Que os bons tempos fiquem onde estão
Cláudio Pimentel
Ah, os bons tempos! Que saudade... Ao contrário da maioria, quando pesco algo no passado, reclamo de tudo... até das vírgulas! E pode ser de origem pessoal ou histórica. Em “Meia noite em Paris”, filme de Woody Allen, o mocinho da trama desejava viver na Paris dos anos 1920/30, com seus grandes escritores, pintores e cineastas, e não a do século XXI, cuja esperança beira à extinção. Jamais pensei assim. E por um motivo simples, os bons tempos estão aqui e agora. Afinal, continuamos vivos! Esta é a melhor notícia! A vida se resume em momentos bons e ruins o tempo todo. Surpreendem e frustram nossos desejos. Aquecem e congelam nossos sentidos. Montanha russa sem freios...
Se você, caro leitor, estranhar a sequência de exclamações “triunfais” e pausas “dramáticas”, como se fossem um ardil para convencê-lo sobre o que penso, compreenderei o desconforto causado com um suspiro profundo e uma revelação pouco lisonjeira: é a timidez. Sempre joguei nesse time, o qual me trouxe mais derrotas do que vitórias. Cultivar fazendas de silêncio era um exercício essencial para esconder a língua congelada e a mente em câmara lenta em momentos decisivos. Não tinha o Agro é pop! Talvez, por isso, trate os bons tempos como entes que jamais deveriam ter saído de onde estavam, como diz qualquer torcedor de clube grande tentando justificar porque seu time caiu para a segunda divisão. Sinto-me a própria segundona!
O silêncio, nestas horas, é ensurdecedor, assim como é clara a confusão em que estamos enfiados. Um mundo de oxímoros, cacófatos, hipérboles e outras figuras nos abraça com um único objetivo: desviar o nosso olhar para o que existe dentro e fora de nós. Nunca foi tão complexo se autoconhecer! O herói do filme de Allen desejava o passado porque o presente é ameaçador: homens bombas, estados terroristas, guerras, doenças, violência, insegurança, drogas, escravidão, racismo, limpezas étnicas, tráfico de humanos, corporações, organizações criminosas, empresas de aluguel de humanos. É tudo diante dos olhos, mas ninguém vê! Ou não quer...
Prometi a mim não tocar, por algum tempo, no nome da hora: Trump. Pensei: que seja feliz e, apesar dos pesares, faça o melhor pelo mundo. Tive que voltar o filme. Nem bem assumiu e o xerife laranja já sacou uma série de pitbulls para cuidar dos negócios dos EUA no mundo. Um odeia famílias latinas e as separa; outro é latino, mas odeia os irmãos e Cuba particularmente; e um terceiro, que ganhou dinheiro com a eleição e é o mais rico do planeta, vai comandar a eficiência dos negócios americanos no universo. É dono da nave que levará o país ao impossível. Ray Bradbury, autor de “Fahrenheit 451” não imaginou distopia maior, lugar onde se vive em condições de extrema opressão, desespero e privação.
É a antiutopia se instalando com a benção dos que vão morrer. Passamos mais de dois mil anos em busca da utopia e o prêmio é o caminho inverso, ladrilhado com o nosso couro, colado ao chão com sangue, suor e lágrimas. Os bons tempos nunca foram tão ruins. Bons tempos só para o seleto grupo de brancos evangélicos, fanáticos, endinheirados e armados. O novo normal, após a pandemia, é este: anormalidade e desumanidade. Parabéns! A eleição de Trump é tão sinistra que um “Zé-Mané”, oriundo do berço do nazismo brasileiro, se arvorou a fazer justiça, explodindo bombas e, estupidamente, se auto eliminando para virar mártir. De quem? Birutas? O que a Inteligência Artificial pensa? Ah, os bons tempos... Não voltam mesmo!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 15.11.2024
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