sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

crônicas

A maior invenção do mundo

Cláudio Pimentel

         O homem vive há mais de cinco mil anos e ainda não sabe qual é a maior invenção da humanidade. Você sabe, querido leitor? Não é fácil. Qualquer escolha é polêmica. Pensar no todo não é o nosso forte. Somos egoístas, mimados. Numa ligeira pesquisa na Internet, deparei-me com listas e mais listas de invenções, algumas dignas de cair o queixo: “Como não pensei nisso!?” A maioria visa o bem-estar: conforto, saúde... É como se os inventores ocupassem o lugar dos santos e só operassem milagres. Um anjo da asa hábil. Será? Tornar a vida fácil tem preço. Acho que inventam de tudo para cevar porquinhos. Sempre tive um para encher de moedas. Grande invenção! Melhor que colchão.

         A cama é uma dessas invenções unânimes. Todos aprovam, e querem, e têm. É ótimo para puxar pestanas e muito melhor para quebrar o estresse, com prazer ou não. Ninguém vive sem colchão e sem amor. Dupla perfeita. O uso, porém, parece em baixa. Há quem troque o prazer para lascar-se em guerras e pelo poder. Não vi colchões nas listas, mas encontrei invenções tão ou mais interessantes: roda, fogo, vidro, prego e até preservativo. Escolhas sui generis! A invenção da roda é fantástica. Surgiu antes dos tempos, antes do primeiro “carro”. Começou, provavelmente, quadrada e foi se arredondando. Hoje existe apenas como metáfora à burrice. Os Estados Unidos colocaram uma roda quadrada na presidência.

         Entre as invenções clássicas estão: eletricidade, internet, computador, vacina, automóvel, aviação, televisão, telefonia, energia nuclear, antibióticos... Observe que são invenções que se impõem pela modernidade. Nasceram atendendo às necessidades atuais. Alguns sequer têm 50 anos de existência. Cada época tem sua grande invenção. Há uma lógica: suprir a necessidade do seu tempo. O papiro egípcio tem três mil anos; o papel chinês tem dois mil; e a prensa alemã, 600 anos. Uma sequência genial. O digital, que pretere o papel, surgiu outro dia, e muda toda a lógica. A próxima grande invenção poderá ser: instrumento que impeça as mudanças climáticas; detector de Fake News; compostos que garantam o fim da fome ou o início da imortalidade.

         Enquanto não chegam, vamos assistir o homem atualizando os seus arsenais. Começou lá em 1200, na China, com a invenção da pólvora até chegar à bomba atômica. Mudaram o mundo para pior. A energia atômica poderia ser algo do bem, mas depende das mãos que controlam seu uso. Dominar a energia atômica significa poder. Atrai fetichistas. Promove sandices. Como faz falta um colchão aos afoitos! Por isso, para mim, a maior invenção da humanidade é algo que não aparece em nenhuma lista: a Filosofia. Sim, ela é a maior invenção e, provavelmente, a mais temida pelos poderosos. Com quase três mil anos de estrada, é o único instrumento capaz de explicar os fenômenos de forma racional e lógica. Seu uso torna o mundo compreensível, mas a ignoram.

         A Filosofia superou a era dos mitos, presente no início de tudo, no início dos vários povos. Nasceu da necessidade de superar o enredo misterioso da mitologia, seus deuses, castigos, lições e contradições, para oferecer algo que permita perceber o mundo contemporâneo. E se firmar como indispensável à sociedade. Não há nada mais sofisticado para nos levar a reaprender o mundo do que filosofar. Precisamos entender a realidade. A traduzir o tempo, que muda na velocidade do dia. É hora de ver o que não se vê; de ouvir o que não é dito; de ler o que não está escrito. Não há mais um dia igual ao outro. Temos que nos reinventar. A Filosofia é capaz de tudo. O resto é bobagens, meu filho. Tolices. Criancices.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 17.01.2025

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