sexta-feira, 24 de abril de 2026

crônicas

Depois do futuro, melhora

Cláudio Pimentel

         Há algumas semanas, as frases tornaram-se fetiches para mim. Repetir “assim caminha a humanidade” ou “os 10 dias que abalaram o mundo” viraram mantras. Cenas de malfeitos pelo mundo dão energias a elas e outras frases mais fazem o mesmo. Dão cores à tragédia. E nada de interessante concorreu para esse meu estado de vigília e desejo, exceto a sensação de que estou envolto em uma distopia. A utopia se debandou e a realidade se desconectou do futuro. O destino deu um play na vida, naquela que resta. O planeta está convulso. E só os convulsionários não veem.

         O colapso global está batendo em nossas portas. Exemplos não faltam. A epidemia de feminicídio no Brasil é um sinal de distopia. Quando se imaginava que, com a passagem e o fim da pandemia, teríamos mais fraternidade e amor entre homens e mulheres, o que encontramos é esse massacre sem igual e fora do controle contra mães, filhas, namoradas, irmãs. Que covardia! E, como se não bastasse, um ator da Globo resolve criar um clube para “homens fracos” aprenderem a serem duros com as mulheres. Repete o misógino personagem de Tom Cruise em “Magnolia” (1999), filme do diretor Paul Thomas Anderson.

         A presidente Dilma, aliás, foi vítima de brutal tratamento misógino durante a campanha pelo impeachment contra ela. Nenhum dos jornais, TVs e revistas do país a defendeu dos ataques humilhantes. Não houve quem se levantasse para condenar o teor selvagem de panfletos, faixas, adesivos, bonecos e imitações em rádios, TVs e Internet. Nem as mulheres. Entre os adesivos, um causava náuseas: a charge da presidente, de pernas abertas, afixada na entrada do tanque de gasolina. Deputados e senadores a xingaram de tudo. Nem a Geni foi tão maltratada por eles. Um massacre. A cegueira da mídia fomentou o feminicídio que há hoje. E a misoginia se alastra pelo país.

         A distopia está nas guerras que estão por aí. E não são encerradas porque há muitos interesses por trás delas: fabricantes de armas cujos contratos precisam ser cumpridos; banqueiros que oferecem créditos promocionais para que sejam compradas; políticos medindo suas ações de olhos nas pesquisas de popularidade; e, por fim, comprando ações das indústrias de armas e petrolíferas. A guerra é uma máquina de dinheiro. E considerando os conselheiros bilionários que apoiam Trump, o investimento em bolsas é intenso e certo.

         A frase, porém, que mais tem sido, em mim, motivo de reflexão é “assim caminha a humanidade”. E isso se reflete na quantidade de filmes, séries e livros tratando de violência, guerras, desastres, grandes roubos, sequestros, negociatas, vinganças, polícias e cartéis de drogas. São produções espetaculares, que vão além do cotidiano. Estão em todos os tempos: passado, presente e futuro tornaram-se uma coisa só. O futuro não é mais como ontem. Ele já nos foi entregue, trazido pela literatura e o cinema. O presente já me dá o futuro.

         A série “Eufhoria”, que tanto impacto causou em duas temporadas, chegou à terceira. E é um belo exemplo de distopia. Senti isso nos dois primeiros episódios. Jamais imaginei que viria com tanta força, pois havia rumores de que os produtores do filme estariam sendo pressionados por grupos evangélicos ligados a Trump. Não é o que parece. Além de muita droga, a nudez entrou com tudo.

A nova temporada mostra, neste início, que os personagens terminaram o ensino médio e não conseguem ir para o curso superior e nem mesmo se encaixar em bons empregos. Os meninos estão pegando empréstimos com gangsters para montarem seus negócios. E as meninas buscando a área de entretenimento, como, por exemplo, onlyfans e coisas parecidas. Duas perguntas: O “American way of life” faliu?; Deu chabu no “Make america great again”? Distopia pega. Até nas melhores famílias da Califórnia e da Flórida.

Claudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 24.04.2026

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