A fraternidade é vermelha
Cláudio Pimentel
O que seria da lingerie se o vermelho fosse banido? Ou do trânsito sem os semáforos? Chapeuzinho sucumbiria aos dentes do Lobo mau? O climão, no paraíso, entre Adão e Eva rolaria sem a maçã? E o sangue em nossas veias, ficaria branco como o da barata? O que seria da vida sem a sua cor mais viva? Uma desgraceira. Lembra da “legião de imbecis” do filósofo Umberto Eco? A facção brasileira inundou as redes sociais, nos últimos dias, para repudiar uma possível camisa vermelha no uniforme da seleção brasileira. Um canal de TV promoveu até um debate sobre o tema. Fiquei rubro.
O vermelho tem história. É anterior à humanidade. Chegou à Via Láctea no rabo do cometa em busca de um caminho para orbitar o Sol, que, há bilhões de anos, explodiu planetas tal qual uma gata parindo. Pareciam naves em chamas. Um deles virou o nosso planeta azul. Internamente, porém, do lado de baixo do Equador, se deu o contrário. Os portugueses chegaram num enxame de naus e logo se percebeu que o novo mundo ardia, devido ao urucum que pintava seus indígenas e ao Pau Brasil que incandescia suas matas. O vermelho não integrar a alma do país é uma falha. Afinal, brasil é o sinônimo irado da cor.
Nos anos 1970, os uniformes de dois times chamavam a minha atenção: o do América, do Rio, e o do Internacional, gaúcho. Ambos vermelho e branco. A combinação era simples, direta, dando um visual limpo aos jogadores, que sempre se destacavam na refrega em campo. Os números às costas, em branco, facilitam a identificação de jogadores. Os dois tinham camisas vermelhas e calções e meiões brancos. Apesar da ditadura, os extremistas não acusavam os dois de serem comunistas. A seleção inglesa também usava o alvirrubro assim. O vermelho e o branco cairiam muito bem no Brasil. É uma opção elegante para determinados jogos. Um exemplo de modernidade e juventude. Alemanha e Itália usam a tática há anos.
As redes sociais, como diagnosticou Eco, são infelizes. Ensejam inócuas trocas de ideias, como o da camisa vermelha, que é apenas pregação ideológica. Repetem o estúpido adágio da campanha bolsonarista “minha bandeira jamais será vermelha”. Que babaquice cafona! São ideias que nada acrescentam às nossas vidas. Servem às pias de lavagem cerebral. Às salas de polarização, negação, fanatismo e ódio. E seus temas rasteiros. O que surpreende é o grau de credulidade do internauta limitado perante o ídolo ou influencer. O que dizem é lei.
Assisti no programa “Last Week Tonight with John Oliver”, da HBO, um pronunciamento do Secretário de Saúde de Trump, Robert F. Kennedy Jr. que me estarreceu. Ele pediu desculpas por ter permitido que as vacinas tivessem feito crescer o número de pessoas com autismo nos EUA. A fala é criminosa. Ninguém fica autista com uma vacina. Mas Kennedy está se lixando. Ele sabe disso, mas fala para os fascistas que seguem Trump.
No Brasil, assim como nos EUA, não estamos livres dos terraplanistas. Os nossos voltaram a idolatrar golpistas e torturadores. Estão nas ruas pedindo anistia aos vândalos. Querem o perdão para eles. A onda da extrema direita teima em sumir na maré. O noticiário sobre a sucessão do Papa contou com insinuações de que a extrema direita pretende influenciar na escolha do pontífice. Espero que não. Um Papa de Trump, que deixou o aroma de enxofre por onde passou no Vaticano, reabriria a Inquisição. Falta fraternidade ao mundo, a mesma do filme de Kieslowski, cuja trilogia, a “Liberdade é Azul” e a “Igualdade é Branca”, em referência às cores da bandeira francesa, se perdem no tempo entre tragédias, avanços, retrocessos e metáforas. Sim, a “Fraternidade é Vermelha”.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 02.05.2025
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