O beabá do colunismo social
Cláudio Pimentel
É inúmera a quantidade de livros que assumem o desafio de explicar a prática jornalística, seus bastidores, domínio técnico, pulos do gato e algo que não se encontra às dúzias no mercado: sagacidade. A maioria foi escrito por grandes jornalistas, vários deles premiados e de reputação impoluta. São ricos em detalhes. E inspiram mais do que ensinam, o que é bom. Tem para todos os gostos: como fazer jornal impresso, revista, rádio, televisão; jornalismo investigativo, econômico, cultural; fotojornalismo, documentário, livro reportagem; entrevista. Tem até sobre jornalismo popular e jornalismo público, cujos focos diferem. Entre eles, só não vi um: coluna social.
Se ainda fosse na época do Ibrahim, é possível que algum espevitado alegasse que não vi porque colunista social não sabe escrever, mas “no creo”. Até encontrei um livro espetacular sobre o assunto: “Enquanto houver champanhe, há esperança – Uma biografia de Zózimo Barrozo do Amaral” (Intrínseca – 2016), do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. Não é técnico, mas é completo. Tem mais de 600 páginas. Para construir o perfil do mais refinado colunista do país, o autor mergulhou na história do colunismo no Brasil desde os anos 1950. Uma viagem de luxo pelas melhores redações de jornais, boates e festas de gente bonita, elegante e alegre. Uma aula sobre a história da cobertura social, sutilezas e evolução ao longo de três gerações.
O modelo da coluna do Zózimo, que estreou em 1969, no Jornal do Brasil, era algo como um jornal dentro do jornal. Além de mostrar os bastidores e a vida gloriosa dos grã-finos cariocas, trazia notícias políticas, econômicas, culturais e até esportivas. As presenças de estrelas internacionais, no país, eram exploradas até o caroço. E tudo com uma linguagem leve, escrita elegante, humor e tiradas demolidoras. Da gíria das ruas ao economês dos palácios, tudo era motivo para enriquecer nosso nobre quadro social. Os políticos tinham cadeiras cativas. Um elogio era um elogio, com veneno ou sem. O modelo inspira todas as colunas de hoje, social ou não, humoradas ou não.
Além de inovar, Zózimo acabou sendo também o primeiro colunista social a ser preso pelo regime militar, algo que indignou os algozes. “Até os burguesinhos estão contra a “revolução”! Não sofreu tortura. O “Dops” queria apenas assustar. Os militares, porém, começaram a acompanhar a coluna diariamente. E havia um motivo. O número de leitores crescia e o de fontes, ávidas em dar “furos”, também. Sair no Zózimo era receber uma faca de dois legumes. Os corações palpitavam até o JB chegar às bancas. Ele não escrevia frases, envenenava as palavras, diziam as vítimas.
A linguagem movida a farpas não era o principal segredo do sucesso da coluna. Havia outro. O jornalista fez a leitura correta do tempo. Percebeu que o Brasil mudava como o mundo, e um novo personagem dava as cartas: o jovem. As colunas até então existentes enaltecem as gerações quatrocentonas, ligadas ao comércio e ao setor agrário. A economia, com seus banqueiros e industriais dos ramos automobilístico e petrolífero, apresenta um mundo novo, cheio de significações e possibilidades: Beatles, Jovem Guarda, Tropicalismo, Brasília, homem na Lua, boom das comunicações e publicidade. Uma nova elite batia à porta e queria se apresentar. Zózimo foi o canal.
Com o início do fim da Ditadura, nos anos 1980, o glamour perdeu força. A sociedade acordava para a pobreza e a desigualdade social. Os colunáveis captaram o recado e pararam de se expor com a intensidade que se expunham. As grandes festas nos salões de suas residências ou nas boates foram minguando. Temiam uma “revolução francesa” tropical. Pragmática, a nova elite entendia que o dinheiro ganho não se prestava a festanças insanas. Eram insultos à realidade. Mais que isso é estragar o livro. É spoiler. A leitura é ótima.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 01.11.2024
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