Que o sombrio vire fonte de luz
Cláudio Pimentel
Todo começo é frágil. As primeiras palavras hesitam. Frases deixam a desejar. E temas delicados desafiam. Reivindicam prudência e precisão. Não existem margens para erros, mas o improviso é uma exigência como no jazz. Tudo conspira. Tudo inspira. Vamos lá: Como foi possível a Hitler chegar ao poder liderando uma ditadura de consenso? Que forças levaram os alemães a se dedicarem disciplinadamente para erguer uma máquina de guerra aterrorizante e covarde? O que houve com aquela sociedade de alta cultura que se deixou hipnotizar pelos valores ultranacionalistas e antissemitas do nazismo? Por que aceitou participar da caçada desumana a judeus e outras minorias raciais europeias? Como surgiu esta alucinante fraternidade?
Mais frágil é aceitar o nazismo no século XXI. É possível depois do estrago que causou com suas fogueiras, torturas e extermínios? A execração mundial e as condenações de líderes por crimes de guerra não serviram de lição? O surgimento de grupos de extrema direita, inspirados no nazifascismo, nos Estados Unidos, França, Espanha, Itália e Brasil são compreensíveis? Nenhuma criança responderá “nazista” se lhe for perguntado o que quer ser quando crescer. Adultos, porém, estão dizendo sim ao retrocesso antidemocrático. Uma onda cheirando a mofo de ditaduras malogradas, como as de Franco, Salazar e Mussolini, se apresenta como novidade. Não é. O nazismo emite sinais.
O mais recente deles ganhou as páginas do “The New York Times” e de “O Globo”: a Alemanha não sabe o que fazer com a mansão que pertenceu a Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista de Hitler. Há um dilema: ela é cara para manter e perigosa para vender. O governo de Berlim cogita doar o local mediante avaliação dos possíveis contemplados. A extrema direita alemã, porém, já se candidatou para comprá-la. O grupo “Reichsbürger”, que nega a legitimidade do estado alemão, pediu o preço. Berlin quer se livrar da mansão, mas prefere demoli-la a entregá-la a qualquer um. Goebbels foi um dos arquitetos do nazismo. Um símbolo que honraria a extrema-direita mundial.
Autoridades alemãs avaliam o movimento como danoso, pois impõe outro dilema: preservar ou destruir as muitas edificações do passado odioso da Alemanha? O apartamento de Hitler, em Munique, há anos, é uma delegacia de polícia. Pouco se sabe sobre o imóvel. No ano passado, a Áustria decidiu converter o local de nascimento de Hitler em uma delegacia também, atendendo simpatizantes. Gerou debates acalorados. A mansão de Goebbels, que tem oito hectares, exige gastos de R$ 1,6 milhão por ano para impedir que desabe. Com o fim da Guerra, a casa virou uma escola de doutrinação do Partido Comunista da antiga Alemanha Oriental. Serviu a dois regimes totalitários.
À medida que a extrema-direita foi ressurgindo na política alemã, houve uma percepção da sociedade de que lembrar o passado seria o melhor caminho para nunca mais esquecê-lo. A percepção era deixar como está, ignorando aquele período. A mansão de Goebbels será esquecida ou não? Hoje, uma mata densa bloqueia a entrada para o cinema particular do poderoso ministro, que exibia seus filmes de propaganda à liderança nazista, sempre presente para jantares e festas. Em “Bastardos Inglórios” (2009), Quentin Tarantino simula uma dessas exibições num cinema de Paris. Era uma armadilha para matar o alto comando nazista. Nos últimos dias da guerra, Goebbels e esposa envenenaram os filhos enquanto brincavam diante da lareira da casa.
Edifícios, por si só, não são malignos. As pessoas que os tornam assim. O culto a prédios, túmulos, imagens e objetos é uma forma de fomentar ideologias. De submeter pessoas ao jugo de outras. Um embuste. A solução para a mansão de Goebbels é preservá-la, criando-se ali um centro de educação para combater todas as formas de ódio. A sugestão é do presidente da Associação Judaica Europeia, rabino Menachem Margolin, que se ofereceu para coordená-la. O ódio é o problema. Esta é a mensagem. Diz o rabino: “Que mesmo o lugar mais sombrio do mundo pode se tornar uma fonte de luz”. É por aí. Quanto aos custos, a Alemanha resolve. É rica e consciente. Afinal, quem foi que criou o problema?
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 16.08.2024
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