Um pé de moleque
Cláudio Pimentel
Se a sobremesa é a parte mais saborosa de uma refeição, por que, então, não começamos por ela? Porque o histórico chef François Massialot, que serviu, entre outras cortes francesas, a de Luís XIV, o rei Sol, “inventor” da sofisticação na moda, música, cultura e artes, convencionou que o prato final do cardápio deveria ser o de doces, numa orgia de chocolates, cremes, sorvetes, baunilha, canela, bolos, frutas e açúcares. Não era assim. Antes dele, era tudo servido ao mesmo tempo, como num multicolorido “Café Colonial”, democrática atração turística e culinária de Gramado e Canela, na serra gaúcha. Um manjar dos deuses!
Como sempre, quem bota o dedo no açucareiro, em situações envolvendo guloseimas, é a criança. Independentes da idade e da época, são os primeiros a perceberem a distorção e os primeiros a pedirem para começar a refeição pelos doces. E não adianta proibir. Viram negociações sofridas e chorosas que terminam em sonoros “Então, você vai pra cama mais cedo.” Conheço adultos que se sentam à mesa e perguntam de saída: “Qual é a sobremesa?” Beliscam uma coisinha e indagam com biquinho pidão: “Cadê o docinho?”. A maioria já fez criança dormir chupando o dedo em nome da etiqueta e da saúde. Deixaram de ser os exemplos que foram para os filhos e, pelos netos, tornaram-se relaxados seguidores dos quindins, cocadas e brigadeiros. Viram confrades.
Eu admito que militei, quando criança, pelo doce no início das refeições, e depois, como pai, em servi-los no fim, como manda a etiqueta. Hoje, me preparo para entrar no time dos netos. É mais justo, vivo e libertário. Antídoto antiestresse. Porém, entendo que o ritual das refeições não são invencionices dos “grands chefs de la cuisine du monde”. A sobremesa vai por último por razões compreensíveis: estabilizar o açúcar no sangue; proporcionar uma experiência agradável; contribuir no processo de digestão. O toque final nos prazeres da mesa. No domingo de Páscoa, será assim em centenas de lares. O chocolate terá salvo conduto para se fazer presente a qualquer instante entre adultos e crianças. E não há nada de feio e errado nisso!
Feio e errado é ver a farofa que os bilionários que se apossaram dos Estados Unidos estão fazendo no mundo. Oito bilhões de pessoas estão ameaçadas em suas casas, opulentas ou não, por zumbis que trocaram os doces pela amargura, maldade e desfaçatez. Gente reles, com uma arma na mão e uma Bíblia na outra chupando bolinhas de naftalina como se fossem balas toffee. Há uma epidemia de grosseria marchando em nossas cidades, como definiu o colunista Ancelmo Gois, de O Globo. Veio para nos ruborizar. Trump, Musk, D. Vance, Navarro e outros fantasmas estão tropeçando nas próprias ferraduras. Em cem dias condenaram a elegância e as boas maneiras à fogueira. A diplomacia deu lugar à falta de modos como arma política.
Haja antiácidos para tantos coices: “não precisamos de Latinos. Eles precisam de nós”, cuspiu Trump; aos gritos, na Casa Branca, diante do mundo, humilhou Zelensky, classificando-o de ditador sem votos; o vice D. Vance chamou os chineses de plebeus; a oxigenada porta-voz Karoline Leavitt estapeou os franceses: “é somente graças aos americanos que eles não falam alemão atualmente”; o secretário Pete Hegseth, da Defesa, referiu-se à América Latina “como quintal de Washington. Trump vai trazer a região de volta à influência ianque”. Um capitão do mato; a cereja do bolo foi propor que os palestinos saíssem de Gaza. Trump viu como seria lindo um conjunto de resorts no local. Para eles, chupar o cano de um fuzil deve ser tão prazeroso como um “lollipop”, um pé-de-moleque...
Cláudio Pimentel é
jornalista
Ócio Recreativo – 18.04.2024
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