sexta-feira, 23 de maio de 2025

crônicas

Na zona do agrião

Cláudio Pimentel

         Encasquetei com a tirada “na zona do agrião” ao passar, pela segunda vez, em um mês, por uma experiência curiosa para comprar agrião. Eu não sei, caro leitor, se você percebeu, mas a hortaliça, rica em nutrientes, como vitamina C, potássio, zinco e ferro, tornou-se rara em Salvador. Os estabelecimentos, sobretudo os supermercados, oferecem apenas a versão hidropônica, um matinho de “perninhas” finas que sonegam a alma da planta e seus longos talos que agregam sabor apimentado à refeição, garantindo textura e personalidade. Sem a versão original, qualquer prato se apequena.

         As duas situações ocorreram nas imediações do mercado de Itapuã, ali na Orla do bairro. A primeira foi numa quitanda conhecida, que parece ainda não ter se recuperado do baque da pandemia. Depois de atravessar a feira atrás da hortaliça, fui orientado a procurá-la por lá. Na loja, ninguém sabia dizer se tinha ou não. Como insisti, mandaram-me procurar um Fulano, que apontou para os fundos e avisou: “Está ali embaixo do balcão.” Meio escuro, vasculhei o local e encontrei dois maços escondidos.

Dias depois, fui direto à quitanda atrás do agrião. Não tinha. Saí, então, pela feira, à procura. Recebi vários nãos até que alguém dissesse: “Vá ali, naquela esquina, e procure a mulher com um cachorro”. Fiquei desconfiado, mas fui. Ainda possuía um restinho de curiosidade jornalística. Entrei no beco e vi um homem. Perguntei sobre o agrião e ele gritou: “Cicrana, é com você”. Uma senhora de avental e um cachorro apareceram. Atrás deles vinha um menino trazendo dois maços. Peguei, paguei e caí fora.

Foi estranho, lembrou-me outra experiência. Nos anos 1970, na Baixada Fluminense, meu pai tinha um armazém, que acabara de receber feijão preto. A entrega se deu dias depois do Governo militar admitir que havia desabastecimento do produto. Nenhum concorrente no bairro tinha. Só nós. O feijão jamais saiu do depósito, mas foi todo vendido. Havia tabela na época e poucos cumpriam. Surgia gente de vários cantos à procura dele. O risco de confisco era real, mas não nos deduraram. Só o meu pai atendia quem procurava pelo “ouro preto”.

Nessa época, “na zona do agrião” era uma expressão famosa, uma gíria que se referia à grande área do campo de futebol. O jornalista e ex-técnico da seleção brasileira, João Saldanha, seria o criador. O significado relaciona-se ao cultivo da hortaliça, que deve ser plantado em terrenos com retenção de água, exigindo prudência e movimentos cuidadosos a quem estiver no local. O mesmo que se exige de um jogador quando está na área prestes a fazer um gol. Entre 1966 e 67, Saldanha apresentou o programa “Na zona do agrião”, na TV Globo.

O jornalista, cuja morte está completando 35 anos, é um daqueles tipos que fazem falta em determinadas épocas da vida. Conhecido também como “João sem medo”, ele foi de tudo um pouco: contrabandista de armas aos seis anos de idade, líder estudantil aos 20, dono de cartório aos 33, membro do Partido Comunista Brasileiro a vida toda. Comentarista de rádio e TV, ator de cinema e candidato a vice-prefeito. Um franco analista em falta hoje. Pergunto o que ele diria da lambança que estão fazendo na eleição do novo presidente da CBF? Todos estão cheios de dedos. Vão entronizar um mamulengo!

E o que diria ele de um mamulengo brincando de presidente do planeta? Para quem enfrentou Médici, o presidente mais perigoso da ditadura, não teria problema. Trump transformou o lendário “Salão Oval da Casa Branca” numa arapuca para torturar autoridades mundiais ao vivo. Primeiro foi Macron, que revidou com astúcia, depois Zelensky, que perdeu o gingado, e agora o presidente da África do Sul, o qual constrangeu com mentiras sobre genocídio de brancos. Será o fascismo saindo finalmente do Ovo? O mundo vai deixar? Cadê a Europa? Cadê a China? Trump, Netanyahu e Putin precisam se recompor. Criarem empatia. Só pensam em mortes. Agrião neles! Nós não merecemos as desgraças que propõem.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 23.05.2025

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