segunda-feira, 7 de outubro de 2024

crônicas

O eleitor é o vencedor

Cláudio Pimentel

         Há uma inflação de mídia no mundo. Somando as redes sociais, um tsunami midiático, acrescido de duas pragas: Fake News e Pós-Verdade. Fala-se de tudo, opina-se sobre tudo. Informação e desinformação brigam pelo leitor. A primeira defende a democracia, a segunda, condena. É um duelo de vida e morte. Perdeu-se o rumo do certo. E o do errado também. De um lado, aqueles que tentam resgatar a essência das duas palavras. E de outro, os que as querem subjugadas e metaforizadas. Moeda de três faces: cara, coroa e conveniência. Certo e errado relativizam-se. E no centro do cenário, como Chapeuzinho Vermelho, um personagem ímpar: o eleitor. Rodeado de lobos.

         O cenário de nosso personagem é a política. E o que ela é? Arte, ciência, doutrina? Tudo e nada disso. A definição é tão volátil quanto o éter. Há quem a exerça e sequer saiba explicá-la. Não existem cursos para político, assim como não existem para eleitor. Platão dizia que a política é “A ciência de governar os Estados”. É pouco! Pascal também achou e ironizou o filósofo: “Ele escreveu sobre política como se escreve sobre a administração de um hospício”. La Rochefoucauld chegou perto: “Política é a maneira sagaz para atingir determinados fins... a clemência dos príncipes depende da simpatia dos povos”. Política é conquistar simpatias?

         Em “A arte da política”, o escritor e diplomata libanês, Mansour Challita, reconhece a existência de dezenas de definições para política, entre objetivas, contraditórias e até satíricas, como a de D’Alambert: “A guerra é a arte de destruir os homens; a política é a arte de enganá-los”. Ele diz que a variedade de conceitos contribui para entendê-la. Política é: um conjunto de princípios; estratégia; governar; conquistar popularidade; lidar com outras nações; tratar dos problemas mundiais. A palavra aplica-se tanto a uma fofoca de um vereador em “Deus me Livre” quanto a um congresso internacional sobre desarmamento em Israel ou Irã. “Só o vocábulo amor seja tão rico e complexo em conteúdo”, exemplifica Challita.

         A vida do político é difícil. Mas, reconheçamos, a do eleitor é muito mais. A começar pelo elenco de dúvidas que o cerca. Ele precisa acreditar em alguém que jamais conviveu, ao menos de maneira próxima, pessoal. Precisa decifrar se o candidato é honesto ou não; se está comprometido ou não com a causa pública. A grande maioria só os conhece por meio de terceiros, sendo a mídia a principal fonte. E aí surge outro problema: em qual veículo confiar? O canal X, por exemplo, diz que tal candidato é corrupto, mas o canal Z diz que não é. Em qual acreditar? Exemplos não faltam nos últimos anos. Juscelino Kubitschek é acusado até hoje de receber um apartamento como propina. Morreu pobre.

         No dia-a-dia, o eleitor tem que conviver com o ressurgimento de ideologias nefastas e entender as razões que fizeram da Economia um pilar intocável no debate eleitoral. Escolher um candidato é penoso. Apresentá-lo, também. O foco não está mais na proposta, mas na construção de um ídolo, que nada tem a oferecer. Eles só promovem paixões. E a paixão na política é danosa. Uma porta para o surgimento de déspotas. O caminho do eleitor, portanto, é longo e cheio de minas. E a chance de escolher o melhor é pequena. A política é uma esfinge. Poucos a decifram. Se o seu candidato não foi eleito, não fique triste. Se foi, comemore, discretamente. Nas eleições em países plenamente democráticos não há derrotados. Todos vencem. E, nas Democracias, o eleito é o eleitor.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 07.10.2024

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