Bonés do fim do mundo
Cláudio Pimentel
O que chega primeiro à vida das pessoas: felicidade ou desilusão? Ia postá-las em ordem alfabética, num jeitinho bem cartesiano, mas deixei assim, com o F antes do D. É mais sincero. Provoca o lúdico. Solta a maluquez. Afinal, as palavras vieram das teclas nesta ordem, sopradas pelo instinto, na batida bonita do samba. Pudera, desde a primeira lufada de ar, a vida nos ensina a posicioná-la antes da desilusão. Antes de tudo. Somos instados a conquistá-la, custe o que custar. É o que todos querem. Ela é alegria, é ventura. A desilusão é um balde d’água fria, um arroz sem feijão. Tipo ficar na mão. Dizem que existe. E dizem que não. Só os fracos se deixam abduzir. Desilusão faz sumir. Deixem-na para lá, e parabéns.
A juventude é o estado em que a felicidade é tudo. É um desperdício do destino presenteá-la com a melhor parte da vida. Nessa fase, a felicidade transborda até não lembrarmos mais dela. Esqueci todas. A maioria de efeito simultâneo. E assim vai até o dia em que ocorre um “clic” e nos joga diante da vida, do eu, do mundo e da selva que chamamos de cotidiano, cuja cereja é estar no topo. Adeus pai, adeus mãe, adeus casa, adeus... A nítida impressão de que a felicidade sempre vem em primeiro lugar, cessa. Cresci buscando-a sem saber onde estava, se em mim ou a centímetros... Xô, distâncias! A felicidade é uma ilusão. É assim que a desilusão chega até nós? Sinto-me enganado.
No meu melhor momento, suspeito que nada valeu. Sinto que não consegui fazer a leitura correta do tempo. Buda dizia que o conflito não está entre o bem e o mal, mas entre o conhecimento e a ignorância. Depois de quase 30 anos vendo o planeta, mesmo que aos trancos e barrancos, evoluindo, sentia que as barbaridades do passado pelo poder estavam se extinguindo. O milênio virou e nada sugere mudança. A figura do louco que cria desertos para chamar de império havia desaparecido. O último foi Hitler. Engano! Oitenta anos depois os EUA dão vida ao líder do 4º Reich. Perdi o chão. A desilusão me engoliu. O futuro real é irreal, pelo menos, o que se avizinha
Agradeço a bispa episcopal Mariann Edgar Budde, da Catedral Nacional de Washington, pelas orações que fará para inspirar humanidade na alma esfarrapada de Trump. Serão inúteis. O presidente ianque é movido a maldades, ameaças, chantagens e humilhações. Homens com esse tipo de perfil não foram forjados para liderar conglomerados como uma nação do tamanho dos Estados Unidos. Propor a prisão de imigrantes em Guantánamo ou defender a expulsão de palestinos de Gaza para construir uma Riviera são sinais de demência, o que explica o seu completo desprezo pelo ser humano. Trump está doente. A postura prova. Sempre torto dos pés à cabeça, apoiando-se em alguma superfície. É a imagem da ruína que promove para os EUA. É a supremacia da ignorância sobre o conhecimento.
Mais esquisito, porém, são políticos brasileiros exibindo em suas cabeças bonés vermelhos da campanha Trumpista, com a inscrição “Make America Great Again”. São gringos? Além da alma vira-lata, em breve terão que explicar ao mundo os motivos para prestar continência a um louco. O comportamento de Donald, que está mais para Patolino, não ficará impune ao mundo. É tão fora da curva que o ditador Xi Jinping, presidente da China, parece um lorde da democracia. Pior, esdrúxula até, é outro grupo de políticos, a título de troça, cobrir suas cabeças com bonés azuis, com a frase “O Brasil é dos Brasileiros”. Melhor seria “A Palestina é dos Palestinos”, em verde – “up to date”. Faltou cabeça. E sobrou bonés do fim do mundo.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 07.02.2025
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