sexta-feira, 2 de agosto de 2024

crônicas

As rosas falam

Cláudio Pimentel

         Intérprete sensível de belas canções que fizeram sucesso na voz de outros artistas, Roberto Carlos, que tem mais de 1.100 gravações, jamais cantou “As rosas não falam”, o que causou uma tremenda surpresa, sobretudo, pelo motivo. Descobri a curiosidade na longa e rica biografia “A bossa do lobo – Ronaldo Bôscoli” (2011), do escritor Denilson Monteiro, autor também da biografia “Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial” (2008). Dois bad boys que deram vida ao emergente e inovador cenário musical dos anos 1960/70: um, ajudando a criar a “Bossa Nova”; e o outro fazendo o mesmo pela “Jovem Guarda”.

         Bôscoli e o parceiro Luís Carlos Miele foram produtores por três décadas do espetáculo anual de Roberto Carlos, no Canecão, no Rio. E, numa dessas edições, a de 1987, a dupla sugeriu a ele que acrescentasse, como uma das novidades do show, intitulado “Detalhes”, a música de Cartola, sucesso de Beth Carvalho. Para surpresa de ambos, o rei, que era cheio de manias, disse que não ia cantar. Bôscoli insistiu, mas desistiu tão logo ouviu a justificativa: “Bicho, não posso cantar isso. É mentira. Converso todos os dias com minhas plantinhas. Falo com elas. As plantas falam, bicho”.

         A biografia é minuciosa. Troca a lupa, para esmiuçar os 40 anos da trajetória de Bôscoli, por um microscópio, perfeito para identificar invisíveis e perigosos vírus e bactérias. Não, não foi esta a ideia de Denilson, associá-lo a algum germe, mas apenas uma sensação, pois o autor ao longo de tantas páginas jamais teceu qualquer juízo de valor sobre ele. Ao contrário, o biógrafo baseou-se apenas em fatos, que são cruéis com Bôscoli. Zoou muito. Ao final, o que surge é um homem amargo, distante do legado que deixou. Alguém que fazia maldades e era ácido com amigos e machista com mulheres. Um colecionador de amigos e inimigos, estes em número bem maior.

         Alquebrado, Bôscoli meteu a língua pelas mãos. Espalhou que “Chega de Saudade” (1990) e “Anjo Pornográfico” (1992), de Ruy Castro, haviam sido ditados por ele ao amigo, e que o primeiro livro era praticamente seu. Ruy resolveu cobrar Bôscoli, que mentiu, novamente, negando tudo. Castro, então, usou do próprio veneno dele para puni-lo mandando a mensagem: “Ronaldo, estou preocupado com você, porque, depois de me ditar o Chega de Saudade e O anjo pornográfico, estou precisando que você me dite também o livro do Garrincha, que estou fazendo. Mas tenho medo que você morra antes”. A longa amizade se foi.

         Se o personagem tem boa imagem pública, mas é cruel no ambiente privado, o poder da biografia pode ser devastador. Até ler a de Ronaldo Bôscoli, ele era um quase desconhecido para mim. Sabia de sua existência e importância e não muito mais. Tinha verve crítica, mas ignorava a ditadura. Algo que me impactava. Era época de engajamento e não de alienação. Jamais li suas colunas na “Manchete”, na “Última Hora” ou em qualquer outro veículo sobre futebol e bastidores artísticos. Passou despercebido e não lembro porquê.

         Em 1986, vi um fenômeno parecido, envolvendo imagem pública e privada. As eleições ao governo da Bahia reuniram, em lados diferentes, o laureado Waldir Pires e o jurista Josaphat Marinho, dois democratas que se opuseram à ditadura. Marinho, porém, entrava no pleito com a benção de um aliado dos militares, o ex-governador Antônio Carlos Magalhães, duas vezes biônico. “Malvadeza” queria confundir o eleitor. Estimado e reconhecido, Marinho, porém, não resistiu à associação com ACM. Waldir venceu.

Outra biografia, “Mestre Josaphat – um militante da democracia” (2008), do professor Luiz Almeida, resgata, anos depois, a imagem do jurista, cujo papel sempre foi o de combate à ditadura e retorno à democracia. O arranjo político foi ruim, mas, ao contrário do biografado Bôscoli, Marinho tinha perfil rico e um passado de realizações. Cometeu um erro político que o tempo apagou. “Mestre Josaphat” é um livro para políticos e estudiosos. Arquivo meticuloso de um período que merece ser conhecido. De um tempo em que ser honesto era ser honesto. E justiça social, um mantra, pelo menos para ele e para Waldir também.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 02.08.2024

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