sexta-feira, 7 de março de 2025

crônicas

Atrás do Quarto Reich

Cláudio Pimentel

Hoje cheguei à miserável conclusão de que, quanto mais leio e mais acompanho os fatos, mais parvo me torno. Estou perdido no multiverso, abstraído do passado, isolado do presente e desamparado do futuro. Nada é compreensível. Ouço apenas Sócrates aos gritos: “Conhece-te a ti mesmo, conhece-te a ti mesmo”, para o qual plagio aos sussurros: “Só sei que nada sei, só sei que nada sei”. O futuro nos foi roubado e ninguém vê. Ou, se vê, finge que não. Vivemos em bolhas. O temível é que o ovo da serpente rompeu a casca. O “Quarto Reich” iniciou sua marcha e ameaça piratear o mundo. Ucrânia, Groenlândia e Panamá já sentem o bafo no cangote. Os EUA rosnam como os Alemães rosnaram na década de 1930.

         O clima hoje é quase idêntico ao descrito por Freud em “O mal-estar na Civilização” (2011/Penguin), seu célebre livro lançado em 1930, um ano depois do craque da Bolsa de Nova York desgraçar a face do planeta. Ele vaticinou o futuro, investigando as origens da infelicidade, buscando entender os conflitos entre indivíduo e sociedade e suas diferentes configurações na vida civilizada. O fascismo na Europa e o nazismo na Alemanha ergueram-se num clima de choque, entre a Primeira e a Segunda Guerra, tendo nesse ínterim o sumiço do dinheiro, proporcionado pelo jovem capitalismo irresponsável. O historiador Peter Gay, autor do livro “Freud – Uma vida para o nosso tempo” (Cia das Letras/1991), chamou o pequeno livro de Sigmund (93 páginas) de: “Sombrio. Uma teoria psicanalítica da política”.

         Enquanto isso, na sala da Liga da Justiça, em Washington, os heróis da Marvel assistiram encantados dois alegres momentos no Brasil: o Carnaval, com centenas de milhares de foliões nas ruas; e a premiação do Oscar, em Los Angeles, que poderia entregar até três estatuetas ao filme brasileiro “Ainda estou aqui”. Sempre atentos, os fantasiados heróis não viram, porém, o instante em que um cidadão agrediu o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor do livro “Ainda estou aqui” (2015/Alfaguara), atirando contra sua cabeça uma mochila, uma lata de cerveja e uma camiseta. O jornalista, que é cadeirante, estava sendo homenageado pelo bloco “Acadêmico do Baixo Augusta”, em São Paulo. Ao jornal “Estado de São Paulo” disse: “O Brasil está difícil.”

         Era a décima sexta vez que Marcelo participava do desfile do “Baixo Augusta” e nunca houve tal selvageria. Foi só o livro inspirar o filme, que mostra com precisão e sem anestesia, um dos mais deploráveis momentos do regime ditatorial, que roubou o Brasil dos brasileiros em 1964, para o samba ser politizado por um vândalo, que, pelo que leio nos jornais, ainda não foi identificado e convidado para prestar informações à Polícia. Será que vai? Afinal o fato aconteceu num estado governado pelos segmentos de direita. O rapaz precisa esclarecer os motivos da agressão. Será importante para deixar tudo transparente.

         Quando o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, liderado por Hitler, chegou ao poder, os nazistas tentaram legitimar seu poder e força atribuindo ao seu regime algo como uma continuação do Sacro Império Romano, o Primeiro Reich (800-1806), e do Império Alemão, o Segundo Reich (1871-1918). Eles cunharam, então, o termo “Das Dritte Reich” (Terceiro Império), o Terceiro Reich. Ao querer o “Quarto Reich”, os EUA não sabem o que faz. O melhor é ir atrás do Trio Elétrico, onde só não vai quem já morreu.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 07.03.2025

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