O futuro não é mais o mesmo
Cláudio Pimentel
O futuro é o novo presente. A ideia surgiu como plágio às máximas que nos atormentam desde quando o passado ainda existia: os 60 anos são os novos 50, afirmam! Há uma série delas, todas sobre a maturidade das pessoas, cada vez mais lentas de ocorrer, e sobre a aparência, cada vez mais lenta também em sucumbir ao tempo. O homem, finalmente, descobriu a fórmula da eterna juventude? Não. Ao invés da poção mágica, tais “lentidões” são efeitos de muita malhação, uso de suplementos, cirurgias plásticas, harmonias faciais e dietas alimentares, que recomendam alfaces, iogurtes e peixes com cenoura ralada e pinguinhos de limão. Banquete de lambuzar os beiços “botocados”. E não botocudos, apesar da semelhança em alguns casos.
Explicando em miúdos: o futuro está presente porque o passado também está presente. É só observar, querido leitor. Minuto a minuto vemos o fenômeno. Perceba que o minuto que passou já ficou no passado e o presente que está começando logo abrirá caminho ao futuro. É a vivência em instantes. Sentimos passado, presente e futuro num piscar de olhos. É como colocar mostarda no Hot Dog: sai da bisnaga (passado indo), se sobrepõem à salsicha (presente passando) e abrimos a boca para mordê-lo (futuro chegando). É uma loucura incompreensível como no tempo dos filósofos pré-socráticos, mas não irreal.
Um dos mais ousados, Zenão de Eleia, dizia que o movimento não existia. Era aquele ohhhhhhh do público. Para exemplificar, Zenão, então, jogava pedras para lados diferentes e afirmava que aquilo não havia ocorrido. A plateia, debochada, caía na risada. Os mais afoitos repetiam os exemplos, atirando pedras em Zenão, que não fugia dos impactos sofridos. Pressionado sobre se sentira as pedradas, ficava em silêncio, certo de que tratava de um assunto sério com neófitos. Heráclito, seu contemporâneo, dizia algo parecido: “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já são outras”. A sorte dele é que ninguém tentou dar dois “caldos” nele no mesmo rio. Metáforas são um perigo.
Com o tempo, e mais estudos e compreensão sobre o que propunham, essas ideias acabaram sendo fundamentais para a explicar o mundo, como ele é. E, olha, ainda há muito a explicar sobre nossa casa, o planeta Terra, mas o ser humano faz questão de se comportar hoje, diante de uma nova ideia, como a plateia que assistia Zenão e suas pedras: como espíritos de porco. Depois de eleger em 2022 uma das mais fracas Câmaras dos Deputados da história do país, a população nas principais capitais e grandes cidades do Brasil, repetiu a lógica, em 2024: escolheu os mais incapacitados às Câmaras de Vereadores. Os eleitores não se identificam com o que elegem, mas os elegem porque representam o que gostariam de ser, bem sucedidos. É a negação de si.
A Câmara dos Deputados, que deveria ser a representação do povo, é, na verdade, a soma de grupos que representam segmentos abastados da sociedade: empresários; agronegócio; armamentistas; aparatos de segurança; evangélicos; entre outros. Sensíveis aos lobbies dos planos de saúde, do cigarro e das bebidas, pela isenção de taxas às religiões, empreiteiras, mineração, hospitais privados, enfim, um sem número de segmentos que estão distantes de nós. E quem defende a população? Eles é que não são. Escolher um candidato que pense no país como um todo está difícil. Estamos elegendo quem boicota a escola pública, a saúde e a moradia. Parece até que o Brasil só tem classe média. E jogando pedra em Zenão. O futuro é agora, mas ninguém vê.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 11.10.2024.
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