Em nome de quem?
Cláudio Pimentel
Por que dar nome ao nome? Porque tudo deve ser nomeado. E tudo deve ser nomeado por quê? Para transformar algo abstrato em um ser único. E se não fosse assim? Teríamos, então, uma sociedade só de “Zés”, na qual todos teriam a mesma importância e os mesmos direitos. Seria como em Pasárgada, na antiga Pérsia, que se tornou sinônimo de refúgio utópico. Lá, o poeta Manoel Bandeira diria: “Sou amigo do Rei”. E os orgulhosos franceses repetiriam: terra da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Sem preocupações.
Mas o poder, em nome das tradições e da hierarquia, mudou tudo. O nome dos “Zés” precisava de algo mais. Algo que o diferencia dos demais. Algo que almeja-se importância e liderança ao próprio nome. E assim, para o controle prático da sociedade, foram surgindo os títulos de nobreza, da representação política, das organizações privadas, das administrações públicas, das forças armadas, do clero, das associações e até das famílias: pai. Dar “títulos” a quem já tinha um nome foi a forma encontrada. Distingue quem tem poder e o tamanho desse poder.
Há hoje uma cisão no poder, o que torna a atual crise do poder como mais complexa do que em outros momentos da história. Os poderosos não obedecem a ninguém. Dá até para classificá-los em times: os resilientes são formados pela Inglaterra, França, Alemanha e Itália; os rebeldes, pela Rússia, Israel e Irã; os observadores, pelo Japão, China e Índia; os que ainda avaliam que lado ficar: Polônia, Dinamarca, Brasil, Canadá, Argentina e África do Sul; os que ainda rezam para que tudo acabe em pizza; e o time do que manda mais: EUA.
Acredito que todos esses países tenham, por trás de seus passos, sábios conselheiros, analistas geniais, diplomatas tarimbados e “big shots” alimentando-os com o que os mais ricos estão pensando neste momento e como estão se movimentando. E mais: grandes pensadores provenientes da academia. Pois percebe-se que os EUA se valem de seus bilionários para definir seu plano de ação. A Rússia conta com os oligarcas. E Netanyahu com os religiosos ortodoxos ultra radicais. O jogo só podia ser pesado.
Diante de tantas desobediências ocorridas durante os principais conflitos hoje, como Rússia e Ucrânia; Israel e Hamas; Israel e Hezbollah; Estados Unidos e Irã; e Israel e Irã, parece até que os bilionários de Trump, os oligarcas de Putin e os Ortodoxos de Netanyahu querem o tudo ou nada. Se tiver que optar pela guerra total, este será o caminho. A pergunta que fica é: “Em nome de quem estes senhores estão jogando o planeta no abismo?”
Enquanto isso, veremos na TV o festival de grosseria, racismo e desumanidade das polícias e milícias dos EUA, durante a Copa do Mundo, contra torcedores, jornalistas, atletas e staff de seleções e empresas de comunicação estrangeiros. Nem bem começou e já temos três episódios constrangedores: o árbitro somali Abdulkadir Artan, da Somália, impedido de entrar no país para apitar jogos; o tratamento à repórter Karine Alves, da TV Globo, que passou por uma abordagem racista ao desembarcar; e as ações nas últimas semanas contra países como Irã e seus atletas e torcedores persas. A FIFA está perdida. O risco é de uma copa que vá apenas da recepção à decepção.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 12.06.2026
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