sexta-feira, 18 de outubro de 2024

crônicas

Lucidez e estupidez

Cláudio Pimentel

Lucidez é algo que se adquire ou vem de fábrica, ou seja, um item exclusivo para predestinados? Tenho o hábito de levantar questões, cujas respostas inexistem. Ou, se existem, nunca estiveram diante de mim. A palavra, aliás, se mistura, há tempos, a um clichê que todos já ouviram ou usaram: “Foi num momento de lucidez que escapei... que impedi...”. Quem trabalha com risco, entende. A máxima, então, estaria relacionada a um instante limítrofe à tragédia? Talvez. A lucidez, porém, é mais complexa. E pode surgir a qualquer tempo. Há quem jamais a experimente. Lucidez é argúcia, clarividência, perspicácia. Lucidez é dom. Um jeito de ver. Em suma, a soma de experiências que nos faz transparentes ao mundo.

A lucidez é o melhor ativo da pessoa numa carreira, qualquer carreira. Ela, necessariamente, não vai alçar esta pessoa ao sucesso, mas vai torná-la feliz, completa intelectualmente, proporcionando uma qualidade de vida melhor nos aspectos pessoais, íntimos e espirituais. A felicidade só é possível mediante lucidez. Um dos exemplos mais ricos de lucidez na história e que tem ocupado meu tempo é o do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela.

Quando chegou ao poder, todos esperavam que, com o coração cheio de ódio, ele se vingasse de todos os personagens que alimentaram, por anos, a política segregacionista do “apartheid”. Uma das maiores vergonhas da humanidade. Não foi isso o que fez, contrariando até os correligionários. Lúcido do seu papel diante da nação africana e do mundo, uniu o país. E não deu um tiro, um grito sequer.

O que sobrou em Mandela, entretanto, faltou no intervalo da 1ª para a 2ª Guerra Mundial. Seis meses depois do armistício, em junho de 1919, a Conferência de Paz de Paris, elaborou o Tratado de Versalhes, o mais importante dos cincos tratados elaborados para pôr fim à 1ª Guerra. Nele, o mundo só ficaria mais seguro se a Alemanha fosse definitivamente neutralizada. O país perdeu um sétimo do território e 10% da população para França e Bélgica.

O poderio alemão cedeu lugar à miséria e à frustração. Versalhes alimentou a ascensão do nazismo e a preparação da 2ª Guerra. Eleito com dois milhões de votos, em 1932, Hitler chega ao poder prometendo uma Alemanha poderosa. E consegue. Já dominava o planeta economicamente, quando decidiu invadir a Europa. Não precisava, mas o sentimento de vingança foi maior. Faltou lucidez.

E a falta de lucidez está se tornando marca desse quase um quarto de século. Não há mais nada que possamos classificar de algo para melhorar o mundo ou o lugar em que moramos. A sua ausência está presente em todos os cantos. Enquanto as grandes nações ocidentais fecham os olhos para a lambança que Israel, Irã, Hamas e Hezbollah fazem no Oriente Médio, temos que conviver com a surreal notícia de que órgãos transplantados em seis pessoas estavam contaminados pelo HIV.

É inaceitável. Toda a cadeia por trás dessa tragédia já deveria ter sido lacrada e seus responsáveis presos em flagrante. Vai debochar da vida das pessoas no Inferno! Depois do show de desprezo pela vida durante a Pandemia de Covid, fatos como estes jamais deveriam ocorrer. O Rio de Janeiro perdeu o Norte. E temo que o Brasil siga o mesmo caminho. É uma vereda aberta e sangrando. Ninguém mais se importa neste país. Só o Huck, mas na Ucrânia. É “pingo nos idiotas”. A estupidez aplaude penhoradamente.

Cláudio Pimentel é jornalista

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