O mundo virou um labirinto sem saída
Cláudio Pimentel
O labirinto é um lugar fácil de entrar e difícil de sair. Até criança sabe. Há, porém, quem prefira implicar com o seu espírito onírico, acusando-o de ardil para cabeças ocas. O inventor foi o arquiteto e escultor Dédalo, autor de obras como as “estátuas animadas”, que Platão cita no livro “Mênon”. Quem encomendou foi Minos, rei de Creta, que precisava esconder Minotauro, filho de Pasífae, sua mulher e filha do deus Hélio, o Sol, enfeitiçada por deuses que queriam vingar-se do rei cretense. Eles fizeram-na conceber uma paixão irresistível por um touro, gerando um ser metade homem, metade touro, logo confinado no palácio de Cnossos, um labirinto de quartos, salas e corredores que só Dédalo conseguia entrar e sair.
Desde cedo, brinquei com os desenhos de labirintos impressos no caderno infantil do “Estadão” de domingo. Tornou-se um vício. Na adolescência comprava a “Coquetel” para desafiar os “Labirintex”, se não me engano o nome. Hoje, quando vislumbro um, faço. Acho que foi naquela época que comecei a sonhar com formas e situações que lembram labirintos. Eles me habitam. Tenho pesadelos de tirar o sono, fazer suar e ter palpitações. Ora estou nas ruas de cidades, ora estou em prédios com infinitos andares. Se voltar a dormir, retornam. A pior experiência foi real. Entrei num labirinto de espelhos e tive que pedir ajuda para sair.
Há alguns dias, li “A Biblioteca de Babel”, conto de Jorge Luís Borges, escrito em 1941. Foi um susto. Borges também tinha sonhos com ambientes de labirinto e passou a escrever sobre suas ocorrências, investigando a causa que os movia. A principal delas ligava-se ao ambiente de insegurança, que podia ser o lar, rua, cidade, país, mundo. Quanto maior for a sensibilidade ou a capacidade intelectual, mais angustiantes serão os sonhos. Quando estava com preocupações pessoais, o volume de sonhos crescia. Em outro conto, “A morte da bússola”, Borges diz que o “mundo era um labirinto de que não se pode fugir”.
No labirinto, o que sempre está em jogo é a profundidade do pensamento. Maria Esther Vázquez, autora da biografia “Jorge Luis Borges – Esplendor e Derrota”, identifica que o tema nasce de um conflito de identificação e de rivalidade com o pai. Os contos seriam metáforas do inconsciente e equivaleriam ao corpo físico de Borges. Labirintos e espaços correspondem à memória pré-natal do ventre da mãe. Antigamente, os labirintos eram usados como uma forma de armadilha. Na era medieval, como forma de representação do caminho do homem para Deus. Durante as Cruzadas, como representação simbólica da peregrinação à Terra Santa. Hoje, é liberdade.
Obras, como “O Nome da Rosa”, livro de Umberto Eco, usa a mesma imagem de biblioteca labiríntica, vista em Borges, para dissecar o conflito entre homem e conhecimento. No mosteiro, onde investiga-se uma série de crimes, há um desentendimento sobre um estudo de Aristóteles sobre o riso. Virtude ou pecado? O labirinto é um lugar para se perder ou se achar? O labirinto é uma prisão imaginária, em que só fica preso quem não evolui. Num lugar onde todas “as paredes mudam” continuamente não se pode ficar parado.
O que pensar, por exemplo, do labirinto de Netanyahu. Ele não quer sair. Está inviabilizando a existência pacífica de Israel. Vai surgir o dilema: Israel ou Netanyahu? O caminho dele é suicida. E o labirinto das eleições paulistanas? Os socos assumiram o debate. O que é civilizado dançou. A única saída é o conhecimento. São Paulo virou o nosso pior labirinto.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 27.09.2024
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