Páscoa de bombas
Cláudio Pimentel
Terminei o domingo de Páscoa nem alegre, nem triste, mas como o Gonzagão, cantando “Sabiá”, eterno clássico junino: “A todo mundo eu dou psiu (psiu, psiu, psiu); perguntando por meu bem (psiu, psiu, psiu)”. Apesar de estar com a cabeça bem longe de festas e de tudo, o refrão permaneceu horas zabumbando em minha alma, atravessando a noite, invadindo a segunda-feira e emitindo muitos outros psiu, psiu, psiu. Tenho motivos para o inesperado incidente, mas desconfio que o propósito era fixar a chegada do Outono, estação da colheita, da queda das folhas, da decadência, da idade que antecede a velhice.
O Outono é raro. Leva-nos a meditar sem ansiar grandes mudanças, mas recomeços. De aprender que nem tudo que cai é perda. Tem o dom de nos fazer ler. É mais alma que natureza. E a leitura abre portas à maturidade. É uma estação que me lembra como é intensa e sonora a visita dos Sabiás, Joões-de-barro e Bem-te-vis no período de reprodução e acasalamento. Minha casa se enche de ninhos, mistura de resort e maternidade dos pequeninos. Abriga ainda o mês das noivas: maio. Quando as igrejas se vestem de branco e viram palco de infinitos enlaces, da vitória do amor. Prelúdio de renovação.
E como nem tudo é perfeito, é também o período que atrai a mídia. Sim, ela, que, na falta de notícias palpáveis em anos eleitorais, introduz uma das pragas modernas nesses dias outonais: as pesquisas eleitorais. E não é algo novo. Já perceberam? É notória a escassez de assuntos. E elas ocupam todos os espaços. Do voto a voto a candidato a candidato, tudo é dissecado, hora a hora. Um saco! Um esforço que não acrescenta nada a ninguém. É apenas um lero-lero sobre políticos que nada mais têm a nos acrescentar. Os exemplos estão por aí: presidentes que negam vacinas à população. Irreparável. As pesquisas se tornaram instrumentos de campanha e desgraçadamente induzem as pessoas ao erro.
Neste ano, as pesquisas vieram famintas, mas logo se arrefeceram diante das patacoadas de Trump e Netanyahu no Oriente Médio. Dois malfeitores, dois velhos políticos com mais passado que futuro a atazanar o belo. Será que seus eleitores não perceberam que elegiam psicopatas? Eles sempre deram sinais de que a qualquer momento causariam tragédias, como causaram neste pequeno um mês no Irã e Líbano. Ambos somaram mais uma medalha às suas biografias: de homicidas.
É um infortúnio a compulsão do homem em criar guerras. Os presidentes estadunidenses repetem os imperadores romanos. Trump sem sua guerra jamais se sentiria pleno. Para ele, é obrigação guerrear e afastar até as ameaças das flores e das despedidas silenciosas. A palavra vencedor jamais será um adjetivo aos seus feitos. É mais um “loser”. Elementos assim desconhecem a poesia do Outono. A poesia da Vida.
Pesquisas, em início de ano, mostram apenas o quanto um ou outro candidato é simpático ao eleitor. Um ex-presidente foi eleito assim. Entrou na mente das pessoas com o seu jeito grosseiro e bufão e arrebatou os que se identificavam com ele. A carência de ideias, cultura, conhecimento e projetos para o Brasil não os demoveu. Seu charme de lupanar foi mais sedutor. Hoje, vários candidatos, à direita, tentam repeti-lo. Vamos cair nessa novamente? Jamais vi um líder ameaçar de extermínio uma civilização, a persa, de quatro mil anos, e se gabar como um deus. Trump e Netanyahu merecem punições mais efetivas que coleiras e focinheiras.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 10.04.2026
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