Bach com filtro
Cláudio Pimentel
Se Bach fosse uma marca de cigarro, jamais teria abandonado
o vício de fumar, mal que já saiu deste corpo há uns 30 anos. “Me dê uma
carteira de Bach!” Sonoro, não é? O mundo dos cigarros é assim. Sugere erudição,
elegância, confiança, habilidade, prazer... Acredito que o nome do grande
compositor teria efeito devastador entre os chics. Até nos demais. Bach seria
citado a todo instante, coisa nunca vista. A embalagem seria branco neve e a
arte teria na beirada do lado esquerdo um teclado de piano de cima para baixo
e, do lado direito, o nome Bach, na mesma condição: vertical. Tudo em cinza
grafite. Linhas paralelas nas cores roxo e amarelo ouro completariam o
designer. A tipologia, exclusiva, imita algo da era de Gutemberg.
Mas e daí, o que tem a ver os glúteos com as calças? Tudo e
nada. Viagens de quem passou o fim de semana ouvindo Johann Sebastian Bach. Quem
fuma ou já fumou sabe que o cigarro é um inimigo amigo ou vice-versa.
Inseparável, a bem da verdade. Está presente quando nos sentimos alegres ou
tristes. Nos acolhe quando sofremos perdas. Ajuda a refletir. Oferece
alternativas. Nos traz para o centro das ações. Não há problema que não tenha
solução. A música de Bach também. E de uma forma que não cause riscos. A música
vai ficar registrada para sempre em sua memória, associada a um momento especial
vivido por você. Qualquer música tem essa capacidade. Mas Bach, emociona.
Bach, entretanto, jamais fumaria. O mais talentoso de uma
família de músicos clássicos por gerações, foi casado duas vezes e teve 20
filhos, dos quais, nove sobreviveram e adotaram a música como meio de viver. Nasceu
em Eisenach, na Saxônia, em 21 de março de 1685. Era o caçula dos oito filhos
de Johann Ambrosius Bach, também músico. Tinha uma vida austera e dizem que
jamais sorria. Era religioso, luterano praticante. Para ele, o objetivo final
da música deveria ser apenas “glorificar a Deus e a recriação da mente”. É uma
pena que hoje, em nome desse mesmo Deus, poderosos matem sem piedade seus
próprios irmãos e primos. E, pela TV, assistimos compassivos. A “Suíte nº 3 em
D Maior” é “remédio” para todas as horas.
E motivos para adoecer não faltam, sendo a televisão hoje
seu maior disseminador. Fico impressionado com a audácia de alguns
apresentadores de telejornais que, adiantando que vão dar uma notícia ruim,
bárbara e violenta, se mostram condoídos pelo teor brutal. Não querem exibi-la,
mas exibem porque têm um compromisso em noticiar! Nenhuma traz, na maioria das
vezes, qualquer coisa de importante. Só sangue, dor, morbidez. Tratam a
violência como algo sem solução. Se é assim, por que, então, ainda continuamos
vivendo? O noticiário atual é um mau-olhado de poder infinito. Sorte é que
aprendi uma receita que pode dar jeito nisso.
Li, dia desses, que uma locomotiva do High Society carioca
encontrou uma forma diferente para tirar mau-olhado: tomar banho de champanhe.
Narcisa Tamborindeguy revelou a pérola em “Lady Night” e foi além: o banho
também atrai prosperidade, saúde e amor. Que graça! Só não disse qual marca de champanhe
usar. Brut serve? E Sidra? Pior, porém, é ver certos programas da extrema
direita repercutindo a descoberta do procurador geral da Venezuela, que acusou
Lula de ser agente da CIA. Que falta faz a Escolinha do Professor Raimundo! Era
muito mais divertida. Ou descobrir que, para Hollywood, não existe ganância na
produção de filmes como “velozes e furiosos” ou coisas do gênero e suas
repetições. Trata-se apenas de negócios. O capitalismo não tem jeito. Ouçam
Bach, sem filtro!
Claudio Pimentel é
jornalista.
Tribuna da Bahia – 25.10.2024
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