A arte de fazer, saber e perceber
Cláudio Pimentel
O cronista é o escrevinhador de tudo o que já foi escrito. Então, nada mais seria original? É o que o filósofo Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), já... furioso da vida, dizia desde o século XIX, quando a Alemanha deu os primeiros passos para abandonar o erudito pela fuzarca de produzir o que gera fama. Está em “A arte de escrever”, no qual ataca a literatura de consumo e tenta separar os bons escritores dos ruins. Imagine hoje. Enviaria drones organofosforados às mecas da indústria cultural: Nova York, Paris, Londres... E naquela época, os cronistas sequer existiam. Prefiro Paulinho da Viola, preocupado com os rumos do samba, ao dar um pito, em Benito di Paula, com “Argumento”: “Faça como um velho marinheiro; que durante o nevoeiro; leva o barco devagar”.
É o que faz o cronista com a crônica, produto genuinamente nacional. O mestre Machado de Assis, já reconhecido como um dos maiores escritores de todos os tempos, ensina: “O modo mais fácil de iniciar crônicas é se utilizar de trivialidades”. Feito isso, cerque-se de assuntos que chamaram a atenção da comunidade, estabeleça um pequeno debate entre certo e errado, bem ou mal, ou outra dicotomia. Acrescente tiradas bem humoradas e irônicas, alguns argumentos que promovam a reflexão, suportando-os com afirmações de filósofos ou especialistas. Coloque o leitor no centro do ambiente e finalize com algo que eleve seu bem estar, aguce sua curiosidade e acenda a felicidade que existe no coração. Uma fórmula que cabe a qualquer um.
E perceba que, neste século XXI, a felicidade anda mais cara do que gasolina; mais escassa do que água; e mais distante do que Andrômeda, a galáxia mais próxima da Terra, a 2,5 milhões de anos-luz. A felicidade, palavra ou sentimento mágico que habita ou não todos nós e que se faz presente em qualquer crônica. Recentemente li que o psicanalista ítalo-brasileiro Contardo Calligaris havia, em 2014, participado de uma entrevista onde revelou que não se importava muito em ser feliz. Que de fato, a felicidade sempre lhe pareceu uma preocupação desnecessária. Eu me arrepiei. Sempre pensei que era a única pessoa que não dava bola para ela e não comentava com os outros porque, assim, como quem se diz ateu, atrai também uma curiosidade infinita. Digamos, então, que em ambas sou, mas não praticante. Assusta menos.
Em tempos de Olimpíadas, quando se escreve menos e se fala menos da vida, vibramos mais. Enquanto os atletas se exercitam, nós nos exorcizamos, tendo a impressão de que os problemas desaparecem. Era, então, de se imaginar que as crônicas sofressem um início de pane, mas não. É aí que elas crescem. É quando todos estão voltados para os resultados do judô, vôlei, natação e demais esportes, e se esquecem de si mesmos, que elas surgem para lembrá-los de que, diariamente, praticam tudo ao mesmo tempo agora, sem se dar o mesmo valor. Sem ter direito a medalhas.
É a hora em que a crônica vai alertá-los de que a felicidade está flexível, fácil de assimilar. Não foi assim que Rebeca e suas medalhas nos deixaram? Seus movimentos, que mais pareciam poesia, são os movimentos de todos nós na lida diária. Sentir empatia por quem ralou, como ela, para ganhá-las, é reconhecer como ralamos, damos duro também. A vitória dela complementa a que nos falta. Não é a recompensa fácil que engravatados exibem diuturnamente num misto de auto glorificação e locupletamento dispensável e doentio.
Até a violência que alimenta a produção de notícias no país parece ter arrefecido, mesmo que as produções de TV, todas comprometidas com as promessas de vendas de anúncios, tentem reverter com um flash aqui e outro acolá do mundo cão que nos assombra. Não adianta, o clima é de torcida. Até as guerras, com exceção dos psicopáticos Israel e Irã, dão tréguas, ainda que tênues. Os esportes unem, nos levam, como espectadores, ao Olimpo. O saber e o fazer humano se espalham e todo indivíduo tem direito de saber aquilo que é digno de ser sabido e vivido.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 09.08.2024
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