sexta-feira, 4 de outubro de 2024

crônicas

Alô, alô marciano

Cláudio Pimentel

         O ceticismo tem peso respeitável em minhas sessões de julgamento ao alheio, aleatório ou transcendental. Um exemplo: conversar com mortos. Não há quem me convença sobre tal. E fico admirado quando ouço quem creia. Ou defenda o “bate-papo” interdimensional como “instante para matar a saudade de entes queridos”. Prefiro o olhar de troça de Woody Allen, que debocha da prática, fazendo pilhérias sutis em seus filmes, como em “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” (2010), onde um idoso procura saber da ex-mulher, já morta, se poderia casar novamente. A namorada velhinha torcia, contrita nas sessões, que autorizasse.

         Porém, não é que, dia desses, recebi mensagem de um amigo, já morto, insistindo que lesse “O pensamento de direita, hoje”, de Simone de Beauvoir. Duvidei, mas recobrei as faculdades mentais e ri: era uma mensagem de dez anos atrás, que o Face trazia, a título de lembrança. Não declino o nome dele, até porque fiz o que recomendava: procurei o livro e o comprei num sebo virtual. A amizade é assim, fiel. O livro era fininho e parecia saído do túnel do tempo: 1967. Até agora, só li partes, todas explosivas. Um aperitivo: “O burguês tem medo (...) e vive na iminência do cataclismo que o abolirá”, escreveu a filósofa.

         Se olharmos ao redor, o clima é este mesmo. Há um esforço mundial para recuperar a direita, o que, em miúdos, é sinônimo claro de medo, mas deixemos o assunto para outro dia, pois o “além”, continua a me pregar peças. Acordei, no fim de semana, na “madruga”, embalado por melodia que não ouvia há tempo: “Alô, alô marciano”. Xinguei todos os ETs disponíveis no horário e tentei dormir, mas Orfeu não estava de plantão. E Elis continuou a todo vapor, engatando uma espetacular série de sucessos. Quando levantei, “Alô, alô” já tinha me possuído. Rita Lee e o marido Roberto Carvalho fizeram a música em 1980. Virou uma profecia sobre o agora.

         Na letra está lá: “para variar estamos em guerra”, que é o nosso trágico momento no Oriente Médio. Façam suas apostas: Bet-Israel ou Bet-Iran? Os Bets estão levando o dinheiro de todos. E as duas nações, as vidas. O civil é o alvo “preferido”. Dá até para ouvir: “você não imagina a loucura; o ser humano está na maior fissura porque”... Interpretada com maestria por Elis, a música, carregada de ironia e ceticismo, surpreendentemente trata dos nossos dias atuais, pois “tá cada vez mais down in the high society”. Uma metáfora à instrução de nossas elites, que consomem Gustavo Lima hoje como se consumia Frank Sinatra, no século passado.

         A canção avança com a “coisa tá ficando ruça – russa? -; muita patrulha, muita bagunça; o muro – das lamentações? – começou a pichar; tem sempre um aiatolá pra atola Alá”. “Tá cada vez mais down in the high Society”; “down, down, down in the high society”. “Ah, Deus, quanta loucura!”, sussurrava Elis, debochadamente, já nos finais... É o século XIX ficando mais distante de todos nós. Parece amigável, se comparado a agora, mas é ilusão. Por exemplo, o locutor Cid Moreira, apresentador do Jornal Nacional, morreu e está recebendo tratamento idêntico ao de Delfin Neto e Sílvio Santos pela grande imprensa.

         No obituário dos três, TVs e jornalões purificaram suas biografias. Não houve menções sobre a participação deles na Ditadura. Delfin criando uma política econômica, baseada em empréstimos em dólar, que fez o país crescer num momento, o “milagre econômico”, e quebrar noutro, “o bolo solou”. Sílvio criando um império econômico, consolidado quando ganhou um canal de TV dos militares por serviços prestados. E Cid porque emprestou sua bela voz para dar credibilidade aos desatinados ditadores. “Tá cada vez mais down in the high Society”; Down, down, down...

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia - 04.10.2024

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