sexta-feira, 16 de maio de 2025

crônicas

Capitalismo patrimonialista

Cláudio Pimentel

O Patrimonialismo é uma praga histórica. Herança monárquica e feudal, de quando as classes se dividiam entre as de sangue azul e vermelho. O primeiro a conceituá-lo foi o sociólogo alemão Max Weber, no século XIX. Depois, foram os marxistas brasileiros que deram cores ao tema no Brasil. A primeira vez que ouvi falar no pomposo nome foi em um ensolarado sábado de 1978, no bairro de Jacarepaguá, no Rio, numa insuspeita aula de EPB, no curso de Comunicação Social.

A tradução é Estudo de Problemas Brasileiros, que, assim como OSPB - Organização Social e Política Brasileira, era uma disciplina escolar presente na reforma do ensino escolar proposto pelos militares durante a Ditadura, instituída em 1964. Uma era do curso superior e a outra dos primeiro e segundo graus de ensino, hoje conhecidos como fundamental e médio. As duas disciplinas eram obrigatórias e, na minha Faculdade, não podia faltar. EPB e OSPB compunham o entulho autoritário do Golpe.

Todos iam às aulas com o estômago queimando óleo de caminhão. A ressaca geral fazia a cantina bater recordes na venda de antiácidos e refrigerantes. Ninguém queria estar ali, mas a maioria comparecia apenas para dizer “presente” e cair fora. Tinha um futuro ator global que aguardava no corredor seu nome ser dito. Assim que ouvia o chamado, abria a porta e desfilava como se estivesse numa passarela do costureiro Dior: “Presente, “mon cher professeur”, derramava-se na língua do estilista.

Em meio ao folclórico ato acontecia uma doce rebeldia. O professor não usava os livros do Ministério da Educação. Sugeria aos alunos que os lessem, mas usava livros que entendia como importantes à proposta da disciplina. “Cangaceiros e Fanáticos”, de Rui Facó, foi o livro que mais impactou. Tratava de temas como o monopólio da terra, o despertar dos pobres e o poder dos coronéis. A capa do livro também. Era arte realista. Qualquer democrata gostaria das aulas. “Economia Política da Urbanização”, de Paul Singer, e “Formação histórica do Brasil”, de Nelson Werneck Sodré, completavam a lista.

O teatro em torno das aulas de EPB embaçou tudo. Como o professor, cujo nome se apagou em mim, não era uma estrela do jornalismo, como alguns ali eram, poucos lhe davam crédito. Era professor de história e tinha bom humor. Em um sábado, decidiu pular o nome do “ator” durante a chamada. Antes que a sala se arvorasse, colocou o dedo na boca e piscou. Ah, que sensação! Ele seguiu ditando nomes até o instante em que o aluno entrou. Exibia tristeza, olhar no horizonte além das paredes. O corpo estava encurvado como o do Corcunda de Notre-Dame. Dirigiu-se ao professor e, humildemente, pediu que jamais fizesse isso de novo. Declamou poesias, ensaiou passos de dança, jogou beijos e o abraçou. Sentou e assistiu a aula.

Performances como estas, num espaço público, seriam suicidas, não só nas ditaduras, mas em ambientes patrimonialistas, onde o poder está acima de tudo e pertence apenas a uma pessoa, a qual não pode ser contrariada de acordo com o seu próprio modo de ver a vida. É o juiz. O patrimonialismo é um sistema em que o poder público é exercido como se fosse uma propriedade privada, ou seja, os detentores do poder usam o cargo para benefício pessoal e de seus aliados, ao invés de servir o interesse público.

Portugal era assim. O Brasil herdou. Ainda hoje temos casos. O ex-presidente, por exemplo, acreditava que a Polícia Federal e a Abin deveriam servi-lo e não o País. Mesmo assim há quem o trate com parcimônia. Lembram das joias?! Pior, porém, é o Boeing que o Qatar, uma ditadura, vai dar a Trump, presidente da maior democracia capitalista. É patrimonialismo na pior versão. Suborno? O político não deve receber presentes. Por isso ganha bem: para que nada lhe falte. O Trump vai vender o avião para quem? Receptador não falta.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 16.05.2025


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