Um presidente sem classe
Cláudio Pimentel
Desconheço qualquer promessa de diminuir a frequência de comentários sobre o “Imperador Trump”. É impossível calar-se diante da ilicitude diária de suas palavras contra tudo que não cheira a branco, rico, evangélico e racista. O mito ianque é a pessoa errada, na hora errada e no lugar errado. Acreditei que Hitler fosse o último a usar tal coroa. Errei. O gordo torto quer conduzi-la tendo apenas insultos na cabeça. É impossível não engulhar. E imperioso denunciá-lo uma, duas, mil vezes. A vida tem pressa. Há um novo verdugo na praça. Ele está armado. Hitler escolheu os judeus. Trump, os palestinos e outros “restos”.
A simples presença da “peste”, causada por bactérias ou déspotas com pernil de javali à boca, arregimentaram legiões de insurgentes. Gente fina e grossa com o mesmo propósito. Fake News não existiam. E a honra valia. Um cuspe, um aperto de mão e basta. Na França, entre os mais notórios, encontravam-se os escritores Émile Zola, autor de “Germinal”, e Victor Hugo, de “Os Miseráveis”. Em 1865, Manet viu seu quadro “Olympia”, ser recusado pelo Salão de Belas Artes de Paris. Rebaixado ao Salão dos Recusados, causou furor. Foi acusado de pornográfico e mal pintado. Acabou expulso da mostra.
Jornalistas, escritores, professores e alunos de artes zombavam da peça. O quadro, que quase foi destruído, retratava uma mulher nua deitada na cama, tendo ao lado uma criada negra que lhe trazia flores, e um gato preto aos seus pés. A maioria se revoltou com o que viu. Até passeatas os parisienses promoveram. A população batizou “Olympia” de “Borrão”. Era o fim de Manet. Menos para Zola, que foi o único a defendê-lo publicamente. Perdeu o emprego que tinha num jornal e viu as portas de outros jornais se fecharem para ele. O tempo, porém, mostrou quem estava certo, ele. Gente assim faz falta hoje.
“Germinal”, destacava-se pela carga social que tratava a condição dos trabalhadores franceses. Expôs à burguesia e ao capital as duras condições de vida e trabalho dos mineiros. Há trechos do livro que assustam. Li quando tinha uns 16 anos. Nunca ouvira falar de crianças minerando, muito menos com pais e irmãos, dormindo em cavernas, nas cercanias da mineração, cumprindo plantões de trabalho e regrando o que tinham para comer, algo raro. Famílias que mendigam nas ruas do Brasil se encaixam no quadro, talvez sofram mais ou menos que os personagens, que viviam como bichos. Só o abandono é igual. No livro, havia “salário”, na rua, só esmola. Nenhuma esperança.
A grande pergunta agora é: Cadê os “Zola” da hora? Por que o silêncio diante das ignomínias proferidas por Trump e seu lacaio direito, Musk, ambos enviados de alguma fossa de a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri? E o Brasil, como deve reagir? Melhor seria com a força e o molejo do povo. Somos o Extremo Ocidente do mundo, uma leitura que nos dá força, pois nos diferencia. Somos a Roma Tropical, de Darcy Ribeiro, a Roma Negra, na canção de Caetano, sucessores da civilização grega como origem do que somos, luso-africanos, o que nos dá um ar de modernidade, que vai além das IAs, Aliens e Zumbis. Somos únicos.
Vamos, no Carnaval, surpreender o poder diabólico e midiático do mundo com frases pró-Palestinos. Proponho que sejam expostas nos desfiles das escolas de samba do Rio e São Paulo, nos trios elétricos da Bahia e nos blocos de rua de São Paulo, Pernambuco e Rio. Exibam quantas faixas puderem. Nos trajetos também, cada morador pode participar. Criem frases para eles, ameaçados de perder suas terras, suas vidas, suas almas para o capricho de um louco, que se elegeu num país que ruma à falência e quer renascer tirando nosso orgulho e dignidade. Pode ser: “Nós Somos Palestina”; “Palestina é para Palestinos”; “Ninguém Mexe na Palestina de Jesus”; “Go Home EUA, a Palestina Vive”; “Ei, Trump vai... com Deus”.
Cláudio Pimentel é jornalista
Nenhum comentário:
Postar um comentário