Cretinos S/A
Cláudio Pimentel
Querido amigo e fiel leitor, imagino que não seja esta a primeira vez que lês o nome Tartufo, personagem do teatrólogo francês Moliére, envolvendo personalidades brasileiras de aspecto ambíguo. Eu li pela primeira vez nos derradeiros anos da década de 1990, quando um certo ex-presidente, reconhecido como o príncipe dos sociólogos pela habilidade de lidar com o poder. Um Maquiavel dos trópicos que virou pai do Real e começou a derreter como queijo coalho na frigideira a fogo baixo.
Fernando Henrique Cardoso, que chegou à presidência do país depois de uma pajelança tamanho “GG Extra Large”, foi ungido ao cargo máximo com o aval dos principais caciques dos partidos conservadores, da indústria, do comércio, da agricultura, das forças armadas e de toda a mídia, tendo à frente a Globo com a mão na cordinha do apito da locomotiva que puxava a democracia no pós-impeachment de Collor. O super apoio, porém, foi insuficiente para poupá-lo da ordinária marca Tartufo.
Desde a antiguidade greco-romana, a comédia, como gênero têm lugar. Entretanto, Molière, ou Jean Baptiste Poquelin, estabeleceu um inegociável padrão de qualidade. O autor foi um profundo observador do comportamento humano num contexto social de mudança com o fenômeno da ascensão burguesa. Molière descortinou a quantidade de perfis presentes nas pessoas, como desvio de caráter, corrupção, hipocrisia religiosa, lascívia. O palco tornava-se sala de aula de comportamentos ilícitos.
O tom ferino a cada uma dessas descobertas tornou o teatro de Molière insuperável. Qualquer um que visse com dedicação e sutileza seria capaz de fazer suas próprias avaliações do outro. É possível que, nos anos 1990, deslumbrado com a própria ascensão política, Fernando Henrique tenha oferecido, inconscientemente, motivos para a imprensa brasileira ver um Fernando do passado e não mais do futuro como parecia ser.
O Tartufo começa a surgir com o incompreensível pedido de que esquecessem tudo o que escreveu nos livros, seguido do malfadado programa de privatização das Teles, além da obscura expansão das concessões de TVs e rádios e, especialmente, com a campanha em favor da sua reeleição, a qual não seria possível sem uma PEC.
A transformação do primeiro para o segundo mandato deixou marcas em FHC. O país foi ao FMI duas vezes. O que estava ruim, piorou. O apagão foi geral no Governo. E, ironicamente, real no país, que passou a conviver com blackouts e racionamentos. Cortes no orçamento do país, tiraram o sossego da população e apertou ainda mais os cintos de todos. O Tartufo estava pronto. E a expressão começou a ser entoada.
O jornalista Mino Carta utilizou o termo pejorativo “tartufo” para se referir a FHC em seus artigos e comentários críticos na revista Carta Capital. O uso é para descrever um personagem hipócrita, falso, farsante. Mino criticava a trajetória política e intelectual de FHC, acusando-o de incoerência entre discurso progressista de sua formação acadêmica e a prática econômica liberal de seu governo.
O espírito de Tartufo continua a rondar o Brasil. Se FHC era alvo nos anos 1990 por falar uma coisa e fazer outra, hoje o que não faltam são alvos para serem presenteados com o epiteto de Tartufo. Eles estão todos aí intocáveis: nos partidos, na imprensa, nas instituições, nos três poderes. Uma desunião única em desfavor do país. É todo mundo passando a mão na cabeça de todo mundo. Vivemos entre monarcas do fracasso e traficantes de engodos. E todos caladinhos a espera da próxima chantagem midiática. E nesse ambiente só poderosos e cretinos sobrevivem.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 28.08.2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário