sexta-feira, 15 de novembro de 2024

crônicas

Que os bons tempos fiquem onde estão

Cláudio Pimentel

         Ah, os bons tempos! Que saudade... Ao contrário da maioria, quando pesco algo no passado, reclamo de tudo... até das vírgulas! E pode ser de origem pessoal ou histórica. Em “Meia noite em Paris”, filme de Woody Allen, o mocinho da trama desejava viver na Paris dos anos 1920/30, com seus grandes escritores, pintores e cineastas, e não a do século XXI, cuja esperança beira à extinção. Jamais pensei assim. E por um motivo simples, os bons tempos estão aqui e agora. Afinal, continuamos vivos! Esta é a melhor notícia! A vida se resume em momentos bons e ruins o tempo todo. Surpreendem e frustram nossos desejos. Aquecem e congelam nossos sentidos. Montanha russa sem freios...

         Se você, caro leitor, estranhar a sequência de exclamações “triunfais” e pausas “dramáticas”, como se fossem um ardil para convencê-lo sobre o que penso, compreenderei o desconforto causado com um suspiro profundo e uma revelação pouco lisonjeira: é a timidez. Sempre joguei nesse time, o qual me trouxe mais derrotas do que vitórias. Cultivar fazendas de silêncio era um exercício essencial para esconder a língua congelada e a mente em câmara lenta em momentos decisivos. Não tinha o Agro é pop! Talvez, por isso, trate os bons tempos como entes que jamais deveriam ter saído de onde estavam, como diz qualquer torcedor de clube grande tentando justificar porque seu time caiu para a segunda divisão. Sinto-me a própria segundona!

         O silêncio, nestas horas, é ensurdecedor, assim como é clara a confusão em que estamos enfiados. Um mundo de oxímoros, cacófatos, hipérboles e outras figuras nos abraça com um único objetivo: desviar o nosso olhar para o que existe dentro e fora de nós. Nunca foi tão complexo se autoconhecer! O herói do filme de Allen desejava o passado porque o presente é ameaçador: homens bombas, estados terroristas, guerras, doenças, violência, insegurança, drogas, escravidão, racismo, limpezas étnicas, tráfico de humanos, corporações, organizações criminosas, empresas de aluguel de humanos. É tudo diante dos olhos, mas ninguém vê! Ou não quer...

         Prometi a mim não tocar, por algum tempo, no nome da hora: Trump. Pensei: que seja feliz e, apesar dos pesares, faça o melhor pelo mundo. Tive que voltar o filme. Nem bem assumiu e o xerife laranja já sacou uma série de pitbulls para cuidar dos negócios dos EUA no mundo. Um odeia famílias latinas e as separa; outro é latino, mas odeia os irmãos e Cuba particularmente; e um terceiro, que ganhou dinheiro com a eleição e é o mais rico do planeta, vai comandar a eficiência dos negócios americanos no universo. É dono da nave que levará o país ao impossível. Ray Bradbury, autor de “Fahrenheit 451” não imaginou distopia maior, lugar onde se vive em condições de extrema opressão, desespero e privação.

É a antiutopia se instalando com a benção dos que vão morrer. Passamos mais de dois mil anos em busca da utopia e o prêmio é o caminho inverso, ladrilhado com o nosso couro, colado ao chão com sangue, suor e lágrimas. Os bons tempos nunca foram tão ruins. Bons tempos só para o seleto grupo de brancos evangélicos, fanáticos, endinheirados e armados. O novo normal, após a pandemia, é este: anormalidade e desumanidade. Parabéns! A eleição de Trump é tão sinistra que um “Zé-Mané”, oriundo do berço do nazismo brasileiro, se arvorou a fazer justiça, explodindo bombas e, estupidamente, se auto eliminando para virar mártir. De quem? Birutas? O que a Inteligência Artificial pensa? Ah, os bons tempos... Não voltam mesmo!

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 15.11.2024

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