O Cavaleiro do Apocalipse
Cláudio Pimentel
Donald Trump é especial. Por onde passa deixa cadáveres pelo chão. Acho que todos já viveram a experiência de ver alguém assim num bar, festa, escola, trabalho ou até em casa. Eu já vi. É constrangedor. A maioria age sob o escudo do cargo: gerente, diretor, presidente ou chefia de qualquer coisa. É gente que se move à cata de erros. E subalternos, para distratar. Apontam culpados e impõem punições. A arma é a ameaça. E o prazer, terror. Querem obediência. A alma é de um capitão do mato. Dividem-se em psicopatas e sociopatas, sintomas que disfarçam sob o verniz dos modos. Em comum: olhar febril, voz de sargento, reações aceleradas.
A posse de Trump foi assim. Acho que só os masoquistas assistiram o deboche do início ao fim. Teve um momento em que passei a sentir o joelho dele sufocando o meu pescoço. Pulei fora. Não queria ser mais um George Floyd, um preto assassinado em 2020, por Derek Chauvin, policial de Minneapolis, que se ajoelhou no pescoço dele. Era exatamente o que Trump fazia na segunda-feira, 20 de janeiro, a cada frase que proferia, fazendo biquinhos naquela manhã gélida de Washington. Tudo para humilhar. Não sabia que o Inferno começaria num dia de frio siberiano. O diabo sabe o que faz. São brothers.
Foi chocante ouvir que nos EUA agora só existem feminino e masculino. Será que não percebeu que, nos últimos 40 anos, os preconceitos e perseguições foram caindo como pedras de dominó?! Nem na militar Esparta, na Grécia Antiga, era assim. Eles se curtiam numa boa, como por aí. “Seu Peru” até diria: “Trump, estou ‘porraqui’ com você!” Só faltou ele anunciar uma Polícia Social, como as do Irã e do Afeganistão. Cruzes! Assistir Elon Musk, que é o homem mais rico do planeta, mas parece um boneco de Olinda, fazendo o gesto de saudação nazista dobrou meu estômago. Sei que os ricos não precisam de “Simancol”, mas ele merecia um vidro.
A posse tinha cheiro de fim do mundo. A começar pela mulher do presidente, que parecia um cabide com um chapéu azul pendurado no alto. O rosto dela e olhos não eram filmados pelas câmeras, que mostravam apenas algo no meio da multidão. Só soube que era ela quando o indiscreto marido revelou que os pés dela estavam doendo. Humor ácido. Parecia casório lá no interior do Rio de Janeiro nos anos 1960. Eu vi alguns. Tinha até tiros! E por falar neles, não foram esquecidos. Trump prometeu balas para o Panamá, México, Brasil, França, China, Rússia, Canadá, Groenlândia... Que sandice! Nem o “Saturday Night Live” seria tão engraçado.
Outro cheiro da posse, além do enxofre, era o do nazismo. Começou no “Heil, Hitler!” de Mr. X e seguiu com as alianças de Trump com os donos das “Big Techs”, que foram lá prestar vassalagem. Chamou atenção a quantidade de bilionários fazendo parte do governo. Uma “boquinha” a mais não faz mal a ninguém, muito menos a bilionário. Não é à toa que, em 2024, o número deles cresceu na proporção de quatro a cada uma semana. Adivinha onde foi parar o que falta no seu bolso...
É tanto poder que duvido que alguém agora implique com a verdade. Esta será única e atenderá por Fake News. Sim, elas serão a verdade. A Democracia vai dançar. Desde o absolutismo de Luís XIV, o Rei Sol, nada se iguala ao poder do novo governo dos EUA. É algo sem precedentes sobre a humanidade. Até os bancos norte-americanos saíram do acordo de Paris. Acabaram os financiamentos. Está tudo dominado. Dos quatro Cavaleiros do Apocalipse o pior é o da morte, representado pelo cavalo amarelo, a mesma cor dos cabelos de Trump. Quando tudo explodir, pelo menos iremos para Marte, a de Musk, se sobrar alguém. Roteiro indigesto!
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 24.01.2025
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