas punitivas e cortinas de fumaça. É preciso senso crítico para entender o momento. Pensar é compor oposições. Não podemos negligenciar a razão. A morte é madrasta. É burrice ignorar.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 07.06.2025
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