Toca Raul
Cláudio Pimentel
Jamais havia ouvido “Toca Raul”, até uma amiga entoá-lo, como a soprano Maria Callas, do meio da plateia que balançava no Largo da Mariquita. “Toca Raul”, repetiu como um trombone. Era sexta-feira, finalzinho da noite e do Verão e, no palco, um grupo de artistas cubanos, tipo “Buena Vista Social Clube”, desfilava seu charmoso gingado sem entender nada. Em minutos, outros gritos foram ouvidos: toca Raul... toca Raul... Principiava um coral de raúúúús até que tudo se acalmou e o show seguiu sem incidentes. Ela era fã de Raul Seixas e, assim, como outros milhares deles, espalhados pelo país, criaram o hábito de exprimir seu lamento por não tê-lo mais num palco: “Toca Raul”.
Raul Seixas entrou em minha vida quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Entrou cantando “Let me sing, let me sing” e tatuou o rock em meu coração. Foi aí que, finalmente, entendi o que “Little Richard”, pai do Rock, dizia antes de cantar “Tutti Frutti”: “A wop bop a loo bop a wop bam boom!". Era demais. Não parei mais de repetir. Enchia o saco. A expressão era a tradução do que o Rock é: diversão, tirar sarro das coisas, ser do contra com humor, fúria, perspicácia, ironia... Sonhava em me tornar um, mas, faltava talento. Não era fácil ser Richard, Presley, Seixas, Hendrix, Joplin... Não era para qualquer um. Gritar “Toca Raul” já bastava!
Lembrei disso assistindo, nesta semana, num canal fechado, o documentário “Raul – O início, o meio e o fim” (2012), do diretor Walter Carvalho. Me fez rir, chorar e me indignar com tudo. Me fez pensar na vida. É só isto? O filme estava sendo exibido para marcar os 35 anos de sua morte, ocorrido em 21 de agosto de 1989, quando estava com 44 anos, um menino. Alquebrado e desiludido. Com sabedoria, Carvalho toca o filme sem tomar partido, nem o de Raul. É seco. É leve. É o que é. Quem assiste pensa o que quiser. Raul passou por poucas e boas. E passou porque pensava grande, pensava longe, pensava como se um universo fosse. Queria o universo para si. Viajei.
Raul não veio da MPB, da Bossa Nova ou da Jovem Guarda. Seu único movimento foi a “Sociedade Alternativa”, título de uma canção, do qual era o “Maluco Beleza”, título de outra canção, duas das mais bem elaboradas que fez. Paulo Coelho, parceiro de anos, revela que o seu maior desejo era ter feito “Maluco Beleza” com ele. Raul estava em todos os movimentos, misturando rock com baião, xaxado, embolada, bolero, twist, sons de terreiros, blues, folk, country. Não ficou preso às referências do rock norte-americano e inovou com os ritmos que dispunha. “Mosca na Sopa” é um exemplo de irreverência e misturas exóticas. Sua música protestava? Dizia que não. Era apenas “Seixeana”.
Faltou oportunidade para vê-lo ou entrevistá-lo. Eu era muito jovem. Conheci, porém, quem o viu. Um jornalista me contou que, no final dos anos 1970, depois do grande sucesso, voltou à Bahia. Esse amigo o procurou para uma entrevista a ser publicada num jornal local. Quando chegou ao hotel, Raul o recebeu com desculpas. Abre a porta do quarto e corre para o banheiro. Mandou que sentasse em algum lugar, alegando que estava com dor de barriga e que a entrevista seria assim, ele no “trono” e o jornalista noutro lugar. A cena me remeteu ao documentário e para um personagem que inventou quando mergulhou no ocultismo: “Toninho Buda”. Ele aparece satanizando símbolos diversos sentado ou usando o vaso sanitário.
É incrível a vocação de cometa que personagens, como Raul, têm. Viram riscos no céu. Astros que nossos corações veem toda noite de um lado a outro. Assim o vejo. Passei o final de semana ouvindo suas músicas sem me lembrar do quão especial era a semana. “Ouro de Tolo”, “Gita”, “Metamorfose Ambulante” e “Tente outra vez” são satélites da “Estrela Raul”, nome com ruído de rosnado e uivo. Sua eternidade é decorrente da capacidade poética de se fazer entendido por todos, independente dos gêneros, estilos ou temas. “Toca Raul.”
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 23.08.2024
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