sexta-feira, 21 de agosto de 2026

crônicas

Por onde anda o normal?

Cláudio Pimentel

         Sequer mexo quando as minhas reflexões do coração se cruzam com os batimentos da minha cabeça. Silencio, fecho os olhos e deixo rolar. Sei lá... pode ser uma epifania, e epifanias são pequenos milagres da percepção, orgasmos da mente, repentinas revelações do inconsciente. Quem sabe um órgão a mais! Nossa bola de cristal interior. Quem a tinha era Jesus, mas deu no que deu: viu em cores seu próprio adeus. Os Reis Magos, Moisés e Ulisses, o Odisseu, experimentaram sua força. E Raul Seixas também, mas há dez mil anos atrás, quando ela já era quase uma epidemia. Jamais tive uma epifania. Caiu de moda. Mas não perco a esperança. Um dia serei tocado. Disco voador, já vi.

         Suspeito que a Pandemia foi o debacle da epifania. Pegou Covid. E começou com a história de nos unirmos todos por dias melhores e por um “novo normal”. Muita gente riu, sorriu e até chorou de felicidade diante da perspectiva de um final feliz, mas deu xabu. Fomos abandonados à própria sorte. Irresponsáveis cuidavam do país. E, para piorar, o “novo normal” jamais deu as caras. Quando apareceu, mostrou-se um desconhecido irritadíssimo, autoritário e ameaçador. O normal era outra pessoa ou outra coisa. O normal agora é tudo o que de anormal passou a nos afetar. A tal fraternidade desandou. Virou coisa de comunistas. E o mundo é para machos de arminha.

         Rússia e Ucrânia entraram em guerra, infligindo ao planeta um novo comportamento, o de gastar menos do que já gastávamos. O petróleo subiu e os fertilizantes também. Trigo, soja, milho e café aumentaram o cachê. O agro ficou “impop”. O dinheiro mudou de rumo. Deixou as boas causas e resolveu ouvir o Brasil. Botou as “arminhas na mesa”, abrindo as portas à guerra. Esta sim, o Normal que está na moda! Estados Unidos, Israel e Irã se juntam a Rússia, Ucrânia e grupos terroristas como, Hamas e Hezbollah, e dezenas de empresas Militares Privadas, como o Grupo Wagner, para animar a festa do “Kossacou” e dançar até matar. O que era normal antes da pandemia agora é um amontoado de distorções a prejudicar o planeta. A principal vítima: Democracia. Principal algoz: EUA.

         O comportamento de bandido de faroeste do líder da nação, que não respeita as leis e nem as Cortes mundiais, como faziam Billy The Kid e Jesse James, ladrões de banco, está criando distorções em todos os lugares. A última, chocante, repugnante e descabida, envolve o ministro de segurança israelense, Ben-Gvir, ao exibir, com orgulho, à imprensa o canteiro de obras do novo centro de pena de mortes para palestinos condenados por terrorismo. A estação de enforcamento terá cabines para que os familiares das vítimas de palestinos possam assistir, com conforto, a execução. Coisa de Estado terrorista.

         O festival de horror está em todos os cantos da mídia. Basta um olhar mais sensível para encontrá-los. A campanha eleitoral no Brasil, por exemplo, começou daquele jeito. Pensei que veria algo bem humorado, mas me enganei. Na tela, uma figura que até então desconhecia, dava pinta de estar imitando o aloprado presidente da Argentina Javier Milei.

Menos gordo e cabeludo, gritava, balançando mãos e cabeça, que iria acabar com a Justiça do Trabalho. Estava tão bravo que parecia disposto a acabar com o trabalho e os trabalhadores também. Ameaçou pedir palmas à indústria e ao comércio. Foi aí que percebi que o “Mileizinho” não imitava ninguém. Era apenas mais um boneco de ventríloquo da direita. Tinha até um artista atrás de suas costas fazendo seus movimentos. Novo Normal nunca mais.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 21.08.2026

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