Francisco Dostoiévski
Cláudio Pimentel
Li em algum lugar que uma das preocupações do Papa Francisco era, antes de morrer, doar sua coleção de livros de Dostoiévski para a irmã e dois sobrinhos, filhos dela. Se já o admirava pelo desprezo que dedicou ao indigesto liberalismo, decidi, então, reservar a ele uma rede multicolorida na minha suis generis galeria de “heróis do fim do mundo”, que, entre outros meninos maluquinhos, já reúne Sócrates, Montaigne, Machado de Assis, Charles Chaplin, Miguel Torga, Mário Quintana, John Lennon, Raul Seixas, Belchior... tutti buona gente!
É incomparável a avalanche de heranças que o santo padre está deixando para quem quer: amor, simplicidade, humildade, honestidade, acolhimento, sabedoria, inclusão, solidariedade, proteção e atenção aos mais vulneráveis. São lições de vida, lições de como o ser humano deve agir diante das injustiças, da pobreza, da guerra, da fome e da exclusão: denunciar e combater. Mas ser um devoto leitor de Dostoiévski supera tudo, ao meu ver. É demais, pois supera qualquer elenco “findemundista” que exista além do meu. Não é fácil ser herói Humano tendo os plásticos heróis Marvel ocupando todas as telas.
Dostoiévski não é fácil. Surpreende que Francisco, um padre, o venere. A obra do escritor russo é composta de clássicos, mas seus livros se servem do que há de pior no ser humano, para entendermos melhor como o ser humano é. Não há virtude, como ocorre na liturgia, quando se busca intensamente a redenção. Em Dostoiévski não há este caminho. Apenas os interesses mundanos. O autor prefere a extravagância, o disparate, a torpeza e a auto humilhação. E questiona se o ser humano tem uma propensão natural à sensatez, ao amor e à moral. Se têm, por que não se apresentam?
Se em “Irmãos Karamazov” conta-se a história de três irmãos cujo pai é um devasso, que vive bêbado e é assassinado por um dos filhos, em “Crime e Castigo”, Raskolnikov, inspirado na própria experiência que o autor teve na prisão, mata a machadadas a usurária dona da pensão onde reside. De uma família de intelectuais arruinados, o personagem é um estudante que abandona o curso por falta de dinheiro. Duas histórias policiais cuja investigação está nos terrores da angústia que precede os crimes. Dostoiévski vai atrás da alma humana. O que queria o Papa? Mapear e entender a alma dos homens?
Antes de assumir o Vaticano, Jorge Mario Bergoglio foi, nos anos 1950, professor de literatura na Argentina. Os livros sempre foram sua paixão. Além de Dostoiévski era também fã de Jorge Luís Borges, Dante Alighieri e Proust. O Papa escreveu sobre poesia e recomendava a leitura dos clássicos como forma de “entender a voz de Deus a partir da voz do tempo”. Ele foi o primeiro pontífice a valorizar textos literários e obras de arte não sacras, incluindo autores sem religião. Acho que foi o único com essa vocação entre todos os Papas. Será uma pena se esses valores não forem pesados no Conclave do fim de semana, em Roma.
Borges e o jovem Bergoglio, aliás, protagonizaram um encontro inusitado ainda nos anos 1950. Professor de literatura e psicologia no Colégio Imaculada Conceição, em Santa Fé, o futuro Papa enviou uma carta a Borges, em Buenos Aires, já então considerado o maior escritor argentino, convidando-o para visitar a escola. Agnóstico, o autor de “Ficções” e “O Aleph” viajou de ônibus por oito horas, para conversar com os alunos. O encontro, porém, atrasou e por pouco não foi cancelado. Motivo: quase cego, Borges, que primava pela elegância, pediu a Bergoglio para o barbear. Sempre humilde, não importa o tempo ou a hora.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 25.04.2025
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