Quem gosta de osso é cachorro
Cláudio Pimentel
A primeira imagem que subiu à minha cabeça, quando soube da premiação de Fernanda Torres com o “Globo de Ouro”, pelo desempenho em “Ainda estou aqui” (2014), filme de Walter Salles, foi a de um quadro que, entre outras bazófias, ocupava uma das paredes do gabinete de um infame deputado federal fluminense, na década passada: “Quem gosta de osso é cachorro” ou “Quem procura osso é cachorro”.
Tratava-se de uma ironia, um deboche de mau gosto, que “vossa excelência”, muito hábil com arminhas e palavrões, fazia questão de mostrar para quem o visitasse, no Congresso. A ideia era desqualificar o trabalho da Comissão da Verdade, sancionada, em 2011, pela presidente Dilma Rousseff, para investigar o desaparecimento de pessoas durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988.
Um dos desaparecidos era o deputado federal Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva e marido de Eunice Paiva, a impassível e corajosa mulher que Fernanda teve, com sua precisa e incomparável interpretação, condição de elevar ao Olimpo das históricas personagens femininas – uma Penélope, com cinco filhos e sem recursos, à espera de um marido que jamais voltaria.
O abjeto quadro do gabinete era, portanto, um “desagravo” aos algozes da ditadura, torturadores como Brilhante Ulstra, doutor Ney, coronel Perdigão e o aviador Juarez, que integravam a lista dos oficiais que protestaram, em manifesto, contra a presidente, assinala outro torturador, o delegado Cláudio Guerra, em depoimento ao livro “Memórias de uma Guerra Suja” (2012), dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, editora Topbooks.
O livro é um pesadelo. Mostra que a Comunidade de Informações era um polvo sem controle. Um câncer espalhado no tecido do Estado a nos ameaçar. O general Golbery do Couto e Silva, que criou o SNI – Serviço Nacional de Informações, disse: “Criei um monstro”. Gerou dezenas de filhos bastardos no Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícias Federal, Civil e Militar, Procuradorias, Ministérios, Governos de Estado. Todos criaram serviços de informações. Empresas estatais forneciam logística e privadas, dinheiro. A Maçonaria e o Jogo do Bicho também. A “Scuderie Le Cocq”, formada por policiais, virou esquadrão da morte. O Lessa, que executou Marielle, tem carteirinha da Scuderie.
Os distúrbios do dia 8 de janeiro de 2022, em Brasília, não foram um acaso. A estrutura ditatorial, que jamais acabou, ficou apenas inerte por um período, voltando aos poucos logo depois que a Comissão da Verdade nasceu. E à medida que avançava, ameaçava o submundo de informações. O quadro do cachorro é um sinal. Pequeno, mas é. O rastilho de pólvora acendeu às vésperas da Copa das Confederações da FIFA, em 2013. Houve protestos contra o governo de Dilma. Nos jogos do Brasil, ela era vaiada. As passeatas se espalharam nas cidades. As redes sociais repercutiram. A mulher Dilma virou o foco dos protestos. Um festival de misoginia. E assim seguiu até seu impeachment. Ainda houve a reeleição, seu último suspiro. A extrema direita ressuscitou. Deu no que deu.
O troféu de Fernanda Torres explodiu como se o Brasil tivesse sido hexacampeão da Copa do Mundo. Uma surpresa. Que país carente de boas notícias! Pudera, só se fala em crimes. A alegria que o prêmio trouxe deveria ser por tudo que o filme representa: a democracia ainda está aqui. A democracia é a verdadeira Copa a se comemorar. A democracia ainda é uma incompreendida. Enfim, o povo sabe o que faz até quando faz coisas que poucos entendem. O patriotismo visto serviu pelo menos para algo: associar o Globo de Ouro à Copa do Mundo, tirando assim a Camisa Amarela das mãos erráticas dos golpistas e colocando-a nas dos 200 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção, da Democracia, meu irmão.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 10.01.2025
Nenhum comentário:
Postar um comentário