sexta-feira, 22 de agosto de 2025

crônicas

O golpe está no ar

Cláudio Pimentel

Se alguém me perguntar agora, às vésperas do fim do primeiro quarto do século XXI, o que faria para ampliar a visão de mundo da humanidade, eu responderia de chofre: “Instalava um Telescópio Hubble na principal praça de todas as capitais e principais cidades do planeta”. E não para ver o Cometa Halley ou novas galáxias, mas o comportamento das lideranças globais e o que deles são extraídos pela imprensa. Só, assim, com suas poderosas lentes, seria possível ver que a maioria mente que nem sente, como dizia um velho amigo da infância, quando a mãe prometia sorvete no jantar se entrasse logo porque já era tarde.

Há estudiosos que classificam tais mentiras como “mentiras estratégicas”, que têm pelo menos um “mínimo” de legitimidade. Alegam que algumas das facetas dessas mentiras teriam a intenção de não criar medos, mas tranquilidade à comunidade. Que soasse como um bem para todos. Forjar um clima de paz, que não há. Eu tenho minhas dúvidas. Líder que “mente” para o cidadão alimenta um clima de medo, de desonestidade. Alimenta reações negativas. A entrelinha tem língua comprida. Por mais “importante” que seja a estratégia por trás do que está sendo dito, há também a realidade, que não resiste a um confronto. O burburinho é inevitável.

 O que surpreende é que, se ouvirmos as teatrais falas do presidente Trump, muito do que diz, direcionado ao Brasil, convence uma parte do público e assusta a outra. Quem de sã consciência acredita que Bolsonaro é um homem sério, trabalhador, que se mostrou um firme negociador e é inocente de tentar um golpe contra o Brasil, como afirmou o presidente norte-americano ao justificar um tarifaço de 50 por cento em parte das exportações brasileiras? Há na fala uma série de inverdades. Só os eleitores dele não veem. Quem elegeu Lula vê. Aliás, Bolsonaro foi o primeiro presidente brasileiro a não se reeleger, mesmo tendo caneta e chave do cofre nas mãos. Seu governo foi ruim. O eleitor quis mudança.

O conflito criou pessoas que ampliaram a admiração por Trump e o desprezo por ele também. É um novo embate. Os EUA vestiram o Tio Sam e salpicam o país de novas teorias da conspiração. A de que o golpe que Bolsonaro e seus generais não deram, agora sairá do papel, que os navios americanos, que singram o Caribe, virão para o Brasil e que o avião “fantasma” que desceu em Porto Alegre trazia agentes da CIA especializados em sabotagens e guerrilhas. Clima que lembra o país entre 1964 a 1986. Eu vi uma bomba explodir no banheiro da faculdade em que estudei, em 1980, no Rio, e cobri outra, já como repórter, no banheiro da UCSAL, em 1984. Em ambas, a investigação apontou fogos de artifício.

O clima no Brasil está péssimo, sufocante, incompreensível. A tendência é piorar. Há um quê de secessão de autoria externa, que desfaz soberanias. Guerra é o que não precisamos. Nem agora, nem nunca. A grande imprensa acompanha com faro baixo e olhar turvo. Está dividida, espreitando. Basta ler os jornais ou assistir os telejornais. Não há mais o discurso único como na cobertura do impeachment de Dilma. O que há são notícias “espetaculares” onde faltam mocinhos e bandidos, mesmo que se amotinem no Congresso.

Aliás, o Congresso é o lugar onde a chama do golpe não se apagou. E é alimentada diariamente. Lá estão os porta-vozes dos timoneiros do golpe. Eles são discretos, mas assertivos quando abrem a boca ou operam afrontas. Para agirem assim, criaram um escudo formado pelos parlamentares de circo, do besteirol e do tipo pânico no rádio. Com ou sem os EUA, o golpe está no ar. E o judiciário já sentiu seu bafo. E se vira como pode. É o alvo escolhido para cair na primeira bomba. Expor os patrocinadores que deram início ao golpe pode ser xeque mate, só não se sabe para qual lado. Esta nem o Hubble é capaz de ver.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 22.08.2025

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