sexta-feira, 17 de abril de 2026

crônicas

O clima está pesado

Cláudio Pimentel

         Cruel é a palavra, mas cruel mesmo é o calor e a umidade que tomaram de assalto Salvador há algumas semanas. Logo cedo, já não sei dizer se estou em um cenário de “Anaconda”, na imensidão do Amazonas, num set chuvoso da “Guerra do Vietnã” ou, então, derretendo-me num “Banho Turco”, sugestionado que estou pelo salseiro que Estados Unidos, Irã e Israel fazem no Oriente Médio, onde antigamente todo mundo, aqui entre nós, era turco. Lembro-me até de, em São Paulo, comprar linhas e botões na loja do turco Levi, que era judeu, e açúcar e café no empório do turco Farid, que era árabe.

         A capital dos baianos, como “poetiza”, na TV, o apresentador das aflições inúteis, está irreconhecível. A esverdeada Itapuã lidera a mutação: desmancha-se como vela acesa. A infalível brisa geladinha, a partir do meio-dia, está sem ar. O símbolo do bairro, a Iemanjá prateada, que, do calçadão, abençoa a vida, sequer é respeitada. O desmatamento, os espigões, as moradias precárias e os barracos à beira das encostas aterrissaram como os moinhos de Cervantes. Qualquer ajuda do fidalgo Don Quixote à Rainha do Mar teria grande efeito.

Enquanto a ajuda não vem, assiste-se a periquitos e sariguês, por exemplo, invadindo casas em busca de abrigo e alimento. Itapuã está infestado. Os pobrezinhos não fazem mal a ninguém. Mas há quem os tema. São marsupiais, importantes para o ecossistema, cujo hábito alimentar inclui, além de frutas, insetos, aranhas, ratos, escorpiões e cobras venenosas ou não. Quanto ao clima, além da Liberdade, Centro e Subúrbio, Itapuã já está no rol dos bairros mais quentes da cidade. Em 2040, Salvador estará um grau mais quente e, em 2070, dois graus. Os mais prejudicados serão os mais pobres.

Aliás, o planeta está desvairado. Se, em um continente, animais silvestres são expulsos do seu habitat de forma imoral, noutro cidadãos, como os Palestinos, receberam tratamento desumano e criminoso. Foram expulsos pela lei do mais forte, tiveram suas casas destruídas e seus empregos cancelados. A comunidade foi brutalizada, forma de reduzir o ser humano a um estado selvagem. E assistiu à imposição da supremacia de uma tribo milenar (Israel) sobre outra. Pelo visto, quatro mil anos de convivência não serviram para nada.

O voo da Artemis II e o seu sucesso é um contraste à realidade no Oriente Médio. A esperança que traz à humanidade não atenua a estupidez praticada em Gaza. Só nos deixa mais inseguros. Há duas raças no mundo: uma superior e outra inferior. As imagens do espaço, da nave, dos astronautas e o tamanho do projeto da Nasa não combinam com as imagens da Palestina que, de tão arruinada, lembra a própria Lua. Os astronautas flutuando no universo lembram outro planeta e não onde os palestinos foram emparedados entre o cimento e o desprezo.

Cruel é o mundo, mas cruel mesmo é o homem que tomou de assalto a palavra para torná-la em arma contra o próprio homem. Se na colonização do velho Oeste, os índios monopolizavam os deuses da natureza e se defendiam com flechas envenenadas com restos putrefatos de animais, o “imperador” da grande nação cara-pálida monopoliza a mídia mundial e ataca o planeta com palavras envenenadas de ódio e mentiras. E a mídia obediente repercute tudo sem propor críticas ou denunciar a manipulação da informação, o desvio moral. Nem os Faraós tinham tamanha primazia. Certo está Paul Morel, personagem de Rubem Fonseca, no livro “O caso Morel”, que, impávido, diz: “Nada temos a temer, exceto as palavras.”

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 17.04.2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário