sexta-feira, 11 de abril de 2025

crônicas

Curtindo a vida adoidado

Cláudio Pimentel

         Dia desses, alongando o ouvido para captar, da TV, qual era o caos tarifário da hora, deparei-me com algo inesperado, que vinha de outras paragens, meu próprio caos interior: “Quem conhece os outros é inteligente, quem conhece a si mesmo é iluminado”. A frase não é minha. Surgiu numa fagulha, no estilo aparição. E levitou ao meu redor sem pressa. Tentei ignorar, fingindo ouvi-la. E abri caderninhos de notas, livros sublinhados e bilhetes em gavetinhas atrás de rastros. Revirei equipamentos, porta-canetas, molduras e canecas. E nada da frase e seu autor. Era a primeira vez? Que nada. Ainda bem!

         A literatura é um exercício de admiração que deixa marcas como tatuagens, que podem ficar submersas no tempo e na memória, a nos pregar peças. Quero acreditar nisso, apesar da dor que muitas vezes nos obriga a sentir. A chegada da velhice tem estágios como num curso universitário. Não sei em que ano estou, mas sinto que já estou distante do seu início, quando ainda acreditamos estar prontos para o que der e vier. Comecei o estágio de veteranos. Vamos! Não sei a quantidade de graus para concluí-lo. Importa? Acho que não. Afinal, é mais uma peça.

Prefiro contar um episódio que já tem mais de 15 anos. Um colega que estava aterrissando na idade que receberei, em breve, 65, lamentava-se: “Não há sensação pior do que ser observado por jovens mulheres e não perceber nelas qualquer interesse sexual por você”. Fui surpreendido. Melhor seria chegar a essa conclusão por mim mesmo. E agora! Mas, inconvenientemente, me foi antecipada e, desde então, passei a carregar o mesmo desespero do destituído confessor. No meu caso é pior, pois elevei o desinteresse feminino, sentido por ele, a outros conjuntos de seres humanos que habitam e influenciam nossa aldeia, como interesse profissional, intelectual, social...

Depois dos 50, damos início a um drama terrível, que é o de reavaliar o passado, diagnosticando se foi bom ou ruim. A ordem é verificar se sua condição condiz com o que você planejou para o futuro. É um exercício e um julgamento que exigem honestidade, senão caímos no erro de ignorar ou esconder o passado e reescrevê-lo para confortar a consciência e ficar bem com a nobreza e a patuleia. Vale a pena fazer isso? Revalidar uma trajetória, maquiando-a? Entendo que não. A juventude é um período de vitórias. Vencemos até quando perdemos. É uma pena que não soubéssemos disso ao vivenciá-la.

Na maturidade, tenho aprendido que não há espaços para devaneios e distrações juvenis. A mídia, porém, pensa diferente. Envelhecer só vale se for para ficar jovem. E a sociedade acompanha a absurda lógica. Não há reflexão que se contraponha a esse desígnio. Xô, gritam os vendedores de sonhos e produtos, como SUVs e Resorts. O que é ser jovem aos 50, 60, 70, 80 anos? Negar o remédio da pressão? Condenar a fralda geriátrica? Vestir-se de preto como um típico roqueiro? Portar um vibrador para uma eventualidade do Viagra falhar? Ou, com graça e sabedoria, apontar os perigos da vida atual? Afinal, são idosos no poder, hoje, que estão ameaçando o mundo.

Confesso que estressa não conseguir se livrar do auto julgamento de uma vida. É a primeira coisa que a gente lembra quando acorda e a última quando se deita para dormir. A sorte é quando não tira o sono. Recordar erros dói. Tentar no cotidiano, entre tantas vidas de “sucesso” ou não, o equilíbrio das emoções é para os sóbrios. Vaidade, humildade, ambição, companheirismo, arrivismo, exibicionismo, avareza, generosidade, arrogância, prepotência, sabedoria... estão aí a nos adoecer e curar, apesar da confusão que causam. Não sei se sou inteligente, pois sou péssimo em conhecer o outro. Se sou iluminado também não sei. Ainda me falta jogo de cintura para melhor me conhecer. Não sei se o tempo ainda terá tanta paciência comigo. Espero que sim. Não vai perder nada.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 11.04.2024

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