sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

crônicas

Distopia e Utopia

Cláudio Pimentel

         “E se eu quiser matar alguém?”, gritou a mulher no meio do salão da concessionária. Num só movimento, todos ali reunidos cravaram os olhos no vendedor, que, de metido, como vilão de ópera-bufa, ao cantar os predicados do carro, murchou como um pneu ferido por “miguelitos” espalhados na rua. Cheio de manhas, ele apenas disse que o veículo parava suave e automaticamente se, na estrada, o carro da frente freou antes. “Quer dizer, então, que se eu acelerar o carro não acelera?”, perguntou batendo o sapatinho no piso. “Não”, disse o pobre homem, acrescentando: “Só vai matar, se der ré”, explicou, tentando, num último e desesperado lance, salvar a venda.

         Quem me contou o ato foi um velho colega, daqueles que sempre aparecem com um causo divertido. Neste, porém, tratou como um drama. Estava triste, indignado e descrente. Dizia que as mulheres se tornaram perigosas e traiçoeiras. Nunca se casou, mas “namoridou” uma eternidade, até pedir alforria ao destino. Assumia ser escravo delas. Mas não aguentava mais chegar em casa e perceber que a amada se fora levando a mobília. Perdeu a conta. Levaram também os poucos filhos que tiveram. Seriam seus? Mas quá! Mudava o pensamento. O desejo de encontrar o grande amor de sua vida havia se derramado, aos litros, em lágrimas e cervejas. A mulher da concessionária era uma especialista em “arminhas”. O extremismo o contaminou também.

         Um exagero. Numa época em que definir e conceituar utopia e distopia se tornaram um dos trabalhos dos novos Hércules, taxar a mulher de qualquer coisa é uma escolha fadada ao erro. A mulher, mostra a história, sempre foi vítima. E ainda é. E, mesmo assim, ela nunca abriu mão de ser protagonista na construção da humanidade. Aliás, elas são a humanidade. Inventaram a família e inventaram o Lar, para colocar a família dentro.

 Neste momento especial, em que estamos com o mundo numa bifurcação, a mulher é essencial. É sensibilidade pura. Qual caminho seguir: distópico ou utópico. Um carro que freia sem a sua ação, no caso de uma mulher, está contra ela. Assim como os idosos, são os alvos preferenciais de bandidos de todas as espécies. Para elas, então, um carro tem que obedecer apenas a ela. Você já viu um homem com um boneco no banco do carona?

         Exemplos de covardia contra a mulher não faltam. Aliás, surgem todos os dias neste quarto de século. O presidente da Argentina Javier Milei, na falta do que fazer, pretende elaborar um projeto de lei para eliminar do Código Penal argentino o conceito de feminicídio. Ele acredita que “legalizamos, de fato, que a vida de uma mulher vale mais que a de um homem”, argumenta. Que besta! Estarrecedor. A vida do homem não se iguala a nada, principalmente quando age como rato.

A história é a prova cabal de que a vida da mulher sempre valeu menos. E quando se busca caminhos civilizatórios para corrigir um erro milenar, surgem vermes como Milei e como Trump para arregimentar forças para conduzir o mundo à Era Medieval. Sentem saudades da Peste Bubônica. O feminicídio no Brasil é uma epidemia. Em outros países também. Tem tudo para virar pandemia, se nada for feito. Só a Democracia vai salvá-las.

Trump, pelo que faz e desfaz desde que foi eleito, merece um comentário de alerta: suas ações sugerem a construção de uma distopia, onde tudo está ou será organizado de uma forma opressiva, assustadora, autoritária, totalitária. A utopia é o inverso. E é o nosso foco. Colocar inocentes imigrantes em Guantánamo é maldade e perversidade gratuitas.

Cláudio Pimentel é jornalista

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