A frase que Deus me prometeu
Cláudio Pimentel
Há coisas em extinção no Brasil exigindo um esforço dobrado para restaurá-las. Educação, polidez e civilidade são as mais urgentes. Um surto de grosseria está contaminando ruas, redes sociais, bares, estádios, escolas, shows e programas de TV. O mais recente, com alto teor de covardia, ocorreu em uma audiência da comissão de Infraestrutura do Senado, quando três senadores da República descarregaram suas armas de misoginia, racismo e prepotência contra a ministra do Meio Ambiente Marina Silva, convidada do evento.
Marcos Rogério (PL), de Rondônia, Omar Aziz (PSD) e Plínio Valério (PSDB), ambos do Amazonas, assinam o roteiro, que conta ainda com Davi Alcolumbre (UB), do Amapá, presidente da Casa, que não comentou o episódio. Eles querem o desenvolvimento da Amazônia, algo que ainda não está bem claro. Só o Valério nada esconde: disse que já tinha ânsias de enforcar Marina. Porém, fora o mal-estar, a ministra não sofreu danos físicos, saindo da peleja maior do que entrou. A imprensa descobriu que havia uma armadilha para desmoralizá-la. Marina é do Acre. Anjo que sempre militou pela preservação da região Norte, flora, fauna e, agora, modos.
Outro evento que não configura agressão à honra de alguém, mas tem peso igual, ocorreu no último BA-VI, na Fonte Nova. Duas expulsões de jogadores, um do Bahia, que desferiu um murro nas costas do jogador do Vitória; e outro do Vitória, que desferiu murros no joelho do jogador do Bahia, foram questionadas pelo técnico Rogério Ceni. Ele disse à imprensa que os socos não causaram danos aos atletas e nem ao jogo e, portanto, não se justificavam. O raciocínio é equivocado. O fato de desferir socos entre jogadores em um espetáculo, pode, sim, estimular violência. Mesmo não “machucando”, agressões como aquelas exibidas precisam ser punidas e eliminadas dos estádios. É futebol e não “telequete”.
A grosseria e a violência estão se tornando coisas tão banais que outras situações semelhantes passam por naturais. A praga que invade telefones celulares é um exemplo. Você já contou quantas ligações seu aparelho recebe oferecendo produtos como trocar operadora, mudar a assinatura de Internet, empréstimo consignado, cabos de fibra ótica, invasões à sua conta bancária ou uso indevido do cartão de crédito (golpes), remédios, consórcios? E quantas vezes você disse não e, no dia seguinte, todas voltaram a ser feitas na cara de pau? Robôs e operadores desconhecem o não. A Anatel nos abandonou.
Chego a me arrepiar ao ver o apresentador do telejornal local cruzar os dedinhos e anunciar a bagatela de 300 vagas de emprego para operadores de marketing, em Feira. “Não precisa experiência”, entusiasma-se. Não deve ter celular. É um choque, são 300 operadores entrando no mercado para nos atazanar. E mais: a violência não está só aí. O emprego de operador de marketing é um dos mais insalubres da era moderna. Nem sei a razão do Ministério Público nunca ter metido o dedo aí. Além de receber o nosso estresse, convivem com metas impossíveis e chefes tirânicos e agressivos.
Para onde olharmos, encontraremos sinais de violência e comportamento agressivo. A mídia esqueceu que um dia fomos cidadãos. Hoje só nos tratam como CPF ou consumidor. Fomos desumanizados. E muitos de nós só se enxergam assim. Isso frustra, entristece e estressa, pois passamos a nos sentir inadequados se não tivermos determinada coisa para usar em determinado lugar. É o sapato, celular, corte de cabelo, perfume. Até namorado ou namorada têm que se enquadrar no padrão da hora. A ordem é consumir o fútil. Os senadores não estão nem aí. Querem rodovias na Amazônia para desfilarem seus possantes, como se faz nas ricas Avenidas Paulista e Faria Lima, em São Paulo. E quanto à frase do título, ainda aguardo o sinal de Deus. Pode estar aí e nem percebi.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 30.05.2025
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